Existem diversos fatores afetando a qualidade dos vinhos e muitos deles têm origem exclusivamente natural. Nestes casos, o produtor de vinhos não tem praticamente margem de manobra, a não ser mudar para outra região. Um dos mais interessantes é o efeito Foehn (ou Föhn), nome que tem origem em uma marca de secador de cabelos. Sim, é isso mesmo: existe um evento natural que lembra a ação de um secador de cabelos (que em alemão reflete o nome de uma marca, tal como ocorre com gilete em português) que pode afetar o cultivo dos vinhedos.
Este nome surgiu por conta de estudos meteorológicos realizados inicialmente em regiões vizinhas aos Alpes, sobretudo na Suíça e algumas áreas específicas do norte da Itália, onde a língua alemã tem forte presença. Porém, é um fenômeno que existe em diversas regiões do mundo, não somente em outras partes da Europa, mas também em outros continentes.
O que é o efeito Foehn
O efeito Foehn é um fenômeno meteorológico que ocorre quando correntes de ar úmido encontram uma montanha ou cordilheira. Isso gera um efeito bastante distinto para os dois lados da montanha. Do lado de barlavento (aquele de onde sopra o vento, ou seja, a área voltada para a direção do vento), o ar é forçado a subir, esfria e gera precipitações, seja na forma de chuva ou neve. Já do outro lado, chamado de sotavento, o ar, já mais seco, desce e, devido à compressão, cria condições mais secas e quentes.
Por conta disso, as características do clima em cada um dos “dois lados” da montanha ou cordilheira podem ser completamente distintas, mesmo que as áreas possam estar separadas por apenas alguns quilômetros. E estas distinções de temperatura e umidade podem causar uma enorme diferença no cultivo das videiras, tanto do ponto de vista de temperaturas como umidade. Em geral, as videiras tendem a se desenvolver melhor em climas mais quentes e secos, ou seja, as áreas a sotavento muitas vezes apresentam vantagens relevantes para a viticultura.
Detalhando a meteorologia
O efeito Foehn é relativamente complexo e boa parte das explicações se concentra na parte referente à condensação e precipitação descrita acima. Porém, existem outros três fenômenos envolvidos. Estes quatro mecanismos geralmente atuam em conjunto, com suas contribuições variando dependendo do tamanho e forma da barreira da montanha e das condições meteorológicas, por exemplo, a velocidade do vento, temperatura e umidade.

O primeiro fenômeno é a condensação e precipitação. Quando o ar é forçado para cima em terreno elevado, ele se expande e esfria devido à diminuição da pressão decorrente da maior altitude. Como o ar mais frio retem menos vapor, a umidade se condensa para formar nuvens e precipita como chuva ou neve, geralmente acima das encostas a barlavento. A mudança de estado de vapor para água líquida é acompanhada por aquecimento e a subsequente remoção de umidade. À medida que a precipitação torna esse ganho de calor irreversível, isso leva às condições quentes e secas do Foehn a sotavento da montanha. Isso é o que está descrito na figura acima.
Foehn seco
Porém, existem situações de “Foehn seco”. Quando os ventos não são suficientemente fortes para impulsionar o ar de baixo nível para cima e sobre a barreira da montanha, diz-se que o ar é bloqueado pela montanha. Apenas o ar mais alto, perto do nível do topo da montanha, é capaz de passar por cima e descer pelas encostas a sotavento.
O terceiro fenômeno lembra uma cachoeira, quando a água de um rio passa sobre as rochas e gera turbulência, com “água branca”, que mistura água e ar. Da mesma forma, à medida que o ar passa sobre as montanhas, ocorre turbulência e “camadas verticais” de ar se misturam. Essa mistura geralmente leva a um aquecimento descendente e umedecimento ascendente do fluxo de ar entre as montanhas. A consequência é na forma de ventos mais quentes e secos nos vales a favor do vento. Por fim, ocorre o que se chama de aquecimento radiativo. As condições de Foehn seco são responsáveis pela ocorrência de rain shadow (sombras de chuva) a sotavento das montanhas, onde prevalecem condições claras e ensolaradas.
Efeito Foehn e regiões vinícolas na Europa
Existem diversas regiões vinícolas que se beneficiam do efeito Foehn. Começando pelas regiões próximas aos Alpes, há vários exemplos. Talvez a de maior relevância para quem aprecia vinhos de alta gama seja o que ocorre na região de Langhe, área que inclui denominações de origem como Barolo e Barbaresco. Esta área está cercada pelos Alpes a norte, oeste e sudoeste e conta com importante barreira de proteção contra os ventos frios do norte e úmidos provenientes do Atlântico. O resultado? Clima mais seco e quente do que aqueles “dos outros lados” dos Alpes.
Ainda na Itália, duas regiões também se beneficiam: Alto Adige e Valtellina, nesta última inclusive permitindo a elaboração de vinhos Sforzato. Outras regiões próximas aos Alpes cuja viticultura se beneficia deste efeito são Valais e Ticino (Suíça), além de Wachau, Kamptal e Steiermark (Áustria). Em todas elas, as maiores temperaturas e climas mais secos garantem maiores concentrações de açúcar e melhores condições de maturação das uvas.
Na Europa existem diversas outras regiões onde o efeito Foehn está presente, com impacto favorável sobre a produção de vinhos. Um dos principais exemplos é a Alsácia, onde a presença da cadeia de Vosges a oeste garante climas mais secos (rain shadow) e quentes, o que faz desta área bastante setentrional uma daquelas com maior parcela de vinhedos orgânicos e biodinâmicos da Europa. Outros exemplos são Baden, Pfalz e Rheinhessen na Alemanha, Jura na França, Rioja (Espanha), Douro e Dão (Portugal).
Impacto também em outros continentes
São inúmeros exemplos também fora da Europa. Nas Américas, a longa cordilheira que vai da Patagônia ao Alasca traz um enorme impacto, somada à ação de ventos específicos. O vento Zonda favorece os vinhedos das regiões argentinas de Mendoza, San Juan e La Rioja, enquanto o Raco faz o mesmo para as chilenas Maipo, Colchagua e Elqui. Nos Estados Unidos, as Cascade Mountains criam uma sombra de chuva que afeta Yakima Valley, Walla Walla e Columbia Valley, todas no estado de Washington.
Na África do Sul, o vento Berg desce das montanhas Drakensberg e afeta regiões vinícolas como Stellenbosch, Paarl e Swartland. O mesmo acontece na Nova Zelândia, com a cadeia dos Southern Alps favorecendo regiões como Central Otago e Canterbury. Por fim, na Austrália o Great Dividing Range traz um efeito de rain shadow sobre partes do estado de Victoria, sobretudo as regiões de Yarra Valle e Heathcote, enquanto Goyder’s Line traz condições secas e quentes para Barossa, McLaren Vale e Clare Valley, em South Australia.
Fontes: UK Met Office; The Daily Eco; Understanding Wines: Explaining Styles and Quality, WSET; Barolo e Barbaresco Academy Study Book
Diagrama: High Fire Risk Project
Imagem: Ryan McGuire via Pixabay