O aquecimento global está mudando a geografia do vinho. Regiões que por séculos foram consideradas impróprias para a plantação de uvas com qualidade suficiente para a elaboração de vinhos começam a despontar. Em delas é o Reino Unido, que ao lado de seus tradicionais gins e whiskies, pode ver o vinho se tornar uma bebida nacional.
Um dos maiores consumidores de vinhos do mundo e fonte de parte importante dos principais críticos e especialistas de vinhos, o Reino Unido está rapidamente ganhando espaço também como produtor. O foco atual fica ainda na produção de espumantes, já reconhecidos por sua qualidade, mas também vinhos tranquilos começam a ganhar espaço.
Mudanças climáticas
Terra do fog? Isso está mudando. No verão de 2020 o dia mais quente chegou a 36,4ºC, o calor mais intenso em 17 anos. Pesquisas recentes mostraram que a probabilidade de o Reino Unido experimentar temperaturas acima de 40ºC pela primeira vez estava “acelerando rapidamente” por causa da mudança climática.
No passado, as temperaturas não eram suficientes para garantir uma boa maturação das uvas. Porém, isso está mudando, como afirma Greg Dunn, chefe da divisão de vinhos do Plumpton College. Em entrevista ao jornal The Guardian, ele afirmou que “nos últimos 10-15 anos as temperaturas aumentaram a tal ponto que agora podemos cultivar uma série de uvas e fazer vinhos excelentes”.
Foco em vinhos espumantes
Incialmente focada no cultivo de uvas para vinhos de sobremesa e espumantes, sobretudo por pequenos produtores locais, o quadro está mudando. Grandes casas da Champagne já iniciaram o plantio de vinhedos no Reino Unido, prevendo o impacto do aquecimento global sobre sua região de origem.
Em 2017 a Taittinger se tornou a primeira casa de Champagne a plantar videiras no país, seguido de perto pela Champagne Pommery. Cerca de 72% dos vinhos produzidos no Reino Unido em 2018 correspondiam a espumantes, com o demais 28% sendo no segmento de vinhos tranquilos.
Explosão na área plantada
Em 2019 eram cerca de 3.500 hectares de vinhedos plantados no Reino Unido, um crescimento de 150% em apenas 10 anos. Frente a 2000, o crescimento foi de cerca de quatro vezes, já que a área plantada mal superava 850 hectares no início do milênio. E o ritmo de aumento tem acelerado, com o total devendo atingir cerca de 6.000 hectares em 2024.
A produção em 2019 atingiu 10,5 milhões de garrafas, mais do que o dobro dos 5,06 milhões de garrafas registradas em 2015. No mesmo período, o número de vinícolas subiu de 133 para 165, com um total de 770 vinhedos distintos sendo reconhecidos.
Uma nova Champagne?
O crescente investimento das casas da Champagne é refletido também no perfil das variedades plantadas no Reino Unido. Estimativas da WineGB, que coordena os esforços da viticultura no país, mostram que cerca de 78% da área de vinhedos era dedicada às três variedades usadas na produção de Champagne: Pinot Noir, Chardonnay e Pinot Meunier.
A rainha das uvas tintas era responsável por cerca de 33% dos vinhedos totais, com 1,155 hectares, seguida pelos 1.120 hectares de Chardonnay (32%) e os 455 hectares da Pinot Meunier (13%). Na sequência, vinham variedades com maior utilização em vinhos tranquilos, como a Bacchus (um cruzamento entre Riesling, Silvaner e Müller-Thurgau), Seyval Blanc e Pinot Gris.
Apesar do acelerado crescimento, porém, os vinhedos do Reino Unido ainda são relativamente pequenos dentro de uma escala internacional. Somente a região de Champagne tem cerca de 34.300 hectares de vinhedos plantados. Mas, por outro lado, não são tão insignificantes assim, já que a área total de vinhedos da variedade Nebbiolo ao redor do mundo era de cerca de 6.400 hectares em 2015.
Fontes: WineGB; English vineyards introduce new grapes due to global heating, The Guardian; Comité Champagne; OIV