O mundo do vinho é muito democrático, com ampla possibilidade de escolha em diversos aspectos. Um deles é a decisão de quais uvas serão usadas para elaborar um vinho. Não faltam regiões que optam por incluir uma única variedade nos seus vinhos de maior destaque. Entre as mais emblemáticas estão diversas denominação de origem da Borgonha (Pinot Noir para os tintos e Chardonnay para os brancos), Barolo (Nebbiolo), Cornas (Syrah), Savennières (Chenin Blanc) ou Sancerre (Sauvignon Blanc para os brancos e Pinot Noir para os tintos).
Porém, na maioria do mundo do vinho, os cortes (também chamados de blends) são a maioria. Embora parte destas regiões possa também haver elaboração de vinhos monovarietais, são os cortes quem dominam. Entre os exemplos mais conhecidos, podemos destacar Bordeaux, Champagne, Rioja, Douro ou Chateauneuf-du-Pape, só para citar algumas áreas de destaque. Mas quais são os motivos e benefícios desta prática?
Tudo começa com a tradição
Todas as regiões mencionadas anteriormente têm uma longa tradição com vinho. E esta tradição levou, por diversos motivos, à produção de vinhos monovarietais ou cortes em cada uma delas. Falar em Borgonha é lembrar de suas duas uvas principais vinificadas individualmente. Já quando o assunto é Bordeaux, são os cortes usando uvas tintas como Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc ou Petit Verdot que vêm à mente.
Porém, muitas destas tradições têm fundamentos sólidos. Se a Borgonha optou por Chardonnay e Pinot Noir para seus grandes vinhos, vale lembrar que ambas são autóctones e plenamente adaptadas às condições de clima continental e geografia da região. Em Bordeaux, por sua vez, com seu clima oceânico e mais quente, a escolha recorreu a variedades adaptadas a estas condições e com longa tradição na região.
Ao contrário da Borgonha, porém, Bordeaux não tem uma tradição de vários séculos diretamente ligada à viticultura. Se os camponeses e as ordens religiosas elaboraram vinhos a partir das uvas existentes, em Bordeaux o papel das vinícolas e enólogos teve um peso maior. E para quem elabora vinhos, trabalhar com cortes pode oferecer diversas vantagens.
Estilo e consistência
Se na Borgonha ou Barolo há um peso maior para as variáveis “não humanas” do terroir, em Bordeaux e Champagne o enólogo ganha um papel de maior destaque. Independentemente das escolhas na vinificação, ao provar um vinho de Gevrey-Chambertin ou La Morra há muitas características comuns, incluindo as condições de cada safra. Já em Bordeaux ou Champagne, o estilo do produtor tem um peso maior.
Mas como manter um estilo relativamente uniforme, considerando grandes variações de safra? Adotar um blend e mudar a composição de uvas pode ser a solução. Safra mais quente? O enólogo pode aumentar a proporção de uvas que aportam maior acidez e frescor. Já para uma safra fria, o inverso pode ser a solução. Portanto, usar um corte de uvas diferentes pode facilitar muito a tarefa de elaborar vinhos que tenham mais consistência e um estilo mais alinhado.
Equilíbrio
Outra vantagem dos blends é a possibilidade de obter vinhos mais equilibrados. Por exemplo, na Rioja a Tempranillo é a uva base, mas cortes com outras uvas com presença local, como Graciano, Garnacha e Mazuelo são comuns. Por exemplo, ao adicionar Graciano ao corte, o enólogo busca aumentar a acidez, complexidade aromática e trazer mais cor aos vinhos. O mesmo raciocínio funciona para Bordeaux, onde Cabernet Sauvignon e Merlot mostram enorme complementariedade.
A busca de equilíbrio, aliás, é um dos motivos que explicam por que boa parte dos vinhedos do mundo até o século XIX continha diversas variedades plantadas lado a lado. Ao vinificar este field blend, o objetivo era obter vinhos de maior equilíbrio, onde acidez, taninos, corpo, cor e características de cada uva resultavam em uma soma maior que as partes.
Corrigir imperfeições
Outra vantagem do uso de cortes é que ele permite ao enólogo corrigir alguns “desvios de percursos” que possam ocorrer tanto nos vinhedos como na vinificação. Faltou acidez? Aumente a proporção da uva que mais aporte esta característica ao blend. Álcool elevado? Vale o mesmo raciocínio, já que cada variedade tem uma concentração diferente de açúcar, portanto usar mais da variedade com menos açúcar pode resultar em um corte menos alcóolico.
Minimizar riscos
Ao adotar várias uvas, também caem os riscos para o produtor. Em primeiro lugar, cada variedade responde de forma distinta a fatores que podem afetar os vinhedos, desde doenças fúngicas, seca ou alterações climáticas mais impactantes. Além disso, como cada variedade se adapta de forma diferente às condições de solo, exposição solar ou temperatura, isso permite o cultivo em áreas distintas. Isso, por sua vez, reduz o risco de perdas mais intensas no caso de fenômenos meteorológicos isolados, como geadas ou chuvas de granizo.
Monovarietal versus corte
Não há dúvidas que a utilização de cortes de diferentes uvas pode trazer diversas vantagens, tanto para o produtor quanto para o apreciador de vinhos. Não é à toa que que os blends ganham cada dia mais espaço nas prateleiras de vinho mundo afora, com destaque, inclusive, nos países de Novo Mundo.
Isso, porém, não significa que existe uma “hierarquia” entre cortes e monovarietais. Alguns dos grandes vinhos do mundo tem apenas uma variedade em sua composição, enquanto tantos outros do mesmo nível de qualidade são blends. No fundo, avaliar qualidade de vinhos inclui um enorme elemento subjetivo e o fato de ser corte ou monovarietal pode ser vantagem ou desvantagem, dependendo do gosto de cada um.
Fontes: WSET Global; Explaining Styles and Quality, WSET, Entrevistas com produtores
Imagem: Gerada via IA com Magic Media