Paraje Altamira: conheça a origem de alguns dos melhores vinhos argentinos

Last Updated on 8 de maio de 2021 by Wine Fun

Paraje Altamira é um nome que você deve conhecer caso goste de vinhos argentinos. Mais do que uma região vinícola, ela se transformou em uma espécie de símbolo de qualidade e uma representação da moderna viticultura na Argentina, sobretudo levando em consideração como esta indicação geográfica (IG) foi criada.

A Argentina é um país que demorou para classificar suas regiões vinícolas, de forma centralizada, em escala federal (os primeiros exemplos foram a nível regional). Suas primeiras IG foram aprovadas somente em 2004. E boa parte destas IG teve suas áreas definidas de acordo com critérios que respeitaram divisões administrativas pré-existentes. Assim, ao contrário do que ocorre em muitos países europeus, o terroir ficou em segundo plano.

Porém, a criação da IG Paraje Altamira em 2013 seguiu por um caminho distinto. Seus limites oficiais (houve uma expansão posterior) foram definidos de acordo com estudos detalhados do terroir local. Um grande destaque foi dado para a análise dos solos, orientação e clima. Porém, antes de conhecer a criação desta indicação geográfica, vale a pena entender mais sobre sua localização e terroir.

Localização e origem

A região de Altamira fica localizada no Valle de Uco, mais especificamente em San Carlos. Aos pés da Cordilheira dos Andes, fica a cerca de 120 quilômetros ao sul da Mendoza e seu nome deriva da vista panorâmica que oferece de seu ponto mais alto. A altitude varia entre 1.000 e 1.200 metros, com um clima árido, onde as chuvas não passam de 260mm ao ano.

Esta região na parte sul do Valle de Uco, próxima ao vilarejo de La Consulta é um lugar onde, ao longo do século XX, os viticultores locais tradicionalmente colhiam uvas de excelente qualidade.  Nunca ficou claro exatamente qual era o limite de Altamira, porque não havia marcos perceptíveis. Mas o que sempre se observou era que os vinhos elaborados com uvas ali plantadas mostravam importantes diferenciais em termos de qualidade.

Solo e clima

De forma geral, Altamira corresponde ao cone aluvial do rio Tunuyán, que nasce a mais de 5.000 metros de altitude nos Andes e desce até o planalto que caracteriza esta região. Os solos de Altamira, por conta disso, têm uma antiga fundação fluvial coberta por depósitos aluviais mais jovens e é caracterizado pela presença de rochas, que em alguns casos excedem 2 metros de diâmetro. Estas rochas têm uma aparência branca devido à intensa cobertura de carbonato de cálcio, que evidencia a característica de solos calcários que marcam a região.

Solos da IG Paraje Altamira

O clima é continental, com grandes variações térmicas, ou seja, alternância entre frio intenso e altas temperaturas, muitas vezes durante intervalos curtos de tempo. Nesse clima, as uvas amadurecem lentamente, produzindo vinhos com complexidade e acidez.

A criação da GI Paraje Altamira

Por conta destes importantes diferenciais de solo (solos calcários são relativamente raros em áreas vinícolas da América do Sul) e clima, ao longo dos anos esta região tem sido utilizada para o cultivo de uvas. Ao contrário de outras regiões do Valle de Uco, em parte da área de San Carlos é possível encontrar vinhedos com mais de 100 anos, com a área dividida em pequenos vinhedos nas mãos de muitos produtores.

Porém, os primeiros esforços de criar uma indicação geográfica veio de grandes produtores, que começaram a investir de forma mais intensa na região a partir do fim da década de 1990. Os esforços se intensificaram a partir de 2009, com a proposta de criar de uma nova IG, que ganharia autonomia em relação a La Consulta, a indicação geográfica de qual fazia parte.

Em 2013, por conta o impulso (e financiamento) de três produtores (Chandon, Catena Zapata e Zuccardi), o Instituto Nacional de Vitivinicultura (INV) aprovou a nova IG, com base em um estudo preparado pela Faculdade de Ciências Agrárias da Universidade Nacional de Cuyo (UNC). Usando critérios técnicos (sobretudo solo), foi definida uma área de cerca de 4.500 hectares, correspondendo ao cone aluvial do rio. Por conta de questões comerciais envolvendo o nome Altamira, a IG foi chamada de Paraje Altamira, nome pela qual é conhecida até hoje.

Cone aluvial

Polêmica

Porém, o processo de criação e posterior expansão desta indicação geográfica foi repleto de controvérsias. Se, de um lado, as três grandes vinícolas que lideraram o processo de criação se aliaram a diversos pequenos produtores, existia também uma oposição à proposta. Grandes grupos e produtores com vinhedos em áreas que não fariam parte da GI, como Rutini, Alto Las Hormigas, O. Fournier, Peñaflor e Bodegas As, pressionaram pela não aprovação, mas saíram derrotados.

Em 2016, porém, com base em novos estudos apresentados por estes produtores, o INV decidiu ampliar a área delimitada da IG, que passou para um total de 9.300 hectares. Até hoje segue a polêmica entre os grupos, apelidados de “nativos” (com quase 50 produtores locais) e “imigrantes”. Parte critica de forma contundente o que seria uma descaracterização da proposta técnica inicial, e outra parte apoia a decisão de 2016 do INV.  

Vinhedos, uvas e produtores

Atualmente a IG Paraje Altamira conta com cerca de 9.300 hectares, dos quais cerca de 4.000 hectares são propícios para vinhedos de qualidade – dos quais 2.785 ha já plantados em 2019. A Malbec é a variedade mais cultivada, mas a região conta com vinhedos relevantes também de uvas como Cabernet Franc, Sémillon, Torrontés, Bonarda, Syrah, Chardonnay e Tempranillo.

Diversos produtores elaboram vinhos na região ou com uvas plantadas em Paraje Altamira. Entre eles, destaque para Zuccardi, Catena Zapata, Chandon, Salentein, Chakana, Altos Las Hormigas, Susana Balbo, Las Perdices, além de produtores/enólogos como Alejandro Sejanovich e Alejandro Vigil. No entanto, talvez o produtor mais associado a região seja a Achaval-Ferrer, que lançou em 1999 o seu cuvée Achaval Ferrer Finca Altamira, o primeiro vinho desta região a atingir um status diferenciado.

Fontes: The construction of Paraje Altamira, Wines of Argentina; Las indicaciones de origen geográfico de vinos en la legislación argentina, Marcela S. Molina; How does the denominations system work for Argentine wine?, Wines of Argentina; El polémico fallo de la IG Altamira, La Noche En Vino; Controversial ampliación de la IG Paraje Altamira, Estrategias y Mercados; Quejas por la ampliación de la IG Paraje Altamira, Los Andes; PiPA and Paraje Altamira GI, what’s next? , South America Wine Guide; A Revolution of Place: Argentina Classifies Its Terroirs, Vinous;

Imagens: PIPA (Productores Independientes de Paraje Altamira)

Mapas: Wines of Argentina

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