O consumo mundial de vinhos voltou a decepcionar em 2025. Depois de um 2024 que já havia marcado um patamar historicamente baixo, o setor registrou mais uma queda, confirmando a continuidade de um movimento negativo iniciado em 2018. De acordo com os números preliminares divulgados pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho, a OIV, o consumo global foi estimado em 208 milhões de hectolitros.
Isso representa uma queda de 2,9% em relação a 2024, com o consumo global registrando o menor patamar desde 1957. Em termos práticos, o mundo consumiu 6,2 milhões de hectolitros a menos do que no ano anterior, volume que corresponde a cerca de 820 milhões de garrafas de 750 ml. A comparação com 2018 também evidencia a magnitude do ajuste. Segundo a OIV, o consumo mundial caiu 14% desde então. Em volume, isso significa cerca de 34 milhões de hectolitros a menos, o equivalente a aproximadamente 4,5 bilhões de garrafas. Ou seja, a retração não parece mais um movimento pontual, mas sim uma mudança estrutural no mercado global de vinhos.
A queda também foi amplamente difundida. Entre os 20 maiores mercados consumidores listados pela OIV, 14 registraram retração em relação a 2024. O mesmo número, 14 em 20, ficou abaixo da média dos cinco anos anteriores. Entre os dez maiores mercados do mundo, apenas Portugal registrou crescimento em 2025. Todos os demais consumiram menos vinho do que no ano anterior.
Por que o consumo segue caindo?
A retração do consumo de vinho não pode ser explicada por um único fator. A OIV aponta a combinação de mudanças estruturais de longo prazo com um ambiente econômico mais desafiador nos últimos anos. Em vários mercados maduros, novos hábitos de consumo, mudanças geracionais e preferências de estilo de vida vêm reduzindo a participação do vinho no consumo de bebidas alcoólicas.
Esse movimento foi agravado por choques recentes. A pandemia de Covid-19 afetou o setor de hospitalidade e alterou os hábitos de compra. Depois, vieram tensões geopolíticas, inflação, alta dos custos de produção e de distribuição e perda de poder de compra em vários países. Como os preços médios permaneceram elevados, parte dos consumidores reduziu a frequência de consumo ou migrou para outras categorias.
O resultado é um mercado global mais frágil. A queda não se limita a países tradicionalmente produtores. Ela aparece nos Estados Unidos, na Europa, na China, no Canadá, na Argentina, na África do Sul e na Austrália. Alguns mercados ainda mostram resiliência, como Portugal, Brasil, Romênia e Japão, mas isso não foi suficiente para compensar a retração dos grandes consumidores.
Estados Unidos seguem líderes, mas em queda
Os Estados Unidos mantiveram a posição de maior mercado consumidor de vinhos do mundo. Mesmo assim, o consumo norte-americano caiu 4,3% em 2025, para 31,9 milhões de hectolitros (15% do consumo mundial). A OIV destaca que o mercado norte-americano, durante muitos anos considerado uma das principais fontes de crescimento do vinho, passou a mostrar sinais mais claros de enfraquecimento. A queda recente está ligada a fatores demográficos, econômicos e comportamentais. Entre eles, estão: menor consumo de álcool entre consumidores mais jovens, maior fragmentação das preferências por bebidas e sensibilidade mais alta aos preços.
A importância dos Estados Unidos torna esse movimento ainda mais relevante. Mesmo leves variações percentuais no mercado norte-americano têm impacto expressivo no balanço global. Em 2025, a queda foi de 1,4 milhão de hectolitros em relação ao ano anterior, volume equivalente a cerca de 187 milhões de garrafas.
China continua no centro da retração
A China voltou a ser um dos principais pontos de atenção. O consumo chinês caiu 13% em 2025, para 4,8 milhões de hectolitros. O país já ocupou posição de destaque entre os grandes mercados mundiais, sendo o quinto maior mercado consumidor em 2017, com participação de 7,3%. Em 2025, foi apenas o décimo primeiro, com 2,3% do consumo global.
A queda chinesa, deste modo, faz parte de um movimento mais profundo. Segundo a OIV, desde 2018, o país deixou de consumir, em média, cerca de 2 milhões de hectolitros por ano. A retração combina pressões econômicas de curto prazo com mudanças estruturais. O vinho no mercado chinês mostrou-se uma categoria bastante sensível à renda e ao preço. Também houve uma mudança no perfil do mercado. A demanda ligada a presentes, banquetes e consumo institucional perdeu força, enquanto o consumo mais direto e liderado pelo consumidor final ainda não compensou esse recuo. O resultado é um mercado menor, mais fragmentado e com uma base de consumidores mais estreita.
Europa também perde volume
A União Europeia consumiu 100,6 milhões de hectolitros em 2025, o que equivale a 48% do consumo mundial. O volume caiu 3,1% em relação a 2024 e ficou 6,9% abaixo da média de cinco anos. Mesmo sendo o principal bloco consumidor do mundo, a Europa continua apresentando queda em vários de seus mercados mais importantes.
A França permaneceu como o segundo maior mercado consumidor, com 22 milhões de hectolitros. A queda foi de 3,2% frente a 2024, e o volume ficou 7,2% abaixo da média de cinco anos. O caso francês se soma a uma tendência de longo prazo, já observada há décadas, de redução gradual do consumo doméstico. Já a Itália registrou uma das retrações mais fortes entre os grandes países consumidores. O país consumiu 20,2 milhões de hectolitros em 2025, uma queda de 9,4% em relação ao ano anterior. Com isso, voltou a níveis próximos aos anteriores à pandemia. A Alemanha, quarto maior mercado mundial, também caiu, com 17,8 milhões de hectolitros e retração de 4,3%.
A Espanha consumiu 9,4 milhões de hectolitros, uma queda de 5,2%. Já Portugal foi a principal exceção entre os grandes mercados europeus. O consumo português chegou a 5,6 milhões de hectolitros, alta de 5,6% em relação a 2024 e 7,4% acima da média dos últimos cinco anos. Segundo a OIV, este é o maior volume já registrado no país.
Brasil aparece entre os destaques positivos
Ao contrário de 2024, quando ficou entre os destaques negativos, o Brasil teve forte recuperação do consumo em 2025. Segundo os dados, o volume consumido atingiu 4,4 milhões de hectolitros, o que representa uma alta de 41,9% em relação ao ano anterior. Esse foi o maior consumo já registrado no país pela série da OIV. Este número, porém, foi uma surpresa para muita gente no setor. Há quem indique que isso represente, mais do que um consumo efetivo, um movimento de acumulação de estoques.
O número também ficou cerca de 20% acima da média dos últimos cinco anos. Com isso, o Brasil consolidou a posição de segundo maior mercado consumidor da América do Sul, atrás apenas da Argentina. É importante lembrar também que a base de comparação era baixa. Em 2024, o consumo brasileiro havia caído para 3,1 milhões de hectolitros. Mesmo assim, o resultado de 2025 parece colocar o país entre as poucas exceções positivas em um cenário global marcado pela retração.
Outros mercados em destaque
O Reino Unido, quinto maior mercado mundial, consumiu 12,3 milhões de hectolitros em 2025, queda de 2,4% em relação ao ano anterior. A Rússia, sétimo maior mercado, caiu 5,5%, para 8 milhões de hectolitros. A Argentina, maior mercado da América do Sul, recuou pelo quinto ano consecutivo, para 7,5 milhões de hectolitros, queda de 2,6%. A Austrália também registrou queda, com 5,3 milhões de hectolitros e retração de 2,2%. A África do Sul consumiu 4 milhões de hectolitros, queda de 7,7% depois dos níveis mais elevados registrados entre 2022 e 2024. O Canadá continuou em trajetória negativa, com 2,8 milhões de hectolitros, queda de 3%.
Entre os destaques positivos, além de Portugal e Brasil, aparecem Romênia, Japão e Áustria. A Romênia consumiu 3,5 milhões de hectolitros, alta de 11% em relação a 2024. O Japão cresceu 6,8%, para 3,3 milhões de hectolitros. A Áustria avançou 6,0%, para 2,4 milhões de hectolitros, mantendo um padrão de consumo bastante estável na última década.
Dados para os 20 maiores consumidores
Confira, na ilustração abaixo, os vinte maiores consumidores de vinho em 2025. Se você estiver usando seu celular ou tablet e quiser ampliar a visualização, toque e solte rapidamente em cada círculo. Caso queira ver os dados completos de cada país, basta tocar no círculo correspondente e mantê-lo pressionado até que o pop-up com os dados apareça. Se estiver usando um PC, basta passar o cursor do mouse.
Fonte: Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV)
Imagem: gerada por IA com ChatGPT.