Last Updated on 16 de dezembro de 2024 by Wine Fun
Variações de safras são bastante normais ao redor das principais regiões vinícolas do mundo, afetando a qualidade e as características dos vinhos. Porém, poucas são as áreas onde isso traz mais impacto do que na Borgonha. No limite da região compatível com o plantio de uvas de qualidade, esta região francesa historicamente conviveu com grandes variações de safra, com impacto significativo sobre seus vinhos.
Mas não somente variações temperaturas ou na quantidade de chuvas afetam a Borgonha e seus vinhos. Nos últimos anos, a região tem visto um aumento significativo na incidência de eventos climáticos extremos, como geadas e chuvas de granizo. Por tudo isso, vale a pena conhecer melhor como foram as condições nas últimas safras da Borgonha, mais especificamente da Côte d’Or, Côte Chalonnaise e Mâconnais. Para uma avaliação qualitativa mais detalhada dos vinhos destas safras, vale a pena também consultar a compilação exclusiva da WineFun para as safras da Côte de Beaune e da Côte de Nuits.
2024: Uma safra difícil
Ainda é cedo para falar da qualidade dos vinhos, porém em termos de quantidade, a safra 2024 foi desastrosa para a Borgonha. As estatísticas oficiais, que incluem também os vinhedos de Beaujolais, indicam uma quebra de pelo menos 25% na safra. Mas há quem afirme que diversas áreas perderam mais de 70% da produção. O principal problema foi o volume de chuvas, cerca de 50% acima da média, que criou condições ideais para o míldio e outras doenças fúngicas. Apesar da melhora do clima em agosto, há quem afirme que esta foi a safra mais difícil na região em 50 anos.
2023: Quantidade em primeiro lugar
Se 2022 já havia sido uma safra generosa na Borgonha, 2023 superou todas as expectativas. A produção total foi de cerca de 253 milhões de garrafas, 9% acima do ano anterior e 29% acima da média de cinco anos. Já as condições climáticas levaram a uma safra precoce, sobretudo por conta de uma onda de calor em agosto. Para Jasper Morris, um dos maiores especialistas da região, isso deve resultar em brancos de acidez mais baixa e menor potencial de guarda. Para ele, os Chardonnay lembram aqueles da safra 1992. Já para os tintos, o crítico inglês adota uma posição um pouco mais cautelosa. As condições gerais da Pinot Noir parecem inferiores a 2022. Por outro lado, em termos de estilo (menos álcool, fruta menos madura, menor concentração, uma safra menos “solar”), os tintos podem encontrar um paralelo com aqueles de 2017.
2022: Consistência e abundância
Após uma safra difícil (tanto em termos de quantidade como consistência), 2022 trouxe um imenso alívio para os produtores da Borgonha. Jasper Morris deixou isso claro: “Senhoras e senhores, temos uma safra fina e consistente em nossas mãos! Vinhos muito bons e muitos deles, tanto brancos como tintos, consistentes em todas as regiões.” O inverno foi menos chuvoso que o normal, e o final da primavera e início do verão voltaram para o padrão visto em 2018 e 2020, bastante quentes e secos. A diferença, porém, é que agosto foi mais ameno e com chuvas, que refrescaram os vinhedos Quanto aos vinhos, os brancos parecem lembrar os de 2020, porém isso não aconteceu com os tintos, mais tensos e com fruta mais fresca.
2021: Geada reduz a quantidade
Após um inverno com temperaturas acima da média, o pior aconteceu. Uma forte geada atingiu vinhedos ao redor de toda a Borgonha, levando a uma significativa queda da produção. O verão também foi mais frio e menos seco, apontando na direção de uma safra mais clássica. Baixo volume de produção, com vinhos sem os excessos vistos em 2018 e 2020. Talvez o maior destaque fique com os vinhos brancos (Chablis é um exemplo), com mais acidez e tensão. Já para os tintos, é uma safra onde a hierarquia de vinho da Borgonha parece ganhar mais importância que os anteriores, já que maior ou menor exposição solar pode ter feito a diferença.
2020: Calor e seca, mais uma safra de qualidade
Novamente o ano mais quente da história (após 2018 e 2019). Inverno ameno, mas sem grandes problemas com geadas. O maior problema da safra 2020, porém, foi a seca. Todos os meses com menos chuva que o normal (exceto fevereiro), com chuvas 62% abaixo da média. Foi a safra mais precoce em pelo menos 25 anos, com alguns produtores acabando a colheita no final de agosto. A Pinot Noir foi colhida antes da Chardonnay, em geral uvas com excelente qualidade e boa concentração.
2019: Ano quente, mas safra clássica
Janeiro e fevereiro mais quentes que o normal, com mais sol também na primavera. Brotação muito rápida, gerando temores com geadas. Mas estas foram apenas localizadas. Maio foi mais frio que o normal, o mesmo ocorrendo em junho. O verão foi muito quente e com pouca chuva, com problemas de seca (até porque choveu pouco também no inverno). Bom tempo em setembro, porém, não evitou que a safra fosse bem menor que 2018. Em termos de qualidade, percepção inicial que poderia ser uma das melhores da história. Tanto brancos como tintos para guardar, uma safra a ser lembrada.
2018: Quantidade e qualidade de mãos dadas
Janeiro frio, resto do inverno foi regular. A partir de abril, porém, temperaturas acima do normal, em alguns locais a média mensal ficou cerca de 2 graus acima do normal e 60% mais seco. Poucos problemas com granizo. Safra começou em agosto, com pouca necessidade de seleção de uvas. Grande quantidade, com maturidade alcóolica vindo antes da fenólica, algo incomum na Borgonha. Vinhos com boa acidez, muita estrutura, alto rendimento evitou concentração excessiva. Ótima qualidade.
2017: Poucos incidentes e uma safra clássica
Janeiro frio, mas temperaturas acima do comum até abril. Massa de ar polar atingiu região no final de abril, mas produtores conseguiram evitar o pior. Primavera e verão com boas temperaturas, embora com alguns eventos isolados de granizo. Safra começou no início de setembro. Vinhos brancos muito bons, tintos com boa acidez, sem taninos intensos. Safra clássica.
2016: Geada, granizo e uma safra muito pequena
Inverno muito mais quente que o normal (4 a 5 graus acima da média), o mais quente na Borgonha desde 1900. Produtores preocupados, com brotos surgindo muito antes do previsto. Duas geadas causaram enorme impacto, principalmente na parte média das encostas (sobretudo na Côte de Beaune). Granizo no Mâconnais e Côte Chalonnaise em maio. Floração atrasada, com chuvas. Tempo mudou, ajudando a combater as pressões fúngicas (muitos produtores orgânicos abandonaram a práticas). Sol voltou no verão, com temperaturas mais altas, safra começou no meio de setembro. Boa acidez, sobretudo brancos. Quebra de safra generalizada e vinhos sem grande potencial de guarda.
2015: Tudo deu certo, com uma supersafra
Janeiro e fevereiro frios, com chuva média. Tempo se estabilizou a partir de março, com temperatura acima da média e pouca chuva até setembro. Alguns recordes de temperaturas no Mâconnais. Uma safra muito fácil para os produtores, com colheita começando em agosto. Foi o ano mais quente desde 2003 (mais quente que 2009), e, por conta das cascas mais grossas, deu origens a vinho de alta qualidade e muito potencial de guarda.
2014: Tempo maluco e brancos melhores
Um ano cheio de variações. Inverno ameno e com muita chuva, mas primavera foi seca. Chuvas voltaram fortes em julho e agosto, mas setembro foi muito mais seco que o normal. Em geral temperaturas mais baixas ao longo da safra. Muitos eventos de granizo, incluindo na Côte de Beaune (assim como 2012 e 2013) e pressão de doenças fúngicas. Para completar a mosca Drosophila Suzuki atacou a Pinot Noir. Diluição das uvas decorrentes das chuvas de julho e agosto, maior efeito nos tintos, as vezes com menos estrutura. Vinhos brancos foram melhores nesta safra.
2013: Ano difícil e vinhos austeros
Janeiro e fevereiro frios, pouco sol, muitas nuvens e chuvas na primavera. Maio foi um mês difícil, com muita chuva, floração atrasou. Verão foi melhor a partir do final de julho, embora com granizo muito forte no norte da Côte de Beaune. Agosto e setembro normais, com climas amenos e muita chuva, resultando em problemas com botrytis. Rendimentos foram baixos, com pouca quantidade e estilo mais austero, em linha com o que acontecia no passado.
2012: Menos quantidade, mas alta qualidade
Janeiro quente, mas fevereiro muito frio e seco. Março, abril e maio de volta à normalidade, mas muito nublado. Muita chuva e eventos de granizo no final da primavera, reduzindo o tamanho da safra. Muita pressão por doenças fúngicas. Mas tudo mudou, com três ondas de calor entre julho e agosto, clima quente também na primeira semana de setembro. Ano complicado, mas quem sobreviveu produziu vinhos de qualidade: muita acidez, densidade e estrutura. Baixa quantidade (sobretudo na Côte de Beaune) e alta qualidade.
2011: Muitos problemas e safra complicada
Lembrou 2007, inverno ameno, abril e maio com temperaturas acima da média, mas seco. Floração adiantada, ainda em maio. Uvas de solos mais rasos sofreram com a seca. Dificuldades começaram em junho, com fortes eventos de granizo na Côte Chalonnaise. O mais frio julho em 20 dias, agosto muito variável, com muitas tempestades. Botrytis e doenças fúngicas, apesar de um setembro quente. Uvas com baixa acidez, sem grande potencial para guarda, além de aromas estranhos por conta do clima caótico.
2010: Clima instável e vinhos de longa guarda
Inverno muito frio, incluindo morte de videiras em dezembro, também com muita chuva. Abril e maio mais quentes, com sol. Tempo muito variável, com perdas por doenças. Verão com muitas tempestades, com mais chuva que o normal. Muita pressão de doenças fúngicas, colheita mais tarde (começou no fim de setembro), com necessidade de seleção criteriosa de uvas. Boa acidez e boa maturação, com bons vinhos, com muito potencial de guarda, sobretudo na Côte de Nuits. Uma safra surpreendentemente boa pelas condições climáticas.
2009: Clima ideal e safra de manual
Uma safra de condições climáticas quase ideais, excluindo alguns eventos isolados de granizo em diversas regiões da Borgonha. Um inverno frio foi seguido por abril e maio um pouco mais quentes que o normal, com um verão mais seco, sobretudo agosto. Sem pressões de doenças fúngicas, uvas se mostraram muito saudáveis. Uma safra de muita estrutura e com vinhos com grande potencial de guarda.
2008: Colheita em outubro e a Borgonha de antigamente
O padrão do clima em 2008 não trouxe grandes surpresas. Após uma primavera escura e chuvosa, o verão seguiu chuvoso principalmente na Côte de Nuits, com muitas tempestades por toda a Borgonha. Agosto foi marcado por diversos eventos de granizo sobretudo na Côte de Beaune, Mâconnais e Beaujolais. Um setembro mais seco garantiu uma safra nos padrões da década de 2000, com colheita em outubro e muito trabalho de seleção das uvas. Mesmo com condições climáticas complicadas, é uma safra que divide os críticos. Para muitos, não é uma safra para manter na adega por muito tempo, com leve preferência para os vinhos brancos. Para outros, representa uma “volta” à Borgonha do passado.
2007: Verão chuvoso e safra difícil
Janeiro e fevereiro mostraram temperaturas mais altas que o normal, com os termômetros acima da média histórica também em abril e maio. As videiras floresceram duas semanas antes do normal, mas tudo mudou. Julho e agosto foram mais frios e mais chuvosos, colocando a safra em risco. Porém, setembro foi quente e seco, salvando o ano. Foi uma safra melhor para vinhos brancos, com menos opções interessantes para os tintos, que, em geral, se mostraram mais frutados e com menos profundidade.
2006: Tempo mutante, vinhos elegantes
Inverno bem frio, primavera com muitas chuvas, neve em maio. Mas tudo mudou a partir de junho, com muito calor e tempo seco se estendendo até o fim de julho. Agosto foi mais frio e chuvoso, eliminando a chance de ser uma safra excepcional, mas o tempo melhorou em setembro. Tintos acabaram se saindo melhor que os brancos (que sofreram mais com as uvas e mostram menor densidade). A safra foi inicialmente mal avaliada, mas os vinhos surpreenderam pela elegância.
2005: Boa acidez, consistência e vinhos de guarda
Uma onda de frio acabou atrasando o florescimento das videiras, algumas perdas por doenças fúngicas, verão seco e quente de junho a agosto, sem grandes problemas embora com vários eventos de granizo, que afetaram muito algumas áreas. Vinhos de solos mais rasos sofreram por conta da seca. Condições excelentes para a plena maturidade das uvas, que, em geral se mostraram muito saudáveis. Safra consistente, boa acidez – Côte de Nuits melhor. Estilo austero, vinho para guardar.
Algumas safras espetaculares
Embora os vinhos da Borgonha evoluam muito bem, infelizmente a maioria das pessoas ainda consome estes vinhos muito jovens. Isso é o caso, sobretudo, dos Premiers Crus e Grands Crus, que geralmente atingem o ápice somente após 10 anos de garrafa. Para quem tem a paciência para aguardar, algumas dicas de safras históricas: 1929, 1945, 1949, 1959, 1969, 1978, 1985, 1988, 1990, 1999 e 2002.
Fonte: Wine Scholar Guild
Imagem: Arquivo pessoal