Last Updated on 4 de junho de 2022 by Wine Fun
Há várias formas de elaborar um vinho e algumas das principais diferenças diz respeito às uvas usadas. Por exemplo, as características de um vinho feito a partir da Pinot Noir são completamente distintas daquelas de um vinho elaborado com a Syrah. Por outro lado, isso permite uma grande diversidade de estilos, até porque é possível misturar uvas diferentes na hora de produzir um vinho.
E isso levanta um ponto importante. Qual estratégia seria melhor? Elaborar o vinho a partir de uma só variedade (por exemplo como se faz na Borgonha com a Pinot Noir) ou com diversas uvas combinadas (como no Bordeaux, onde são usadas variedades como Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e outras)? Para entender melhor esta questão, vale a pena explorar os conceitos de vinho varietal e vinho de corte.
Vinhos varietais
Embora o nome possa parecer confuso, vinho varietal é aquele elaborado de uma só uva (ou varietal). No entanto, existe uma certa flexibilidade, já que praticamente todas as regiões produtoras abrem margem para o uso de uma pequena parcela de outra uva. Mesmo assim, o vinho pode ser chamado de varietal.
Por exemplo, na maioria dos países europeus, o produtor pode estampar no rótulo do vinho que ele é varietal desde que um mínimo de 85% das uvas seja da mesma variedade. Assim, um vinho alemão que tenha 85% de Riesling e 15% de uma outra uva, pode ser chamado de varietal, trazendo a palavra Riesling em seu rótulo.
Esta proporção, porém, varia. Além dos principais países europeus (como França, Itália, Alemanha, Áustria e Portugal), também Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e Argentina determinaram um mínimo de 85%. Já no caso da Espanha, varia de acordo com cada denominação, entre 80% e 85%. Alguns países, como Brasil e Estados Unidos, são ainda mais flexíveis, com mínimo de 75%.
Monovarietais e cortes
Mas existem também vinhos que são 100% elaborados a partir de uma só variedade, são chamados monovarietais. Assim, todo varietal é um monovarietal, mas não vice-versa. Os monovarietais são mais comuns em regiões com tradição de uma única uva ou em regiões mais novas, onde há um controle mais estrito no plantio.
Por outro lado, os vinhos que não se encaixam nos critérios acima são chamados de cortes, podendo também ser referidos pelos seus termos em inglês (blend) ou francês (assemblage). Muitas vezes, os cortes são definidos pelos enólogos, com o objetivo de trazer características mais específicas aos vinhos que produzem, usando uvas distintas para balancear o vinho final.
Porém, existem muitos vinhos onde existe uma espécie de blend natural, geralmente naquelas de vinhedos mais antigos, onde havia um menor controle das variedades plantadas. Por exemplo, em torno de Viena, na Áustria, existem os Gemischter Satz, que são vinhedos onde diversas uvas estão plantadas juntas. Este é o caso também em alguns vinhedos de vinhas velhas no Chile ou Portugal, onde videiras muitas vezes centenárias convivem lado a lado e são vinificadas em conjunto.
Tradição e modernidade?
Podemos dizer que o uso de rótulos com as varietais seja um fenômeno relativamente recente, datando da década de 1960 em diante. E isso tem a ver com a expansão dos vinhedos nos países de Novo Mundo. As regiões vinícolas europeias, de tradição mais longa, sempre preferiram estampar em seus rótulos sua denominação de origem, ao invés da variedade.
Por exemplo, ao comprar um vinho tinto da Borgonha, o consumidor já assumia que estava adquirindo um Pinot Noir, assim como no caso de um Bordeaux, já era subentendido que se tratava do tradicional corte bordalês. Assim, para saber quais as variedades usadas no vinho, o consumidor deveria conhecer quais são as uvas permitidas em cada denominação de origem.
Isso mudou a partir da entrada de produtores do Novo Mundo, com destaque inicialmente para aqueles dos Estados Unidos e Austrália. Até por conta de serem áreas de tradição mais recente, produtores destas regiões sempre fizeram questão de deixar claro quais as uvas utilizadas. Além disso, passaram a vinificar de forma mais frequente varietais. Por exemplo, é raríssimo achar no Bordeaux um varietal de Cabernet Sauvignon, algo muito comum no Novo Mundo.
Qual é o melhor?
Esta é a pergunta de um milhão de dólares. De um lado, alguns apontam que os varietais seriam a melhor maneira de expressar um terroir específico, de trazer as melhores características de uma região. De outro, há quem diga que é somente com um corte de várias uvas que o enólogo consegue obter o melhor equilíbrio.
A resposta para esta pergunta pode passar por um melhor entendimento do próprio conceito de terroir. Por exemplo, faz sentido que os tintos da Borgonha sejam elaborados com Pinot Noir, uva autóctone da região e que vem sendo cultivada há séculos por lá. De outro lado, talvez a melhor expressão dos vinhos do Bordeaux seja na forma de cortes, novamente estamos falando de região com muita tradição.
Para os vinhos do Velho Mundo isso faz todo o sentido. Mas e para o Novo Mundo? Como são regiões de tradição mais recente, possivelmente o uso de varietais e cortes ainda está, em muitos casos “em período de testes”. Porém, algumas denominações parecem já ter achado sua “fórmula mágica”, como o Vale dos Vinhedos com Merlot, o Napa Valley com Cabernet Sauvignon e diversas regiões da Nova Zelândia com Sauvignon Blanc.
Imagem: Ohmydearlife via Pixabay