Ainda existe muita discussão sobre os benefícios da adoção dos métodos orgânicos ou biodinâmicos na viticultura, substituindo a agricultura mais convencional. De um lado, há quem defenda a utilização de fertilizantes químicos, pesticidas e herbicidas, entre outras substâncias, para controlar pragas e melhor proteger os vinhedos. De outro, estão aqueles que buscam técnicas mais naturais, alinhadas com tradições agrícolas milenares.
E nada como analisar números e usar a ciência para entender melhor esta polêmica. Do ponto de vista financeiro, está claro que tanto os métodos orgânicos como biodinâmicos implicam em um custo maior para o viticultor. E um dos fatores é que eles requerem mais trabalho manual e maior envolvimento direto com o cuidado das videiras. Mas e do ponto de vista de qualidade do solo e das uvas? Um estudo recente ajuda a responder, ainda que parcialmente, esta pergunta.
Estudando a qualidade dos solos
Uma das formas de entender melhor o impacto dos diferentes regimes de agricultura é analisar a qualidade dos solos. Segundo Lionel Ranjard, diretor de pesquisa em agroecologia do INRAE (Instituto Nacional de Pesquisa para Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente), sediado em Dijon, a qualidade do solo pode ser medida. “Hoje temos as ferramentas para extrair, quantificar e sequenciar DNA de quase qualquer tipo de solo. Elas nos permitem conhecer a biodiversidade microbiana e fazer um inventário de todas as espécies presentes”.
E isso foi feito, buscando entender quais são as condições do solo em cada regime distinto de agricultura. A equipe do INRAE coletou 2.200 amostras de solo em diversas regiões francesas, para desenvolver mapas de presença e diversidade microbianas. “Temos valores de referência a cada 16 km em toda a França”, afirmou Ranjard. O estudo compara esses valores de referência com os medidos na rede de 150 parcelas de vinhedos do projeto EcoVitiSol, iniciado em 2019.
Essas 150 parcelas, foco deste estudo, estão distribuídas em torno de Colmar, na Alsácia, além de vinhedos na Côte de Nuits, Côte de Beaune e Mâconnais. Para poder comparar os resultados, um terço das propriedades foi cultivada em viticultura convencional, um terço com viticultura orgânica e o restante em biodinâmica.
Maior biodiversidade
Os resultados falam por si. A análise de DNA das primeiras 75 parcelas mostra o impacto negativo das técnicas convencionais, como aragem agressiva e uso de pesticidas, na qualidade microbiana. Ao comparar os regimes de agricultura, Ranjard observou que as parcelas conduzidas de forma convencional contêm menos biomassa do que as da viticultura orgânica, que, por si só, são menos ricas do que as parcelas cultivadas em biodinâmica.
Essa classificação também se aplica à diversidade bacteriana. A qualidade microbiológica de 40% das parcelas convencionais é 30% menor que o valor de referência, contra 26% na agricultura orgânica, e apenas 19% em biodinâmica. E cerca de 38% das parcelas biodinâmicas têm um solo mais “vivo” do que a média regional, contra apenas 11% na viticultura convencional.
Porém, para toda regra existem sempre exceções. Há parcelas em condições melhores ou piores do que a média nos três regimes de agricultura comparados. Embora, na média, os resultados mostram melhor qualidade dos solos no cultivo biodinâmico, este não é o único fator a ser levado em conta. O estudo mostra também que viticultores convencionais podem fazer agroecologia muito bem, e, de outro lado, que somente a biodinâmica não garante boa qualidade do solo.
Motivos e mais pesquisa
Outro dado mencionado é o que mostra a interação entre bactérias e fungos no solo. A diferença entre os regimes de agricultura aumenta quando o estudo inclui as redes de interação entre as espécies. Segundo Ranjard, “bactérias e fungos combinados, nossos resultados preliminares dão uma média de 49.000 interações em biodinâmica, contra 1.700 em orgânicos e 1.400 no convencional. Ou seja, temos 30 vezes mais interação em biodinâmica”.
Quais os motivos para isso? Esses resultados estariam ligados ao uso dos compostos biodinâmicos? Ou seriam causados pela diferença nos conhecimentos técnicos dos viticultores? Os pesquisadores ainda não têm as respostas para estas perguntas, mas esperam poder respondê-las em 2023, quando este estudo estiver completo. Para quem quiser se aprofundar no assunto, abaixo o link para o webinar ministrado por Lionel Ranjard.
Fontes: La microbiologie des sols en vigne : quelles pratiques pour un sol vivant?; Vitisphere
Imagem: David Mark via Pixabay