Wachau: conheça uma das pérolas do vinho da Áustria

Wachau dá origem a alguns dos grandes vinhos da Áustria, sobretudo quando falamos dos brancos elaborados com as variedades Grüner Veltliner e Riesling. É uma região com longa tradição na viticultura, que supera 2.000 anos e teve início mesmo antes da chegada dos romanos. Porém, mesmo com tanta história, foi somente a partir de 2020 que esta pequena região ganhou o status de denominação de origem.

É uma área mais reconhecida pela qualidade de seus vinhos do que pelo volume de produção. Dentre as 18 DAC (Districtus Austriae Controllatus), que são as denominações de origem controladas da Áustria, figura somente na sétima colocação, com cerca de 4% da produção de vinhos Qualitätswein. Porém, em termos de reputação, o cenário é distinto. Além de uma parcela significativa dos melhores produtores austríacos, conta com um terroir diferenciado. Isso inclui uma vasta área de terraços construídos em encostas íngremes às margens do Danúbio, o que torna esta região ainda mais fascinante.

A localização da Wachau DAC

Longa história

Acredita-se que a viticultura na área de Wachau remonta às tribos celtas que habitavam a região. Com a chegada dos romanos, a produção de vinhos atingiu um novo patamar, com a primeira menção dos vinhos da região. O historiador romano Eugippius, em 482 d.C., menciona na biografia de São Severino que, antes de sua morte, o religioso teria se retirado para um lugar qui ad vineas vocabatur, que significa “entre os vinhedos”. Estas videiras, para muitos historiadores, estariam localizadas na margem direita do Danúbio, próximo a Krems.

A queda do Império Romano não teria sido um obstáculo decisivo para a viticultura da região. Em 795, o imperador Carlos Magno emitiu o Capitulare de Villis, um texto que orientava a administração das propriedades reais, com instruções detalhadas sobre viticultura e vinificação. Entre os séculos X e XII, os monges cistercienses trouxeram a cultura do vinho da Borgonha para a Áustria, seja na Abadia Heiligenkreuz como no claustro de Freigut Thallern. Ao longo do Danúbio, foram os bispados e abadias bávaros os principais empreendedores no cultivo de vales fluviais, incluindo o estabelecimento de terraços para os vinhedos em Wachau.

Declínio e recuperação

Após um período áureo, dois eventos impactaram de forma significativa a viticultura na Áustria, inclusive em Wachau. Primeiro, foram as invasões otomanas do século XVII. Porém, foi a chegada das pragas do oídio, míldio e filoxera, todas na segunda metade do século XIX, que afetaram de forma mais impactante os vinhedos locais. A recuperação começou a partir do início do século passado, porém dois eventos na década de 1980 efetivamente marcaram o início de um novo capítulo para os vinhos de Wachau.

Em 1983 deu-se a fundação da Vinea Wachau (Vinea Wachau Nobilis Districtus), uma associação dos produtores da região, com o intuito de garantir a qualidade dos vinhos locais, estabelecendo um estrito conjunto de regras de cultivo e produção. Já 1985 marcou a eclosão do “Escândalo do Vinho” na Áustria, com adulteração em larga escala, obrigando este país alpino a criar um conjunto muito mais robusto de regras. Estes esforços a nível nacional culminaram com a criação da primeira denominação de origem da Áustria em 2003, a Weinviertel DAC.

Embora Wachau já tivesse adotado uma classificação de seus vinhos desde 1984, de acordo com seu estilo, foi somente em 2020 que a Wachau DAC foi aprovada. Contando com um sistema de classificação de vinhos inspirado naquele da Borgonha, representou o início de uma nova fase da vinicultura local.

Localização e solos

Localizada na região de Niederösterreich, a cerca de 65 quilômetros a oeste de Viena, Wachau tem suas fronteiras bem definidas. Acompanha o vale do rio Danúbio por cerca de 33 quilômetros, entre as cidades de Melk e Krems. São cerca de 1.300 hectares de videiras, divididos em 155 vinhedos, ou Ried, como são conhecidos localmente. A grande maioria deles fica nas encostas às margens do Danúbio e do Spitzer Bach, pequeno rio que desagua no Danúbio, na altura da cidade de Spitz.

Os vinhedos da Wachau DAC

O Danúbio também marcou de forma incisiva o terroir local. Por milhões de anos, o segundo maior rio da Europa erodiu o terreno composto originalmente por rochas metamórficas, como gneiss e anfibolito. Com a chegada das eras glaciais, poeira de rochas (loess) ocuparam as partes mais baixas das encostas, sobretudo aquelas de orientação leste, contribuindo para a criação de um segundo perfil de solo. Até hoje estes dois perfis de solo servem como importante fator de escolha da variedade plantada.

Clima

O clima é dinâmico em Wachau, por conta do impacto de duas poderosas zonas climáticas. De um lado, aquela do Atlântico (marítimo, a oeste) e, de outro, a continental (a leste) originária das planícies da Panônia. Nesta região, uma das mais frias da Áustria, os microclimas também entram em jogo. Há importante impacto de fatores como declividade, exposição e solos de vinhedos individuais, bem como a presença dos terraços, pois estes muros atuam também na contenção de calor. Atualmente, cerca de 40% da área de vinhedos de Wachau está localizada em terraços.

Com um clima de características mais continentais, os verões são quentes e secos e os invernos bastante rigorosos. Porém, os extremos são equilibrados pela extensão das águas do Danúbio. Os ventos frios do Waldviertel, no norte, provocam flutuações consideráveis de temperatura entre o dia e a noite, especialmente nos meses que antecedem a colheita.

Variedades e vinhedos

Dos 1.300 hectares de vinhedos do Wachau, a Grüner Veltliner é a principal protagonista, com cerca de 829 hectares de videiras, ou 64% do total. A Riesling vem em um distante segundo lugar, com 239 hectares (18%), seguida pela tinta Zweigelt (4%) e pelas brancas Muskateller, Müller Thurgau,  Chardonnay (chamada localmente de Morillon) e Pinot Blanc (Weisser Burgunder). No total, as uvas brancas respondem por 94% dos vinhedos.

Focando nas duas uvas principais, o perfil de solos é fundamental na sua distribuição. De um lado, a Grüner Veltliner parece ter se adaptado melhor aos solos de loess, muitos dos quais nas partes mais baixas das encostas. Já a Riesling atinge sua melhor expressão em terrenos mais pobres e de maior altitude, onde há maior presença da rocha mãe. Vale lembrar que mais de 45% dos vinhedos da região são de vinhas velhas, ou seja, acima de 30 anos de idade, a mais alta proporção em toda a Áustria.

Classificação por estilo de vinho

Em meados da década de 1980 a Vinea Wachau lançou um sistema de classificação dos vinhos da região, baseado em seus estilos. Mesmo apesar da criação da Wachau DAC, esta classificação segue sendo adotada e faz parte dos rótulos de muito vinhos desta denominação de origem. São três categorias na classificação Vinea: Steinfeder, Federspiel e Smaragd.

Refletindo o estágio mais fresco de maturação das uvas, os Steinfeder são os mais leves, ácidos e picantes, com uma graduação alcóolica máxima de 11,5%. Já os vinhos da categoria Federspiel aparecem em um nível intermediário de intensidade e teor de álcool (entre 11,5% e 12,5%). Por fim, os vinhos mais encorpados, com frutas mais maduras e maior capacidade de evolução recebem o selo Smaragd, com uma graduação alcóolica mínima de 12%.

Pirâmide de qualidade

A criação da Wachau DAC coincidiu com o lançamento de um sistema de classificação dos vinhos da denominação de origem, inspirado no existente na Borgonha. A partir da safra 2020, os vinhos de Wachau podem ser divididos em três categorias, com uma diferenciação entre os vinhos regionais, de vilarejos e de vinhedos específicos.  Cada uma destas categorias tem critérios próprios, com níveis de exigências crescentes.  

A pirâmide de qualidade em Wachau

A base da pirâmide é a categoria Gebietsweine, que corresponde, em uma comparação com a Borgonha, com os vinhos regionais (Bourgogne Rouge), por exemplo. São vinhos, portanto, que não trazem menção em seus rótulos a vilarejos ou vinhedos específicos. Podem ser vinhos brancos, rosés ou tintos, elaborados como monovarietais ou cortes a partir de uma gama extensa de variedades.

A segunda categoria é chamada de Ortsweine e traz referência em seus rótulos a um vilarejo específico. A escolha de uvas é mais restrita que a categoria anterior, mas ainda assim bastante ampla. Já o topo da pirâmide conta com os Riedenweine, vinhos com uvas originárias e referência a um Ried, ou vinhedo específico. Assim como nas demais categorias, somente existe permissão de uvas de colheita manual, porém não pode haver chaptalização. Somente Grüner Veltliner e Riesling são permitidas e, assim como no caso dos Orstwein, os vinhos não podem ter aromas e sabores que remetam a carvalho.

Produção e principais produtores

A produção total de Wachau foi de 68 mil hectolitros de vinho em 2022, o que corresponde a cerca de 9 milhões de garrafas. Em termos relativos, isso correspondeu a 4% da produção de vinhos Qualitätswein da Áustria, ou 5,4% daqueles da região de Niederösterreich. Em uma comparação internacional, isso equivale ao volume produzido em Saumur Champigny, no Loire, ou na ilha norte da Nova Zelândia.

Wachau reúne algumas mais prestigiadas vinícolas da Áustria, parte de um universo de mais de 430 produtores que atuam nesta denominação de origem. Alguns exemplos são FX Pichler, Weingut Knoll, Alzinger, Nikoilaihof, Domäne Wachau, Weingut Franz Hirtzberger, Rudi Pichler, Weingut Martin Muthenthaler, Peter Veyder Mahlberg e Josef Fischer.

Fontes: Austrian Wines, Vinea Wachau, Legislação da Wachau DAC, Wein Plus; Austrian Wine Statistics Report, Decanter; World Atlas of Wine, Hugh Johnson

Mapas: Austrian Wines

Imagem: Ried Achleiten, Wachau, Niederösterreich © Austrian Wine / Robert Herbst

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