O termo Supertoscano ainda causa alguma confusão. Muitas vezes, ele é associado exclusivamente a vinhos toscanos elaborados com variedades não italianas, sobretudo com uvas de origem bordalesa, como Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc. De fato, alguns dos nomes mais famosos da categoria nasceram justamente com a proposta de trazer uma expressão de monovarietais ou de cortes bordaleses com o terroir italiano. Mas essa não é a única história. Há também Supertoscanos baseados exclusivamente em Sangiovese.
O Cepparello, de Isole e Olena, é um dos grandes exemplos. Criado pela primeira vez em 1980, a partir das melhores vinhas de Sangiovese da vinícola, este monovarietal tornou-se uma das referências na valorização da variedade-símbolo da Toscana. Vale lembrar que, naquele momento, as regras do Chianti Classico não permitiam que vinhos elaborados com 100% de Sangiovese fossem rotulados na denominação de origem. Por isso, embora nascesse de vinhedos situados na área de Chianti Classico, o Cepparello foi inicialmente lançado como Vino da Tavola e, depois, passou a ser classificado como IGT.
Foi um prazer provar uma pequena vertical de quatro safras, conduzida por Giampiero Bertolini, CEO da vinícola, em um evento organizado por sua importadora no Brasil, a Decanter, realizado na Vinheria Percussi, em São Paulo.
Cepparello 2010, 14,5%
Muita tipicidade, inclusive aquele discreto toque rústico muitas vezes presente em vinhos italianos de alta gama. Visual de coloração rubi de alta concentração, com olfativo intenso. Destaque para as notas de couro, frutas vermelhas e negras, além de um toque. No palato, mostrou opulência, alta acidez e boa estrutura, com final longo. Não deve ganhar com mais tempo em garrafa, já em fase mais evoluída, mas ainda é um grande vinho.
Cepparello 2019, 14,5%
Menos potente que o anterior, mas com estilo similar. Coloração rubi de concentração média e perfil aromático marcado por frutas de bosque vermelhas (morango, cereja vermelha, blueberry), grafite e couro. Na boca, um Sangiovese mais preciso e tenso, com alta acidez, corpo médio e taninos arenosos. Em comparação com 2010, apareceu menos opulento e mais focado, com uma leitura mais direta da Sangiovese.
Cepparello 2021, 15%
Precisão, equilíbrio, elegância e austeridade são quatro palavras que resumem este vinho. No visual, mostrou coloração rubi de concentração média a baixa, com olfativo delicado e sedutor. Chamaram a atenção os aromas de alcatrão, de fruta vermelha fresca e de menta, com notas secundárias e terciárias discretas. Em boca, foi o mais fresco e elegante do painel, com alta acidez e um perfil austero e vertical. Os taninos mostraram-se precisos e bem desenhados, acompanhados de uma sensação salina. Um vinho já em alto nível e com potencial de longa guarda; menos exuberante na fruta, mas com grande foco e frescor.
Cepparello 2022, 15%
Neste caso, a safra mais quente deixou sua marca, com notas de piche e de fruta vermelha madura. Em boca, mostrou corpo médio, fruta mais abundante, mas menos precisa e definida em comparação com o 2021. Ainda assim, apresentou alta acidez e corpo médio, preservando o frescor, embora a salinidade tenha se manifestado de forma menos pronunciada.
A vertical mostrou bem a amplitude de expressão do Cepparello. O 2010 apareceu mais evoluído, opulento e ligeiramente rústico. O 2019 trouxe maior tensão e precisão, com taninos arenosos e um perfil mais vertical. O 2021 foi o mais austero, fresco e elegante, marcado por fruta vermelha fresca, taninos finos e salinidade. Já o 2022 mostrou uma face mais madura, mas ainda cheia de frescor. No conjunto, ficou claro por que o Cepparello é um dos mais expressivos vinhos da Toscana.