Loire Central: muito mais do que Sancerre e Pouilly-Fumé

Quando se fala dos vinhedos do Loire Central, a associação é imediata com as duas principais denominações de origem da região: Sancerre e Pouilly-Fumé. Juntas, respondem por mais de 74% da área plantada e 76% da produção total, tendo a Sauvignon Blanc como principal estrela, com quase 90% dos vinhedos. Porém, nesta região existem outras seis denominações de origem, além de duas áreas com indicação geográfica protegida, ampliando o leque de vinhos e estilos.   

Denominações de origem como Coteaux du Giennois, Menetou-Salon, Pouilly-sur-Loire, Quincy, Reuilly e Châteaumelliant podem não ser tão conhecidas, mas podem oferecer vinhos com excelente relação custo-benefício. Ainda fora do radar de muita gente, são áreas que gradualmente vêm ganhando novos admiradores e, também, atraído muitos jovens produtores. Isso as tornou zonas de produção de vinho mais dinâmicas, onde o foco na qualidade ganha cada dia mais peso. Vale a pena conhecer cada uma delas.

A localização dos vinhedos do Loire Central

Coteaux du Giennois

Situada a norte da denominação Pouilly-Fumé, às margens do Loire, é uma região com longa tradição na vinicultura. Seus primeiros vinhedos foram plantados ainda na época galo-romana, atingindo seu auge no século XIX, antes da chegada da filoxera, quando tinha uma área de cerca de 3.800 de vinhedos. Boa parte deles estava em torno do vilarejo de Gien (que dá nome à região), com o restante ao redor de Cosne-Cours-sur-Loire.

A recuperação do impacto destrutivo da filoxera foi lenta e somente em 1998 a denominação de origem foi criada, unindo os grupos de produtores de Gien e Cosne-Cours-sur-Loire. É uma região com foco principal em vinhos brancos, que responderam por 71% da produção em 2022, tendo a Sauvignon Blanc como única uva aprovada. Os demais 29% eram vinhos tintos e rosés, com uso da Pinot Noir e Gamay. Em ambos os casos, cada uva deve compor ao menos 20% do corte.

A denominação de origem contava com apenas 205 hectares plantados em 2022, cerca de 29% da área delimitada e pouco mais de 5% do nível antes da filoxera. A Sauvignon Blanc respondia por 67%, seguida por Pinot Noir (22%) e Gamay (11%). Com cerca de 40 produtores, o volume total atingiu 10.740 hectolitros, o equivalente a 1,4 milhão de garrafas ao ano. Seus vinhos brancos são o principal destaque, com acidez elevada e muita mineralidade. Vale lembrar que esta área tem solos parecidos e a mesma latitude que a região de Chablis.

Pouily-sur-Loire

Esta denominação de origem tem área demarcada equivalente àquela de Pouilly-Fumé, mas permite somente a elaboração de vinhos a partir da Chasselas. Esta variedade, originária da Suíça, era predominante antes da filoxera, mas perdeu espaço posteriormente para a Sauvignon Blanc. A denominação Pouilly-sur-Loire, deste modo, é uma forma de preservar esta tradição.

Criada em 1937, conta atualmente com apenas 28 hectares de vinhedos, que resulta em uma produção na faixa de 1.700 hectolitros ao ano, equivalente a 230 mil garrafas. Na comparação com os vinhedos de Sauvignon Blanc, as parcelas plantadas com Chasselas ocupam áreas mais baixas, com solos mais arenosos.

Menetou-Salon

Excluindo Sancerre e Pouilly-Fumé, a denominação Menetou-Salon é aquela de maior produção do Loire Central. A área delimitada da denominação de origem atingia 1.100 hectares, dos quais 637 plantados. Assim como Sancerre, é uma região que produz vinhos de três cores, com destaque para os brancos (73%), seguidos por tintos (24%) e rosés (3%). Com uma produção de 38 mil hectolitros (cerca de 5 milhões de garrafas/ano), respondia por 10% do volume produzido no Loire Central.

Criada em 1937, a denominação é considerada como “irmã menor” de Sancerre (produz apenas um quinto dos vinhos), com terroir parecido, embora com terrenos mais planos. Situada entre os rios Loire e Cher, tem longa tradição na vinicultura, datada ao menos do século XI. A Sauvignon Blanc, única uva permitida nos vinhos brancos, domina seus vinhedos, com cerca de 465 hectares (73% do total). Já os vinhos tintos devem ser monovarietais de Pinot Noir, que responde pelos demais 27% de vinhedos.

A denominação de origem inclui vinhedos em 10 communes diferentes, das quais três são consideradas superiores, por conta de sua maior elevação: Morogues, Parassy e Saint-Céols. Por conta disso, são nomes que frequentemente aparecem nos rótulos, embora os demais communes podem fazer o mesmo, desde que 100% das uvas sejam provenientes do commune em questão.

Oito denominações de origem e duas IGP

Quincy

Com um longo histórico (seus primeiros vinhedos teriam sido plantados pelos monges cistercienses da Abadia de Beauvoir, fundada em 1234), Quincy foi a primeira denominação de origem aprovada no Vale do Loire, em 1937. Seus vinhos, atualmente elaborados a partir da Sauvignon Blanc (com mínima participação da Sauvignon Gris), gozam de alta reputação há séculos.

Situada nas margens do rio Cher em dois communes (Quincy e Brinay), mostra um perfil de solo diferente (mais arenoso) do que Menetou-Salon, onde predominam os solos calcários. Atualmente são apenas 346 hectares de vinhedos (dos quais apenas dois hectares de Sauvignon Gris), explorados por pouco menos de 50 produtores. O volume de produção em 2022 atingiu 18 mil hectolitros, o equivalente a 2,4 milhões de garrafas ou 5% dos vinhos do Loire Central.  

Reuilly

Com uma tradição ainda mais longa que Quincy (há menções de vinhedos já no século VII), Reuilly apresenta também maior diversidade de uvas e vinhos, com três variedades permitidas. Os brancos, que respondem por 56% da produção e se mostram frutados e de alta acidez, devem ser 100% elaborados a partir da Sauvignon Blanc. Já os tintos (24%), que muitas vezes mostram notas especiadas, devem conter apenas Pinot Noir. Os rosés devem incluir, em qualquer proporção, Pinot Gris e Pinot Noir.

Em 2022 eram 299 hectares de vinhedos, 155 dos quais (52% do total) plantados com Sauvignon Blanc. As videiras de Pinot Noir (27%) e Pinot Gris (21%) respondiam pelo restante. Boa parte dos vinhedos se distribui pelas margens do rio Arnon, em solos que combinam calcário e areia. A produção total foi de 14,5 mil hectolitros, que correspondia a quase 2 milhões de garrafas, pouco mais de 5% dos vinhos do Loire Central.

Châteaumeillant

A mais distante e meridional de todas as denominações de origem do Loire Central, Châteaumeillant mostra também um perfil distinto das demais. Os vinhos tintos dominam sua produção, com 68% do total, tendo a Gamay como uva principal (deve ter pelo menos 60% de participação), com a Pinot Noir em segundo plano. Os demais 32% são vinhos rosés, com o mesmo limite para Gamay e um máximo de 15% de Pinot Gris.

Criada em 2010, a denominação de origem tem área demarcada de 486 hectares, dos quais apenas 71 plantados. A Gamay domina, com 50 hectares (70%), seguida por Pinot Noir (21 ha) e Pinot Gris (apenas 0,4 hectare). É, de longe, também a menor denominação de origem do Loire Central em produção, com apenas 158 mil hectolitros em 2022, o equivalente a pouco menos de 160 mil garrafas. Com solos predominantemente metamórficos, o perfil de seus vinhos se aproxima daqueles do Beaujolais e de certas áreas do Rhône.

Vinhos IGP

Além das denominações de origem, há também duas áreas demarcadas como Indicação Geográfica Protegida. Criada em 2011, a IGP Côtes de la Charité conta com 65 hectares de vinhedos, localizados ao sul de Pouilly-sur-Loire. As uvas permitidas são Chardonnay, Pinot Noir, Pinot Gris e Gamay, produzindo vinhos das três cores.

Já Coteaux de Tannay é ainda menor, com apenas 22 hectares, plantados com Chardonnay, Melon de Bourgogne, Pinot Noir, Pinot Gris e Gamay. Esta área se localiza a nordeste de Pouilly-sur-Loire, na direção da Borgonha, já próxima aos vinhedos de Vézelay.

Fontes: Loire Master Level Study Manual, Wine Scholar Guild; The Wine Doctor; Vins du Centre Loire; Loire Valley Wine Economic Report, Vins de Loire

Imagem: jp via Pixabay

Mapas: Vins du Val de Loire, Vins du Centre Loire

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