Taurasi: tintos expressivos do Sul da Itália

A denominação de origem Taurasi é frequentemente chamada de “Barolo do Sul”. A comparação é antiga e diz respeito a algumas características de seus vinhos: são tintos estruturados, tânicos e com grande capacidade de evolução, mas precisam de tempo para mostrar seu melhor. Mas comparações simplistas têm limites. Taurasi não é uma versão “sulista” de Barolo. É uma das melhores expressões da variedade Aglianico, cultivada em áreas montanhosas da Campânia, onde atinge um equilíbrio raramente visto em tintos do sul da Itália.

Taurasi fica na província de Avellino, no interior da região italiana da Campânia, cuja capital é Nápoles. Faz parte do núcleo mais importante dos vinhos da região de Irpínia, ao lado de Fiano di Avellino DOCG, Greco di Tufo DOCG e Irpinia DOC. Essas denominações hoje fazem parte do Consorzio Tutela Vini d’Irpinia. Entre elas, Taurasi ocupa o lugar do tinto mais importante. Apesar de ser uma região pequena, com produção de cerca de 1,1 milhão de garrafas por ano (menos de 8% de Barolo), produz vinhos de grande reputação.

História ancestral

A história do Taurasi começa muito antes da criação da DOCG. Aglianico é uma das uvas históricas do sul da Itália, frequentemente associada a origens gregas. O próprio nome teria relação com formas antigas como Ellenico ou Elleanico, transformadas ao longo do tempo em Aglianico, especialmente durante a dominação aragonesa. O nome Taurasi, por sua vez, remete à antiga arx Taurasia, ligada aos irpinos, população que habitava a região antes da conquista romana.

Depois da destruição de Taurasia pelos romanos, no século III a.C., a viticultura continuou a desempenhar um papel importante no território. A presença da chamada vite greca ou ellenica aparece como parte dessa memória histórica, posteriormente associada à Aglianico. Na Idade Média e na era moderna, a viticultura permaneceu uma das bases econômicas da Irpinia.

Um documento de 1167 traz a primeira referência conhecida à uva cultivada em Taurasi, denominada Aglianica. No século XIX, a atividade vitivinícola da província de Avellino ganhou dimensão econômica ainda maior, com produção expressiva e elevado volume de exportações. Nesse contexto, a Ferrovia Avellino-Rocchetta Sant’Antonio, chamada de “ferrovia do vinho” desempenhou um papel decisivo, ligando áreas produtoras das colinas do Sabato e do Calore a mercados italianos e europeus.

Maior volume e reconhecimento

A crise da filoxera também marcou a história de Taurasi. No fim do século XIX e no início do século XX, enquanto vários vinhedos do norte da Itália e da França sofriam com a devastação, os vinhos da região ganharam importância como fonte de abastecimento. Grandes volumes de Aglianico de Taurasi seguiram pela ferrovia para reforçar outros distritos vitícolas. A própria filoxera chegaria mais tarde à região, porém afetando menos a parte dos vinhedos em solos vulcânicos arenosos.

A modernização ganhou força. A Regia Scuola di Viticoltura ed Enologia di Avellino, fundada em 1878, desempenhou um papel importante na preservação e valorização dos vinhedos e das tradições locais. Taurasi recebeu reconhecimento como DOC em 1970 e, em 1993, passou a ser DOCG, o que o tornou um dos grandes marcos da valorização moderna do Aglianico. A partir daí, a denominação consolidou sua reputação como origem de vinhos austeros, estruturados com enorme capacidade de envelhecimento.

Localização e condições naturais

A zona de produção do Taurasi DOCG está inteiramente na província de Avellino, atual nome da Irpinia. Ela inclui 17 comunas: Taurasi, Bonito, Castelfranci, Castelvetere sul Calore, Fontanarosa, Lapio, Luogosano, Mirabella Eclano, Montefalcione, Montemarano, Montemiletto, Paternopoli, Pietradefusi, Sant’Angelo all’Esca, San Mango sul Calore, Torre le Nocelle e Venticano. É uma área situada no interior, com colinas e montanhas, afastada da Campânia costeira e caracterizada por altitudes que, nas melhores zonas, costumam situar-se entre 400 e 700 metros.

A localização de Taurasi

Essa posição geográfica é decisiva. Taurasi fica no sul da Itália, mas não tem um clima excessivamente quente. Os invernos são frios, com neve em alguns anos, enquanto os verões tendem a ser mais moderados, devido à altitude, em comparação com as áreas litorâneas. Durante o período de maturação, a grande amplitude térmica diária ajuda a preservar a acidez, a controlar o acúmulo de açúcar e a prolongar a maturação fenólica do Aglianico.

O regime de chuvas também diferencia a região, frequentemente próximo ou superior a 1.000 mm/ano, embora concentrado sobretudo no outono e no inverno. O verão é bem mais seco, o que favorece a maturação. Os solos são variados, combinando argila, calcário, areia, limo e elementos vulcânicos. Enquanto a argila contribui para a estrutura e a regularidade da maturação em anos secos, os componentes calcários, arenosos e vulcânicos ajudam a explicar as diferenças de textura, aroma e tensão entre os vinhos.

Área plantada, produção e regras

Taurasi é uma denominação pequena, mesmo dentro da região italiana da Campânia. Em 2023, registrou 386,5 hectares de vinhedos, o que equivale a 8% da área regional dedicada às denominações DOC e DOCG. A produção foi de 8.394 hectolitros, cerca de 4% do volume regional nesse mesmo recorte, o que corresponde a aproximadamente 1,1 milhão de garrafas. O rendimento efetivo calculado é de 21,7 hectolitros por hectare (contra um máximo permitido de 70 hl/ha), um número baixo e coerente com o perfil de uma denominação voltada a vinhos de guarda, não a volume.

Na denominação existem duas tipologias: Taurasi e Taurasi Riserva.  O Taurasi deve envelhecer por pelo menos três anos, dos quais ao menos um ano em madeira. A versão Riserva exige quatro anos de envelhecimento, com pelo menos 18 meses em madeira. Em ambas as versões, as uvas devem ter origem em vinhedos de colinas ou com exposições adequadas, sendo excluídos os terrenos de fundo de vale, úmidos ou pouco ensolarados.

Aglianico e estilo dos vinhos

Os vinhos da Taurasi DOCG devem conter, no mínimo, 85% de Aglianico. O restante, até 15%, pode vir de outras variedades tintas não aromáticas autorizadas na província de Avellino (são dezenas, desde as locais Piedirosso e Sciascinoso até uvas populares como Sangiovese, Barbera ou Montepulciano). Na prática, porém, muitos dos principais vinhos têm elaboração exclusivamente com Aglianico, reforçando a identidade varietal da denominação.

A área de Irpinia, com Taurasi destacado em cor de vinho

Devido ao uso da Aglianico e às suas condições naturais, os vinhos geralmente apresentam coloração profunda, acidez elevada, taninos firmes e grande capacidade de envelhecimento. Quando jovens, os vinhos de Taurasi podem ser austeros, fechados e marcados por muita estrutura. Com o tempo, evoluem para notas de cereja negra, ameixa, ervas secas, tabaco, couro, especiarias, terra, alcaçuz e traços balsâmicos.

Produtores de destaque

Mastroberardino ocupa uma posição central na história moderna do Taurasi. A família teve um papel decisivo na preservação da Aglianico e na projeção internacional dos grandes vinhos da Irpinia. Isso foi essencial em um período em que muitas variedades autóctones do sul da Itália ainda tinham pouca visibilidade fora de seus mercados locais.

Feudi di San Gregorio é outro produtor de destaque, ligado à modernização da Campânia e à ampliação da presença internacional dos vinhos de Irpínia. Ao lado desses nomes de maior projeção, produtores como Luigi Tecce, Perillo e Molettieri são frequentemente lembrados. O conjunto mostra que Taurasi não depende de um único modelo. Há interpretações mais clássicas, mais modernas, mais austeras e mais acessíveis, mas todas destacam a personalidade única da Aglianico.

Grandes vinhos do sul da Itália

Taurasi dá origem a alguns dos melhores tintos do sul da Itália porque reúne três elementos difíceis de combinar: uma uva de muita estrutura, um território de altitude capaz de prolongar a maturação e uma longa tradição histórica. Os grandes vinhos desta área não são imitações dos do norte italiano, mas sim expressões do terroir local. Em um momento em que cada vez mais se valorizam as uvas autóctones e a tipicidade, Taurasi é uma das poucas denominações italianas que conseguem traduzir tão bem a ideia de que potência e elegância podem nascer do mesmo lugar.

Fontes: Consorzio Tutela Vini d’Irpinia; Disciplinare di produzione dei vini a DOCG Taurasi, Ministero delle politiche agricole alimentari e forestali; WSET Wines of the World, Southern Italy; Taurasi DOCG; Federdoc Production Data 2023; Jancis Robinson; Decanter; Vinous.

Mapas: Consorzio Tutela Vini d’Irpinia

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