Aquecimento global: Pinot Noir vai mudar de endereço

Last Updated on 25 de outubro de 2020 by Wine Fun

Quem gosta de Pinot Noir e pensa no futuro, pode começar a mudar seus conceitos. Com o aquecimento global, as previsões indicam que as condições climáticas na Borgonha não serão mais as ideais para o cultivo da Pinot Noir.

Ao menos esta é uma das conclusões de um estudo publicado pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, por uma equipe de cientistas liderada por Ignacio Morales-Castilla, da Universidade de Alcalá, na Espanha, e Elizabeth Wolkovich, da Universidade de British Columbia, de Vancouver, no Canadá. 

Realidade inequívoca

Não parece existir qualquer dúvida que as temperaturas no planeta seguem subindo de forma quase descontrolada. O gráfico abaixo mostra os desvios em relação às temperaturas médias desde a época pré-industrial e traz as projeções, se nada for feito em um futuro próximo, até 2100. A tendência é clara, mas quais são as implicações para quem gosta de tomar um bom vinho?

Condições ideais para a Pinot Noir

A Pinot Noir é uma variedade extremamente elegante, mas também de difícil cultivo, exigindo condições climáticas específicas. Se adapta melhor a temperaturas mais amenas, o que faz com que a faixa de cultivo no mundo seja relativamente restrita, ao menos quando falamos para a elaboração de vinhos de alta qualidade.

Conseguir uma Pinot Noir com boa expressão de frutas, sem excessos (como geralmente ocorre em locais de climas quentes) ou deficiência (comum em locais muito frios), com equilíbrio entre acidez e corpo é um quebra-cabeça que atormenta os enólogos.

Borgonha e Pinot Noir

Por séculos, a Borgonha tem sido o local ideal para o cultivo desta uva tão temperamental. A tradição e os conhecimentos acumulados através de centenas de safras, combinados com as condições climáticas e de solo ideais, resultaram em alguns dos vinhos mais disputados do planeta.

Mas isso deve mudar. Aliás, muito já se comenta que algumas regiões da Borgonha, sobretudo aquelas mais ou sul ou com uma geografia que impede a entrada de ventos mais frios do norte, já estariam começando a sofrer em termos de qualidade de fruta. Por outro lado, porções do norte da Borgonha já estariam conseguindo colher uvas com um perfil mais adequado para produzir vinhos da grande qualidade. Isso não acontecia no passado.

Pinot Noir de mudança

O estudo publicado indica que atualmente cerca de 90% dos vinhedos da Borgonha têm condições muito boas, no contexto de aptidão climática, para o plantio da Pinot Noir. Mas, considerando um cenário de aumento na temperatura média em 2 graus centígrados, o que deve acontecer entre 2039 e 2048, esta proporção cairia para cerca de 75%. Caso as temperaturas subam, na média, 4 graus, a proporção baixaria para 55%.

Obviamente, as condições climáticas desfavoráveis não se limitam somente à Borgonha. O estudo indica uma elevação da temperatura média em 2 graus a nível mundial, em conjunto com outras sete alterações climáticas decorrentes (como amplitude térmica, chuvas, temperatura máxima durante o dia, mínima durante a noite, etc). Isso levará a uma perda total de cerca de 60% dos vinhedos de Pinot Noir plantados ao redor do mundo.

Caso o aumento de temperatura chegue a 4 graus, 80% dos vinhedos atuais seriam perdidos. Para a Borgonha, dentro deste cenário, a solução pode ser a produção de variedades mais adequadas às novas condições climáticas locais, como Mourvedre ou Grenache.

Este fenômeno não se restringe, obviamente, somente à Pinot Noir. Com uma aquecimento global de 2 graus, 56% das áreas vinícolas atuais do mundo podem não ser mais adequadas para o cultivo, se não houver mudança para varietais mais adequadas. O estudo indica que, se for feita a alteração para uvas que se adaptem às mudanças climáticas, apenas 24% seriam perdidos.

Novos territórios

Porém, esta moeda tem duas faces. De um lado, algumas regiões podem se tornar quentes demais para a Pinot Noir. De outro, algumas poderão apresentar as condições ideais, ao menos no quesito temperatura, para o cultivo de Pinot Noir de alta qualidade.

As previsões indicam que as novas condições climáticas permitam a abertura de novas áreas para o cultivo de Pinot Noir. Na Europa, se concentram no norte, em regiões como norte da Alemanha, Dinamarca, Inglaterra, Irlanda, sul da Suécia, países bálticos, sul da Finlândia e Ucrânia. Fora da Europa, destaque para a Nova Zelândia, Tasmânia, regiões do Noroeste do Pacífico, na América do Norte e locais de maior altitude, como parte dos Andes, por exemplo.

A grande questão, porém, é que se as condições climáticas poderão ser ideais nestas regiões, o que dizer das demais componentes que fazem os  Pinot Noir da Borgonha tão especiais?  Só o futuro poderá responder esta pergunta.

Fonte e gráficos: Diversity buffers winegrowing regions from climate change losses, Morales-Castilla, Wolkovich et all,  Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Image: hubgib, pelo Pixabay

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