Bordeaux é uma região associada à produção de vinhos. É lá que situam majestosas vinícolas, quase sempre chamadas de Château, e um sistema de classificação hierárquica de seus vinhos, que já tem mais de um século e meio de tradição. No entanto, existe uma sub-região de Bordeaux que não segue estes conceitos. E, mesmo assim, consegue ser a origem do vinho que nos últimos anos tem consistentemente sido o mais caro de Bordeaux.
Esta denominação de origem é Pomerol. Situada na margem direita da Gironde, mais especificamente na região de Libournais, tem uma longa história no mundo do vinho. Porém, o grande impulso veio a partir da década de 1980. Foi quando diversos críticos de vinhos, com destaque para Robert Parker, a colocaram em maior evidência. E as avaliações de um vinho em particular, tiveram grande impacto. Château Pétrus, o ícone do Pomerol, passou a ser definitivamente reconhecido com um dos grandes vinhos do Bordeaux.
Um pouco de história
No entanto, a reputação do Pomerol como origem de grandes vinhos é muito mais antiga. E isso não se restringe somente ao Château Pétrus. A tradição na viticultura começou já na época romana e ganhou forte impulso a partir dos séculos XII e XIII, por conta da atuação dos Cavaleiros Hospitalários. Esta ordem monástica surgiu em Jerusalém durante as Cruzadas e deu origem à ordem de Malta, existente até a atualidade. Isso ajuda a explicar a presença, ainda hoje, de versões de cruzes nos rótulos de muitos vinhos da região.

A região seguiu se destacando por séculos por seus vinhos, inclusive brancos, que eram tanto exportados como consumidos localmente, lembrando que uma das rotas do Caminho de Santiago ainda passa pela região. A chegada da filoxera na segunda metade do século XIX, porém, mudou completamente a situação, sendo responsável pela concentração em uvas tintas, vista até hoje.
A denominação de origem e suas uvas
A apelação de origem controlada (AOC) Pomerol foi criada em 1936. Porém, os vinhos desta região já eram oficialmente diferenciados daqueles da vizinha Saint-Émillion ao menos desde 1923, com a definição de seus limites atuais ocorrendo em 1928. Foi a partir da criação da AOC que veio a proibição do cultivo de uvas brancas, com foco apenas em Merlot, Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon e Malbec. Assim, atualmente somente se elaboram vinhos tintos em Pomerol.
São 813 hectares de vinhedos, atualmente plantados com apenas três variedades: cerca de 70% com Merlot, 25% com Cabernet Franc e 5% com Cabernet Sauvignon. E esta distribuição tem a ver com o terroir da região. A combinação de solos de cascalho com alta proporção de argila e calcário, com as condições climáticas faz de Pomerol uma região onde a Merlot reina. De forma geral, ela traz resultados muito melhores do que no restante de Bordeaux, sobretudo na comparação com a margem esquerda.

Pomerol é uma denominação de origem pequena, pois tem cerca de três por quatro quilômetros de extensão. Ela produz menos do que 1% do total de vinhos produzidos em Bordeaux. O grande diferencial, deste modo, fica no quesito qualidade. Porém, ao contrário de outras denominações na região, em Pomerol não existe uma classificação hierárquica formalizada das vinícolas.
Terroirs distintos
Mesmo não existindo uma classificação formal, existe uma certa hierarquia dos melhores produtores da região. Todavia, ao contrário da margem esquerda, no Pomerol isso é determinado muita mais de acordo com diferenças no terroir. É a singularidade dos terroirs e solos distintos que dão origem aos diferentes estilos e perfis de qualidade dos vinhos do Pomerol.
A maneira mais fácil e simples de olhar para Pomerol é dividi-lo em três partes: o plateau de Pomerol, as encostas ao longo deste plateau e, por fim, as parcelas planas. Aquelas que são consideradas as melhores propriedades estão localizadas no plateau, muito por conta de sua diferente altitude e composição distinta de solos.
A região de Pomerol é plana e as altitudes variam entre 7 a 39 metros, culminando exatamente na propriedade do Château Pétrus. É nesta parte do Pomerol que predomina o solo de argila azul, com alta concentração de ferro, chamado localmente de Crasse de Fer. Em nenhum outro vinhedo no mundo há uma concentração tão grande deste solo, que amplia a capacidade de retenção de água pelas videiras e resulta em uvas de alta qualidade.
Vinhos e produtores
Por ser uma região pequena e que rapidamente ganhou destaque nas últimas décadas, existe uma grande preocupação com a qualidade dos seus vinhos. Isso começa nos vinhedos, já que os regulamentos da AOC limitam o rendimento a 42 hectolitros por hectare. Mas vem também avançando nos produtores, até porque no passado existia uma maior variação de qualidade, com alguns nomes dentre os principais vinhos de Bordeaux e outros beirando a mediocridade.
Por conta da diferença de solos, Pomerol produz estilos diferentes de vinhos. A partir das partes mais baixas da região e com solos arenosos, os vinhos tendem a ser mais leves e ácidos, trazendo aromas com maior presença de frutas pretas e vermelhas. Já os vinhos do plateau são mais complexos e estruturados, quase sempre definidos como redondos e com taninos aveludados, além de textura mais definida e aromas complexos de trufas, chocolate, flores, cerejas escuras, ameixas e especiarias exóticas.
Atualmente são cerca de 150 produtores elaborando vinhos nesta denominação, o que a faz uma região caracterizada por pequenos produtores. Château Pétrus segue sendo seu nome mais icônico, mas recentemente os vinhos de propriedades como Le Pin e Château Lafleur entraram também para o restrito grupo de vinhos mais caros do Bordeaux. Destaque também para produtores como Trotanoy, Vieux Château Certan, L’Evangile, La Conseillante, L’Eglise-Clinet, La Fleur-Pétrus e La Violette.
Fontes: World Atlas of Wine, Hugh Johnson; Vins de Pomerol; The Wine Cellar Insider; Vinorandum; All Wine Tours; Vins de Bordeaux
Imagem: antoine.bertier via CC BY 2.0 Creative Commons
Mapa: Vins de Pomerol
Eu gostaria de fazer uma reserva para uma degustação no chateau Petrus. Estarei na região de 25/09 a 28/09
Vale a pena entrar en contato diretamente com o Château Petrus, não temos certeza se eles têm uma programação de visitas pagas à vinícola. Boa sorte e ótima viagem