Agriculturas sustentável, orgânica e biodinâmica ganham espaço na Borgonha

Os vinhedos da Borgonha, talvez a mais icônica região produtora de vinhos do mundo, estão sofrendo uma transformação significativa nos últimos anos. E esta mudança é para melhor, uma vez que há um movimento consistente na direção de viticultura sustentável, orgânica e biodinâmica. O que era restrito no passado a apenas alguns produtores isolados, agora parece se tornar o novo padrão na região.

E esta tendência tem duas causas principais. Em primeiro lugar, é inegável que existe uma maior conscientização sobre o aquecimento global e o impacto da ação humana sobre o planeta. Assim, existe o desejo de um modelo de crescimento mais ecologicamente sustentável.

Por outro lado, existe o impacto das novas condições climáticas. Devido às maiores temperaturas, aumento na incidência de luz solar e mudança na estação chuvosa na região, há uma menor pressão de pragas sobre os vinhedos.

Vinhedos em mudança

Historicamente, os maiores desafios para os viticultores da Borgonha têm sido o míldio e o oídio, que prosperam em ambientes nublados e úmidos. Eles atacam as videiras, a folhagem e os cachos de uva, causando crescimento atrofiado, perda no sabor da fruta e baixa qualidade. Embora preparos orgânicos, como cobre e enxofre, possam ajudar a manter as uvas saudáveis, a gravidade do problema na Borgonha, em geral, obrigou o uso de produtos não orgânicos.

Mas as mudanças climáticas significativas nos últimos 50 anos, e especialmente nos últimos 20 anos, estão mudando essa dinâmica na região. “Na década de 1950, as temperaturas médias durante o período de crescimento das uvas eram de 15,5ºC na Borgonha e 16,5ºC em Bordeaux”, de acordo com o Master of Wine Benjamin Lewin.

Nos últimos anos, porém, a diferença com Bordeaux praticamente não existe mais. Entre 2010-2020, a temperatura média na Borgonha subiu para 17ºC, com temperaturas consistentemente mais altas nos últimos anos. Em 2015 a temperatura média atingiu 18,5ºC e em 2019, chegou a 19ºC.

Maior margem de manobra

O resultado desse aquecimento tem sido a diminuição da umidade do solo, a menor pressão do míldio e oídio, além do aumento na incidência de luz solar. Este clima mais quente permite cachos de uvas mais saudáveis. Com isso, muitos viticultores diminuíram drasticamente, ou mesmo eliminaram, a aplicação de fungicidas.

Em uma região que já foi conhecida por problemas de botrytis, os produtores não veem mais isso como uma grande ameaça, o que facilita formas mais sustentáveis de agricultura. A isso se junta a antecipação das colheitas. Na comparação com a década de 1960, a colheita hoje termina cerca de 17 dias mais cedo.

Isso permite evitar as típicas chuvas de outono, que muitas vezes levavam o viticultor ao uso de fungicidas, para evitar míldio e oídio. É importante notar que a volume pluviométrico não mudou, porém o padrão se alterou, com as chuvas passando do verão e do início do outono, para o final do outono e inverno.

Dados de adesão confirmam tendência

Por conta dos fatores acima, a tendência é que mais produtores de Borgonha abandonem a agricultura convencional e adotem novos modelos. Exemplos são o Haute Valeur Environnementale (equivalente à sustentável), Biologique (orgânica) ou Biodynamic (biodinâmica). Embora muitos não busquem certificação, isso também está mudando.

Dados recentes da agência francesa de certificação orgânica Agriculture Biologique en Bourgogne mostram que, nos últimos 10 anos, o número de vinícolas da região com certificação orgânica aumentou 180%. Mais recentemente, do ano 2017-2018, 48 novas vinícolas solicitaram certificação orgânica na Borgonha. Em paralelo, a presença da agricultura orgânica na Borgonha não para de crescer. De 2009 a 2019, a área de vinhedos que obtiveram certificação orgânica aumentou 150%.

Mudanças são necessárias

A perspectiva é que o aquecimento global siga nos próximos anos, o que pode levar os produtores da Borgonha a ações ainda mais intensas. Não são poucos os produtores que relatam que, a partir do momento que converteram seus vinhedos para as agriculturas orgânica ou biodinâmica, passaram a elaborar vinhos mais frescos e elegantes. A melhor qualidade das uvas, deste modo, ajuda a compensar o impacto que temperaturas mais altas têm sobre o equilíbrio dos vinhos.

No entanto, caso se confirmem os estudos que preveem um aumento ainda maior nas temperaturas, a solução poderá ser mais radical. No caso de as temperaturas seguirem aumentando no ritmo atual de crescimento, existe uma grande possibilidade da região da Borgonha não apresentar mais as condições ideais para a Pinot Noir. Isso faz de ações incisivas para combater o aquecimento global uma obrigação não somente dos produtores da Borgonha, mas de todos nós.

Fonte: Bourgogne Goes Green, Nicholas Poletto, Wine Scholar Guild

Imagem: djedj via Pixabay

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