A Graciano é uma variedade tinta, possivelmente originária do vale do rio Ebro, que corta a Rioja e a Navarra. Evidências mostram que, historicamente, ela tem feito parte dos cortes de vinhos destas regiões. Porém, nos últimos anos está atraindo um interesse renovado por parte dos produtores, seja em novas áreas de cultivo como no lançamento de vinhos monovarietais.
Porém, é ainda uma variedade de cultivo limitado, mesmo na Espanha. Em 2022, segundo dados do Ministerio de Agricultura, Pesca y Alimentación ibérico, a área de vinhedos atingia 2.753 hectares, ou somente cerca de 0,02% da área plantada no país. Os vinhedos tinham forte concentração em três Comunidades Autónomas: La Rioja (960 hectares, 35%), Castilla la Mancha (847 ha, 31%) e Navarra (529 ha, 19%). Vale destacar que é na Rioja que ela vem ganhando maior participação, com um crescimento significativo dos vinhedos nos últimos quinze anos. Atualmente ela figura como a terceira tinta mais plantada, somente atrás da Tempranillo e da Garnacha.
Histórico
A primeira menção à Graciano data de 1614, na área de Labastida (Álava) em um documento que discorre sobre variedades como Moscatel, Graciano e Maturano. No final do século XVIII, no texto das Juntas Anuales de la Bascongada, realizadas em Bilbao em julho de 1787, há uma carta de Pedro de Atalay, residente em Havana (Cuba). Nela, o autor traz várias reflexões sobre como beneficiar os vinhos de La Rioja para que possam ser comercializados com lucro na América.
Para que os vinhos de La Rioja não percam qualidade, ele recomendou a elaboração do vinho com o que em La Rioja se chama Gracianas, uma variedade, segundo ele, bastante abundante. Já no século XIX existem vários textos em que se menciona a produção de vinhos a partir da Graciano. Em 1857, por exemplo, houve a Exposición General de Agricultura em Madri, no qual um produtor apresentou um clarete tinto elaborado com Garnacha e Graciano.
Durante a segunda metade do século XIX e início do século XX, a Graciano foi ganhando espaço em diversas áreas da Espanha. Se em 1857 as menções se concentravam em Logroño e Álava, em 1909 existia documentação comprovando sua presença também nas áreas de Burgos, Vizcaya, Navarra, Zaragoza, Lugo e Orense.
Características e vinhos
É uma uva de cachos médios a grandes e compactos, com grão pequenos e esféricos de coloração violeta azulada. Por conta destas características, muitas vezes tem uso constante em blends: ela traz coloração muito intensa, devido à alta concentração de material corante. Este é um dos principais motivos do seu uso em cortes na Rioja e Navarra – estudos científicos mostram que o impacto é significativo. Vale lembrar, porém, que uma variedade bastante suscetível à oxidação.
Sua alta acidez e taninos abundantes também contribuem para a escolha como uva de corte em vinhos destinados a passar mais tempo em adega, algo muito comum na Rioja. De forma geral, ela melhora o perfil de envelhecimento do blend e traz aromas, como notas de mentol, não presentes nas uvas da região. Além disso, sua intensidade aromática também chama a atenção, com presença de notas de frutas vermelhas maduras, flores e alcaçuz, além de leve toque de amêndoas.
Polivalência no cultivo
Esta variedade demanda certa atenção nos vinhedos. Em primeiro lugar, a Graciano tem um ciclo longo, com brotação e maturação tardias – na Rioja, sua colheita costuma ser última entre todas as variedades da região. Ela tende a mostrar baixa fertilidade e rendimentos menores, algo, porém, que a coloca em posição de destaque na elaboração de vinhos de alta gama.
De forma geral, ela mostra boa adaptabilidade às condições de terroir. Em um cenário marcado por aquecimento global e menos chuvas, ela resiste bem à seca, embora seja relativamente suscetível ao regime de chuvas (pode sofrer com botrytis e míldio). Por outro lado, mostra boa resistência ao oídio. Ela prefere climas suaves de menor amplitude térmica, como na Rioja Oriental, o que acaba, de um certo modo, restringindo sua possibilidade de expansão para outras regiões.
Área plantada e nomes alternativos
Segundo os últimos dados consolidados em escala mundial pela OIV, em 2015 eram apenas 2.137 hectares de Graciano plantados ao redor do mundo, a totalidade deles na Espanha. No entanto, existem pequenas parcelas de vinhedos também em países como Portugal e Estados Unidos. Nestes países, a Graciano é chamada de Tinta Miúda e Xeres, respectivamente. Por muito tempo se acreditou que a variedade francesa Morrastel fosse um sinônimo da Graciano, mas estudos genéticos descartaram esta hipótese.
Outros nomes para esta uva são Bastardo Nero, Bordelais, Cagnolale, Cagnovali Negro, Cagnulari, Cagnulari Bastardo, Cagnulari Sardo, Caldaredou Caldarello, Cargo Muol, Couthurier, Graciano Tinto, Gros Negrette, Minustello, Tinta do Padre Antonio, Tintilla, Zinzillosa.
Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Distribution of the World´s Grapevine Varieties, OIV; Conselho Regulador da Rioja; Colour and pigment composition of red wines obtained from co-maceration of Tempranillo and Graciano varieties – Matilde García-Marino, José Miguel Hernández-Hierro Julián C.Rivas-Gonzalo, M. Teresa Escribano-Bailón, Analytica Chimica Acta (2010); entrevinosypagos.com; foodsandwinesfromspain.com; Conselho Regulador da DO Navarra; Consejo Regulador DOCa Rioja; Navarra Agrária
Imagem: entrevinosypagos.com