Descobrindo novas uvas autóctones: dois tintos da Albânia

Vinhos da Albânia? O país permaneceu fechado ao mundo por várias décadas e, quando o assunto é vinho, esta pequena nação ainda conserva uma identidade única. Se em boa parte dos Balcãs, variedades internacionais como Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay e Sangiovese ganharam grande espaço nos vinhedos, na Albânia a narrativa é distinta. Cerca de 80% dos vinhedos estão plantados com variedades autóctones, como Kallmet, Shesh i Bardhë, Shesh i Zi,, Serinë, Debinë, Pulës, Cërrujë e Vlosh.

Muitas dessas uvas permanecem praticamente desconhecidas fora da região, o que torna a descoberta dos vinhos albaneses especialmente intrigante. Em uma recente viagem ao país, tive a oportunidade de provar alguns deles, começando por dois tintos elaborados com variedades autóctones: Kallmet e Shesh i Zi.

Kallmet Classic 2023, Kantina Kallmeti

A Kallmet está especialmente associada ao norte da Albânia, principalmente às regiões de Lezhë e de Shkodër. O Kallmet Classic, segundo o produtor, fermenta com controle de temperatura, permanece 10 meses em inox, seis meses em barricas de carvalho francês e mais quatro a seis meses em garrafa antes da comercialização.

Um vinho leve e vertical, que me lembrou uma espécie de “versão mediterrânea” da Schiava do Alto Adige. No visual, mostrou coloração granada pálida e nariz de intensidade média, marcado por aromas de framboesa, cranberry, romã e cereja ácida, com notas intensas de pimenta-preta e toques de ervas secas e de cedro. O carvalho francês é perceptível, mas moderado, com acidez média, corpo médio, taninos granulados e já integrados. Com final médio, é um vinho relativamente leve, especiado e de perfil gastronômico.

Shesh i Zi 2024, Abaia Winery

A Shesh i Zi é outra das principais variedades autóctones albanesas e está particularmente associada à parte central do país, sobretudo às regiões de Tirana e de Durrës. Seu nome faz referência à aldeia de Shesh, próxima a Tirana, e a variedade também possui uma contraparte branca, a Shesh i Bardhë. A Abaia Winery iniciou suas atividades em 2019, com sua primeira produção em 2021.

O Shesh i Zi 2024 apresentou um perfil bastante diferente do Kallmet. A cor é rubi de intensidade média, enquanto o nariz apresenta aromas de frutas mais maduras, com notas de cereja ácida, cereja preta e ameixa preta, acompanhadas por especiarias doces e um toque de caixa de charuto. O palato é seco, de acidez média, corpo médio e taninos firmes e ainda em integração, com boa concentração de frutas e textura redonda. É um vinho mais estruturado do que o Kallmet, embora, neste momento, me tenha parecido um tanto unidimensional, com final médio e predominantemente frutado.

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