Conheça mais sobre o corte bordalês, o blend de uvas que conquistou o mundo

Last Updated on 10 de janeiro de 2025 by Wine Fun

Corte bordalês. Certamente quem tem uma certa “litragem” de vinhos já se deparou com este termo. Embora este blend de uvas seja originário da região francesa do Bordeaux, não são poucos os vinhos ao redor do mundo que tem elaboração com a combinação das mesmas uvas. Desde a Toscana até a Nova Zelândia, passando pelas Américas e África do Sul, este corte de uvas tintas talvez seja o mais popular do mundo.

Porém, não existe somente o corte bordalês de uvas tintas, embora aquele realizado com uvas brancas seja menos comum, ao menos fora da Bordeaux. Neste caso, o corte é feito com ao menos duas variedades distintas entre Sémillon, Sauvignon Blanc, Sauvignon Gris e Muscadelle, com destaque para as duas primeiras.

O corte bordalês tinto

O corte tinto bordalês segue o mesmo conceito, sendo elaborado com ao menos duas entre as uvas Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Petit Verdot, Carmenère e Malbec. Se no corte branco Sémillon e Sauvignon Blanc ficam em evidência, no caso do corte tinto as principais protagonistas são Merlot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc.

A predominância destas três variedades fica evidente na forma pela qual a própria região de Bordeaux descreve a composição dos vinhedos locais. Seu site assim divide os vinhedos de uvas tintas: Merlot, com 66% da área plantada, Cabernet Sauvignon (22,5%), Cabernet Franc (9,5%) e “variedades auxiliares” (2%). Ou seja, são cortes de seis uvas, mas no fundo são as três primeiras que ganham os holofotes.

Proporção variável

O uso do termo corte tinto bordalês, porém, não implica em qualquer combinação específica destas uvas, desde que inclua ao menos duas deste grupo de seis. Assim, não é um termo legal que impõe restrições a proporções máximas ou mínimas, como acontece em tantas outras denominações de origem. O produtor tem inteira liberdade (com exceção talvez da denominação Côtes de Bordeaux) para escolher a combinação que achar mais adequada.

E isso fica claro entendendo a composição dos vinhos das diversas denominações de origem. No Pomerol, que fica na margem direita da Gironde, 70% dos vinhedos são plantados com Merlot, 25% com Cabernet Franc e apenas 5% com Cabernet Sauvignon. Por outro lado, Château Latour, um dos vinhos símbolo da denominação de Pauillac (margem esquerda), tem uma composição média com 80% Cabernet Sauvignon, 18% Merlot e 2% Cabernet Franc e Petit Verdot.

Aliás, esta diversidade de escolha tem a ver com a criação desta combinação de uvas. Elas apresentam momentos de colheita distintos (começando pela Merlot e acabando com a Cabernet Sauvignon), o que aumenta a flexibilidade do enólogo na hora de elaborar o vinho. Ele pode escolher a combinação mais adequada para cada safra, o que explica por que a composição de uvas geralmente muda um pouco, mesmo dentro do mesmo produtor, a cada safra.

Características

Além disso, estas variedades mostram características complementares, de forma que o resultado final acaba sendo melhor do que a soma das partes, no que alguns enólogos chamam de 1+1=3. A Cabernet Sauvignon contribui com estrutura e potencial de evolução, enquanto a Merlot traz muita presença de fruta e suavidade para o corte. Já a Cabernet Franc se destaca pela contribuição de aromas intensos, enquanto as demais, sobretudo a Petit Verdot, entram com corpo e cor.

Assim, não chega a ser surpresa as diferenças existentes entre os vinhos do Médoc (margem esquerda), mais diretos, secos e de longo potencial de guarda, com aqueles da margem direita, como Saint Émillion e Pomerol, onde a maior presença de Merlot e Cabernet Franc aportam maior suavidade e elegância. Todos são cortes bordaleses, mas as diferenças são significativas.   

Histórico, tradição e mudanças

Esta composição de uvas, porém, mudou bastante ao longo do tempo. Por exemplo, antes da chegada da filoxera, na segunda metade do século XIX, os vinhedos tinham uma distribuição bastante diferente. Por exemplo, a Malbec era plantada de forma muito mais extensiva, e foi somente com a necessidade de arrancar os vinhedos, por conta da filoxera, que sua presença foi drasticamente reduzida.

Por conta disso, algumas das denominações da região apostam em uma volta ao passado, para resgatar tradições abandonadas. Por exemplo, Côtes de Bourg tem a maior proporção de Malbec entre todas as denominações do Bordeaux, com 10% dos vinhedos dedicados a esta variedade. Assim, um corte bordalês desta denominação assume características próprias.

Mesmo a proporção entre uvas tintas e brancas no Bordeaux mudou muito com o tempo. Se hoje as uvas tintas correspondem a cerca de 90% da área plantada, isso era muito diferente cerca de 65 anos atrás. Por conta da intensa geada de 1956, houve uma enorme substituição de videiras, já que até esta data as uvas brancas correspondiam a cerca de 60% dos vinhedos. Era uma época, portanto, onde o corte bordalês branco tinha uma importância muito maior do que atualmente.

Globalização

O sucesso alcançado pelos vinhos do Bordeaux acabou sendo um enorme atrativo para que diversas regiões do mundo buscassem no corte bordalês uma receita para o sucesso. O icônico vinho italiano Sassicaia, por exemplo, é um corte bordalês, com Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc na sua composição. Da mesma forma, o californiano Ridge Monte Bello segue também a receita bordalesa, porém com a Cabernet Sauvignon sendo responsável por cerca de 80% do corte. Não faltam exemplos de cortes bordaleses de muito sucesso ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

Deste modo, os cortes bordaleses estão longe de ser um monopólio da região de Bordeaux. Embora muitos países no Novo Mundo tenham optado por direcionar grandes esforços nos vinhos monovarietais (como Cabernet Sauvignon nos Estados Unidos, Carmenére no Chile, Malbec na Argentina e Merlot no Brasil), o corte tinto bordalês é um fenômeno internacional. Seja qual for a distribuição entre as seis variedades.

Fontes: Vins de Bordeaux; Insider Tasting; Medoc; Côtes de Bourg

Imagem: Aida KHubaeva via Pixabay

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