Vinho no Chile: uma breve introdução às suas regiões produtoras

O Chile é uma das potências do mundo do vinho. Após ver sua área de vinhedos aumentar duas vezes e meia entre 1994 e 2022, o país andino é atualmente o quinto maior produtor de vinhos do mundo. Isso o coloca à frente de nações com longa tradição, como Alemanha, África do Sul ou Portugal.  Além disso, o Chile aparece como o quarto maior exportador mundial de vinho, somente atrás dos gigantes França, Espanha e Itália.

Com mais de 4.300 quilômetros de extensão norte a sul, o país apresenta uma enorme diversidade de terroir. Boa parte deles, porém, tem um ponto em comum: a relativa proximidade do Oceano Pacífico. Esta característica acabou se mostrando bastante propícia para o cultivo de uvas que convivem bem com climas oceânicos. De fato, cerca de dois terços do volume produzido de vinho chilenos têm origem em uvas originárias ou com longa presença em Bordeaux, região francesa próxima ao Oceano Atlântico.

Variedades dominantes

Em 2023 foram produzidos no Chile cerca de 9,2 milhões de hectolitros de vinhos com denominação de origem. E uma variedade, em especial, se destacou. A Cabernet Sauvignon, com 2,8 milhões de hectolitros, respondeu por quase 33% do total, mais do que o dobro da segunda uva de maior cultivo, a Sauvignon Blanc.

O domínio das variedades de origem francesas é significativo, com mostra o gráfico abaixo, com uvas como Merlot, Chardonnay, Carmenére e Syrah sendo responsáveis por volumes significativos de produção. Do legado colonial espanhol, poucas uvas ainda mostram presença importante, como Pedro Jiménez, País e Moscatel de Alexandria. No conjunto, as variedades tintas dominam os vinhedos chilenos. De um total de 129 mil hectares de videiras, 96 mil hectares (74%) contavam com uvas tintas, com os demais 26% de uvas brancas.

Produção de vinho chileno por variedade

Principais regiões produtoras

Se o Chile mostra um predomínio de uvas tintas na sua produção de vinhos, o mesmo ocorre em termos concentração da produção. Apesar de um país tão extenso, cerca de 73% da área de vinhedos fica em apenas duas regiões: O’Higgins e Maule, ambas na área central do Chile, ao sul de Santiago. Aliás, analisar e comparar as zonas produtoras chilenas é uma tarefa relativamente complicada, já que as estatísticas de área de vinhedos e produção se referem, geralmente, a unidades administrativas. São 16 regiões (exemplos são Antofagasta, Valparaíso e Ñuble), das quais 15 contam com a produção de vinho.

Por outro lado, ao se analisar as condições de terroir, a divisão é distinta. As principais referências são vales (exemplos são Casablanca, Maipo, Colchagua ou Itata) que, em sua maioria, cortam o país de leste a oeste, levando as águas dos Andes ao Oceano Pacífico. É com base nesta divisão que a seguir segue uma curta descrição das características das principais zonas produtoras chilenas.  

Região de Atacama

São duas áreas principais dedicadas à vinicultura: Valle de Copiapó e Valle de Huasco. A produção de vinho, porém, é incipiente, respondendo por menos de 0,2% do total chileno. Situado na região de Atacama, Copiapó é atualmente o vale produtor de vinho mais ao norte do Chile. Porém, fica ainda bastante ao sul do núcleo turístico do deserto de Atacama (são 800 quilômetros de San Pedro de Atacama e 1.240 quilômetros de Arica, na fronteira com o Peru). Boa parte dos vinhedos locais se destina à produção de pisco, com pequenas áreas (menos de 10 hectares) voltados para a produção de vinhos.

Localizado cerca de 200 quilômetros ao sul de Copiapó, o Valle de Huasco fica na fronteira do deserto do Atacama, com pouco menos de 50 hectares dedicados à viticultura. Esta região se subdivide em duas áreas distintas: Huasco Costa e Huasco Alto. Em Huasco Costa, a cerca de 20 km do Oceano Pacífico, Sauvignon Blanc, Chardonnay e Syrah se beneficiam da influência fria do Pacífico e solos de calcário para dar origem a vinhos de alta acidez e salinidade. Já Huasco Alto (com vinhedos acima de 1.000 metros de altitude) tem foco em vinhos doces e aromáticos sob o nome de pajarete, sobretudo usando a Moscatel de Alexandria.

Região de Coquimbo

Três subregiões produtoras se destacam em Coquimbo, que responde por cerca de 6,6% da produção de vinho do Chile: Valle de Elqui, Valle de Limarí e Valle de Choapa. Elqui ainda é uma região de características áridas, com muitos vinhedos plantados em áreas montanhosas. Nelas, se destacam variedades como Pedro Jimenez, Syrah e Sauvignon Blanc, que respondem por aproximadamente 70% da área de vinhedos.

Já Limari e Choapa viveram uma enorme transformação nos últimos 15 anos, concentrando quase 90% dos mais de 3 mil hectares de vinhedos da região de Coquimbo. Estas áreas ganharam reputação pelos vinhos elaborados com Chardonnay (mais de 780 hectares de vinhedos), dentre os mais frescos e minerais de todo o Chile. Esta área conta com forte influência marítima, clima semiárido, solos calcários e neblina matinal (Camanchaca), o que traz uma identidade aos vinhos da região. Uvas como Syrah, Pedro Jiménez, Sauvignon Blanc, Pinot Noir e Pinot Gris contam com mais de 100 hectares plantados.

Região de Valparaíso

Responsável por cerca de 1% da produção de vinho chileno, a região de Valparaíso conta com três vales principais: Aconcágua, Casablanca e San Antonio. O Valle de Aconcágua, com cerca de 1.500 hectares de vinhedos, segue o curso do rio de mesmo nome, que nasce próximo da maior montanha do mundo fora do Himalaia e segue até o Oceano Pacífico. Uvas tintas (sobretudo Cabernet Sauvignon e Carmenére) têm longa tradição no vale interior perto dos Andes, uma das áreas vinícolas mais quentes do Chile. Já Chardonnay, Sauvignon Blanc e Pinot Noir prosperam na zona costeira do vale.

Casablanca sofre com forte influência marítima do Pacífico, que contribui para tornar este vale um dos principais produtores de vinho branco do Chile. Sauvignon Blanc (2.235 hectares) e Chardonnay (1.420 ha) são as uvas de maior cultivo, respondendo por cerca de 75% dos vinhedos locais. Já as partes de maior altitude e mais quentes (pela menor exposição aos ventos frios do mar) são propícias para tintas como Merlot e Syrah.

Também sujeita a nevoeiros matinais e ventos vespertinos, San Antonio tem presença maior de uvas propícias para climas frios. Exemplos são Sauvignon Blanc (mais de 1.000 hectares de vinhedos), Pinot Noir e Chardonnay. São três setores principais (Leyda, Lo Abarca e Rosario), com destaque para o primeiro, mais frio e origem de vinhos brancos de alta gama.

Região Metropolitana

Terceira maior produtora de vinhos do Chile (em torno de 8% do total), a região Metropolitana concentra os vinhedos ao redor de Santiago. O principal destaque é o Valle del Maipo, que ganhou reputação por seus vinhos tintos. As videiras contam com clima mediterrânico ameno com verões quentes e secos e invernos frios e húmidos. Esta área possui vinhedos localizados no sopé dos Andes e parcelas mais a oeste, que se estendem até os solos arenosos da Cordilheira da Costa.

De forma geral, é uma área cercada por montanhas e com influência costeira muito limitada. A maioria dos vinhedos premium se localiza no sopé dos Andes, resfriados pelo ar descendente da Cordilheira. A principal variedade plantada é Cabernet Sauvignon (5.500 hectares, ou cerca de 50% do total), que dá a origem a vinhos de grande estruturas. Outras uvas com plantio importante são Merlot, Syrah, Carmenère, Sauvignon Blanc e Chardonnay.

Região O’Higgins

Situada ao sul de Santiago, responde por quase um terço da produção total do Chile, e faz parte da macro-região Central. O Valle de Rapel, sua principal área produtora, se divide em duas seções: Valle del Cachapoal (mais ao norte) e Valle de Colchagua (ao sul). Cachapoal é mais quente, sem impacto das correntes oceânicas, sendo propícia à plantação de uvas tintas, sobretudo Cabernet Sauvignon (4.000 hectares), Carmenère (2.000 ha) e Merlot (1.260 ha). É uma das áreas com maior reputação para o cultivo de Carmenére.

O Valle de Colchagua, por sua vez, é maior e mostra mais diversidade de terroir, contando com influências oceânicas. Todavia, o predomínio das variedades tintas é evidente: Cabernet Sauvignon (11.928 hectares – a maior do Chile), Carmenère (3.657 ha), Merlot (3.132 ha), Tintorera (como a Alicante Bouquet é chamada no Chile, 2.509 ha) e Syrah (2.153 ha). Um dos principais destaques é a seção de Apalta, origem de alguns dos mais prestigiados vinhos do Chile.

Região del Maule

Maior região produtora de vinhos do Chile, responde por aproximadamente 49% da produção total do país andino. O Valle del Maule é uma das mais diversas áreas em termos de geografia e clima. Abrange os Andes a leste, os vales planos e ensolarados ao longo do corredor central e as colinas costeiras a oeste. Com clima mediterrâneo e forte influência do vento frio da cordilheira à noite, praticamente não tem influência marítima.

Cabernet Sauvignon (10.568 hectares) é a variedade de maior plantio, seguida por País (5.991 ha) e Merlot (2.865 ha). Destaque também para Sauvignon Blanc, Carmenère, Chardonnay, Tintorera, Syrah e Carignan. É uma região de contrastes. De um lado, concentra uma enorme quantidade de vinhedos usados para a produção de vinhos de custo mais baixo, ao mesmo tempo que mostra alta concentração de vinhas velhas, sobretudo das variedades País e Carignan.

Também o Valle de Curicó conta om uma tradição vitivinícola que remonta ao século XIX, além de grande diversidade de solos. O clima mediterrânico, com dias quentes e noites frescas, proporciona uma excelente amplitude térmica, com chuvas mais intensas nos meses de inverno. Sauvignon Blanc (4.570 hectares) e Cabernet Sauvignon (4.461 ha) são as uvas de maior cultivo.

Regiões de Ñuble, Bio-Bio e Araucania

Área mais ao norte da macro-região Sul, Ñuble conta com três áreas principais: Valle del Itata, Bio-Bio e Malleco. Com mais de 500 anos de história, Itata é uma das áreas vinícolas mais antigas do país. O seu clima úmido-mediterrânico, a presença de temperaturas mais baixas e estações bem diferenciadas privilegiam variedades tradicionais como País (3.877 hectares) e Moscatel de Alexandria (3.675 ha). É uma área com alta concentração de vinhas velhas e grande dispersão de vinhedos nas mãos de pequenos produtores.

O Valle del Bío-Bío marca a transição para o extremo sul do Chile, que antes era considerado muito meridional para a viticultura. As condições climáticas frias, assim como as do Valle de Malleco, são favoráveis para as variedades originárias da Borgonha, como Chardonnay (417 hectares) e, especialmente, Pinot Noir (615 ha).

Ainda mais ao sul vem a macro-região Austral. Ainda em fase de desenvolvimento, traz baixíssimo impacto sobre a produção total do Chile – uma pequena fração da participação de pouco mais de 1% dos vinhedos de Ñuble sobre o total chileno. Pinot Noir e Chardonnay predominam em áreas como Valle de Cautín e Valle de Osorno.

Fontes: Wines of Chile. Explaining Styles and Quality, WSET,

Imagem:sebastian del val via Pixabay

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *