Três vinhos às cegas na Borgonha

Degustar vinhos às cegas é sempre uma diversão, um atividade que combina exercício sensorial e intelectual com prazer. Ao lado de um amigo natural da Borgonha, foram três vinhos totalmente às cegas em um winebar em Beaune. Se às cegas nenhum deles tinha as características que os colocavam tendo a tipicidade de Pinot Noir ou Chardonnay da Borgonha, o resultado surpreendeu.

Mon Blanc 2023, Ça Boit Livre 10,5%

Este 100% Chasselas elaborado por Bastian Goddard teve origem em vinhas de cultivo orgânico, plantadas em 1985 e localizadas dentro da área da denominação da origem Marignan. Esta região fica na Savoie, próxima de Genebra e praticamente às margens do Lac Léman. Vinificação com fermentação usando somente leveduras indígenas em barricas usadas, com 12 meses de estágio nos mesmos recipientes.

Um vinho fresco e vertical, que trouxe uma acidez que chegou a lembrar Aligoté, porém com um perfil de fruta mais discreto e muita mineralidade. Olfativo marcado por aromas cítricos (limão), pedra de isqueiro, frutas brancas, floral e pedra molhada. Na boca, um branco de acidez cortante, com corpo médio, fruta branca azedinha e notas minerais salinas e muita tensão. Delicioso!

Eau Fugitive 2023, L’Oiseau Rôdeur 11%

L’Oiseau Rôdeur é um novo produtor do Jura, criado em Poligny por Marie Menoux e Thomas Rougier. Com cerca de 4 hectares de vinhedos e depois de trabalharem para produtores como Domaine Labet, Nicolas Jacob a Les Pieds sur Terre, lançaram o projeto em 2021. O Eau Fugitive 2023 é 100% Poulsard com uvas da parcela En Trouillot Bâtard em Poligny. Na vinificação, uvas 50% desengaçadas e fermentação natural em inox, com 10 dias de maceração semi-carbônica, sem adição de sulfitos, filtração ou colagem.

Muito fresco e frutado, chamou atenção por intensas notas de especarias, que por algum tempo nos colocou em dúvida se seria um Pineau d’Aunis. Porém, a fruta explosiva e presente acabou evidenciando sua origem. Em um estilo com muita pureza de fruta, começou a mostrar alguns off-flavours após algum tempo aberto, tirando seu brilho inicial. O trabalho, todavia, parece promissor, portanto, vale a pena provar safras futuras.  

Pino Nwar 2023, Marie et Vicent Tricot 12,5%

O vinho final do painel, desde o primeiro gole, mostrou tipicidade de Pinot Noir. Porém, parecia difícil localizar sua origem na Borgonha. E esta dificuldade tinha fundamentos: esta criação de Vincent e Marie Tricot conta com uvas de cultivo biodinâmico provenientes dos solos vulcânicos, calcários e de basalto da região de Auvergne. Fermentação natural, com seis meses de estágio em barricas usadas.

Embora de estilo “selvagem”, o mais austero dos três vinhos. Olfativo com frutas vermelhas maduras e negras (cereja), toque de chão de bosque e leve defumado, trazendo um palato de boa acidez, corpo médio e taninos finos e redondos.  Gustativo com boa presença de fruta negra muito viva, bem seco, um Pinot Noir mais texturado e com uma certa austeridade.

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