Last Updated on 24 de novembro de 2020 by Wine Fun
Château Musar faz parte do seleto grupo de vinícolas que todo bom degustador de vinhos deve conhecer. Além de elaborar vinhos de grande qualidade, conseguiu reinserir o Líbano no cenário do vinho, um renascimento para uma região com tradição vinícola desde os fenícios, com mais de seis mil anos de história.
É também um exemplo de resiliência e de equilíbrio entre tradição e modernidade. Conseguiu superar décadas de conflitos armados no Líbano, mesmo estando situada a apenas 25 quilômetros de Beirute, uma cidade diversas vezes devastada pela guerra. Além disso, é capaz de aliar tradições centenárias com uma filosofia que a alia à tendência atual, de busca de práticas sustentáveis e baixa intervenção.
Trajetória inicial
Château Musar foi fundada em 1930 por Gaston Hochar, um libanês de família local, porém com vínculos de longo prazo com a França. Foi depois de uma visita ao país europeu que Gaston retornou à sua terra natal e decidiu começar a plantar seus primeiros vinhedos. Na Segunda Guerra Mundial, Gaston desenvolveu uma amizade com o major britânico Ronald Barton (da família proprietária do Château Langoa-Barton e de Leoville-Barton), que estava no Líbano nesse período. Isso aprofundou os vínculos com a tradição da vinicultura da região de Bordeaux, influenciando o estilo que se mantém até hoje no Château Musar.
Uma importante parte da trajetória da vinícola ocorreu em 1959, quando Serge Hochar, filho de Gaston, assumiu a enologia da propriedade, após ter estudado em Bordeaux com mestres como Jean Riberau e Émile Peynaud. Após muitos anos de busca pela fórmula ideal, foi em meados da década de 1970 que Serge atingiu a composição final do vinho que viria a marcar a vinícola: o Château Musar Tinto.
Rumo ao estrelato
Curiosamente, foi um vinho de uma safra mais antiga que pôs o Château Musar nos holofotes. Em uma feira de vinhos em Bristol, na Inglaterra, o consagrado crítico Michael Broadbent descobriu Château Musar, colocando um vinho de 1967 da vinícola libanesa como a grande descoberta do evento.
Isso foi apenas o começo. Em 1984, a revista britânica Decanter escolheu Serge Hochar como seu primeiro “Homem do Ano”, reconhecendo a qualidade de seus vinhos, mesmo na complexa situação no Líbano, devido à Guerra Civil. Infelizmente, porém, Serge faleceu por afogamento em 2014 no México. Desde então, a vinícola tem em seu filho, Gaston, o responsável pela vinificação, juntamente com o enólogo Tarek Sakr, que se juntou à empresa em 1991.
Agricultura e vinhedos
Château Musar possui cerca de 200 hectares de vinhedos, na sua maioria situados no Vale do Beeka, a cerca de uma hora e meia da vinícola, localizada ao lado de um castelo do século XVIII em Ghazer, ao norte de Beirute. Cerca de 90% dos vinhedos estão plantados acima de 1.000 metros de altitude.
Os vinhedos têm cultivo de acordo com os princípios da agricultura orgânica desde a década de 1950, atualmente com certificação. Em uma área de solo de cascalho com base de calcário, em altitudes próximas a 1.000 metros de altitude e com tradição de viticultura milenar, ocorre o plantio de variedades francesas como locais. Entre as tintas, destaque para Cinsault, Carignan, Cabernet Sauvignon, Syrah e Garnacha. Já as variedades brancas são as autóctones Obaideh e Merwah, além de Chardonnay, Viognier e Vermentino.
Vinificação e vinhos
A vinificação segue a tradição bordalesa, porém com baixa intervenção (uso exclusivo de leveduras indígenas e sem aditivos). É o caso do seu principal tinto, Château Musar. As uvas Cabernet Sauvignon, Cinsault e Carignan têm fermentação individual em tanques de concreto e transferidas após cerca de seis meses para barricas de carvalho francês de Nevers, a maioria antigas, onde ficam mais doze meses. Cerca de três anos após a colheita, o blend é feito e engarrafado sem filtração, permanecendo por mais três a quatro anos em suas garrafas. Os tintos representam cerca de 75% da produção.
No caso do Château Musar branco, as variedades Obaideh e Merwah têm fermentação em barricas francesas entre seis e nove meses. O blend ocorre após o primeiro ano e o vinho passa por estágio em garrafa por mais seis anos. Completa a linha principal de vinhos o Château Musar rosé, um blend de Obaideh e Merwah, com pequena participação de Cinsault.
Além da linha principal, a vinícola também elabora a linha Musar Jeune (com um tinto, um rosé e um branco), produzida a partir de vinhas mais jovens e com menos envelhecimento durante a vinificação. Por fim, elabora um tinto, chamado Hochar Père et Fils, elaborado a partir de um blend entre Cinsault, Grenache e Cabernet Sauvignon. No total, a vinícola produz cerca de 700 mil garrafas de vinho anualmente, além de um Arak, uma bebida local.
| Nome da Vinícola | Château Musar |
| Estabelecida | 1930 |
| Website | https://chateaumusar.com/ |
| Enólogos | Gaston Musar, Tarek Sakr |
| Uvas | Cinsault, Carignan, Cabernet Sauvignon, Syrah, Grenache, Mourvedre, Chardonnay, Viognier, Vermentino, Obaideh, Merwah |
| Área de Vinhedos | 200 ha |
| Sede da Vinícola | Ghazir (Keserwan) |
| Denominação | Bekaa Valley |
| País | Líbano |
| Agricultura | Orgânica |
| Vinificação | Baixa Intervenção |
Fontes: Website da vinícola; Triple A; Broadbent; Crush Wines; The Wine Society