Cinsault: buscando recuperar o espaço perdido

A Cinsault é uma variedade que passou por altos e baixos nas últimas décadas, mas que começa a achar um novo espaço. Assim como a Carignan, sua área plantada cresceu de forma acelerada no sul da França nas décadas de 1960 e 1970, sobretudo por conta de sua alta produtividade. Na França, que atualmente concentra mais de 85% dos vinhedos de Cinsault do mundo, ela chegou a ser, em 1979, a terceira variedade tinta mais plantada.

Mas há o outro lado da moeda. Boa parte dos vinhos elaborados a partir dela era de baixa qualidade, refletindo o foco somente em quantidade. Como consequência, a área plantada na França despencou, fechando 2018 com apenas 35% dos vinhedos existentes no seu pico de produção, no início da década de 1980.

No entanto, este cenário começa a mudar, com uma maior valorização desta variedade, não somente na França, mas em outros países produtores, com destaque para África do Sul e Chile.

História e difusão

Ainda não foi identificado o local exato de origem da Cinsault, mas evidências apontam o sul da França como sua possível terra natal. Mesmo antes do aumento de seu plantio na França, porém, ela já havia sido cultivada em outros locais. Por conta de sua ótima resistência a climas secos, se adaptou muito bem ao norte da África, sobretudo Marrocos, Tunísia e Argélia.

Porém, fora do Mediterrâneo, a Cinsault se destacou inicialmente na África do Sul. Ela foi uma das duas uvas (juntamente com a Pinot Noir) usadas na criação da Pinotage pela Universidade de Stellenbosch, em 1925. O nome Pinotage resulta, em parte, do nome que a Cinsault ganhou na África do Sul, Hermitage. Curiosamente, embora a Cinsault seja também plantada na região francesa do Rhône, na denominação Hermitage os vinhos são elaborados a partir de Syrah.

Características

A Cinsault é uma variedade fértil, produtiva, muito resistente à seca e de relativa resistência a muitas doenças. Em terrenos férteis, os rendimentos são muito altos, gerando, porém, vinhos de baixa qualidade. Suas condições ideais passam por solos pobres e secos, onde, com baixos rendimentos, resulta em vinhos de ótima qualidade.

Os cachos da Cinsault são grandes e cilíndricos, sem muito espaçamento entre os grãos, que são muito grandes e arredondados. É uma uva de coloração escura, com peles bastante grossas. Este é um dos fatores que a torna atrativa para colheita mecânica, que foi um dos fatores responsáveis pelo seu rápido crescimento no passado.

Vinhos

No sul da França raramente é vinificada como monavarietal, geralmente sendo usada em cortes com Garnacha e Carignan, com o objetivo de adicionar notas frutadas ao olfativo e delicadeza ao gustativo. Por conta de seus aromas frutados, florais e algumas vezes especiados, seu maior uso é na elaboração de tintos de consumo rápido ou rosés. Na Provence, em especial, é uma das variedades que dá origem aos famosos rosés da região.

Faz parte de alguns cortes de destaque, entre eles diversos Chateauneuf-du-Pape (como Domaine du Vieux Telegraphe Le Crau, por exemplo), Bandol Rosé da Domaine Tempier ou o tinto produzido pela vinícola libanesa Chateau Musar. Já na África do Sul e Chile, é mais utilizada como monovarietal, seja como rosé ou tinto, sobretudo a partir de vinhedos plantados em solos mais pobres, como xisto ou ardósia.

Área plantada e nomes alternativos

Segundo dados da OIV, a área plantada com Cinsault ao redor do mundo, em 2015, era de 21.215 hectares. É uma variedade ainda bem concentrada na França, principalmente próxima ao Mediterrâneo, com 18.188 hectares, o que representa cerca de 85,7% do total mundial. Por conta de sua adaptabilidade a condições secas, se popularizou também no Marrocos, com 3.683 hectares (17,3% da área mundial). A seguir aparecem África do Sul (1.863 ha, ou 8,8%), Chile (615 ha, 2,9%) e Grécia (482 ha, 2,3%).

Por conta da diversidade de regiões produtoras, sobretudo dentro da própria França ou norte da África, a variedade recebeu uma grande quantidade de outros nomes. Segundo o catálogo da Universidade da California – Davis, são eles: Black Malvoisie, Bourdales Kek, Budales, Calabre, Chainette, Cincout, Cinq-Sao, Cinquien, Cinsanet, Cinsault, Cubilier, Cubillier, Cuviller, Espagne, Espagnol, Froutignan, Grappu de la Dordogne, Hermitage, Imperial Blue, Malaga Kek, Malvoisie Black, Marocain, Maurange, Mavro Kara Melkii, Milhau, Morterille noire, Moustardier noir, Navarro, Negru de Sarichioi, Oeillade, Oeillade noire, Ottavianello, Ottaviano, Ottavinello, Pampous, Papadou, Passerille, Pedaire, Picardan noir, Piquepoul d’ Uzes, Pis de Chevre, Plant d’Arles, Plant d’Arles Boudales, Plant de Broqui, Plant de Broquies, Poupe de Crabe, Pousee de Chevre rouge, Prunaley, Prunelas, Prunella, Prunellas noir, Salerne, Samson, Senso, Sensu, Sinso, Strum, Takopulo, Ulliaou e West’s White Prolific

Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Distribution of the World´s Grapevine Varieties, OIV; Jancis Robinson; Vins de Provence; Languedoc Wines; Plant Grape; Genetic relationships of some local and introduced grapes (Vitis vinifera L.) by microsatellite markers

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