Estudo prevê forte migração na produção de vinhos: quem irá ganhar e quem deve perder?

Não existe qualquer dúvida que o aquecimento global está gradualmente transformando o mundo do vinho. Alterações climáticas contribuem para modificações no rendimento e composição das uvas, refletindo na qualidade dos vinhos. Como resultado, a geografia da produção de vinho está mudando. Regiões com tradição milenar sofrem, tanto em termos de quantidade como qualidade, enquanto outras áreas ganham novas perspectivas.

Boa parte da produção mundial de vinho se localiza em latitudes médias, ou seja, entre 35 e 47 graus. No Hemisfério Norte isso corresponde à totalidade da Itália, Espanha, Portugal, ao centro e sul da França e da Alemanha, além da California. No Hemisfério Sul, são regiões como sul da Austrália e da África do Sul, Nova Zelândia, Mendoza e centro sul do Chile.

Em geral, nestas áreas o clima é quente o suficiente para permitir o amadurecimento adequado das uva, mas sem calor excessivo, e relativamente seco para evitar forte pressão de doenças. Porém, isso deve mudar radicalmente nos próximos anos, caso a tendência de aquecimento global continue.

Quadro preocupante

Climate Change Impacts and Adaptations of Wine Production, estudo publicado na Nature Reviews no final de março de 2024, traz uma análise completa e detalhada da situação atual e possíveis rumos da geografia do vinho nas próximas décadas. Além de listar os principais fatores e ameaças à vinicultura, busca também indicar quais serão as regiões mais prejudicadas ou favorecidas.

De forma geral, o estudo confirma a mudança na adequação das atuais zonas de produção, com impactos dramáticos. Por exemplo, uma parte significativa das áreas atuais poderá não ser mais viável para a produção de vinhos.  Cerca de 90% das regiões vinícolas tradicionais nas regiões costeiras e de planície da Espanha, Itália, Grécia e sul da Califórnia podem estar em risco de desaparecer até o final do século XXI. Isso seria consequência das secas excessivas e ondas de calor mais frequentes, em função das mudanças climáticas.

Por outro lado, o aquecimento global favorece outras áreas. Novas regiões vitícolas surgirão em áreas anteriormente inadequadas, seja em latitudes mais altas ou regiões de maior altitude. Isso, porém, pode significar expansão para regiões de encosta e áreas naturais, levantando questões sobre a preservação ambiental.

Projeções globais

As projeções analisam dois cenários. Um mais moderado, com aumento na temperatura média até 2 °C, e outro mais extremo, com temperaturas subindo acima deste patamar. No primeiro caso, cerca de 25% das atuais regiões com produção de vinho poderão se beneficiar e 26% deverão manter a sua atual adequação, porém com uso de práticas de gestão adequadas. Assim, níveis de aquecimento global inferiores a 2 °C podem ser considerados um limiar seguro para mais de metade das vinhas tradicionais. Quase metade das regiões, atuais, porém, estaria, em risco.

Por outro lado, para aumentos de temperatura superiores a 2 °C, 70% das regiões vitivinícolas existentes podem enfrentar riscos substanciais de perda de adequação. Especificamente, 29% poderão experimentar condições climáticas demasiado extremas, impedindo a produção de vinho premium. Já o futuro dos restantes 41% dependerá da viabilidade efetiva de medidas de adaptação eficazes. Vale a pena analisar estes dois cenários em várias partes do mundo.

As regiões vinícolas: quando mais escuro, mais suscetível atualmente

Europa

Espanha, França, Itália e Alemanha atualmente respondem por cerca de metade da produção mundial de vinhos. No entanto, espera-se que as mudanças climáticas desloquem as regiões adequadas para latitudes e altitudes mais altas. Com baixos níveis de aquecimento global (<2°C), a maioria das regiões vitivinícolas tradicionais manterá a adequação, embora dependente da implementação de medidas de adaptação, sobretudo no sul da Europa.

A combinação de aumento das temperaturas e menos chuva ampliará o risco de secas intensas no sul da Península Ibérica, França Mediterrânea, Balcãs, Vale do rio Pó e regiões costeiras da Itália. Além disso, as condições mais quentes e o aumento da exposição a queimaduras solares afetarão negativamente o rendimento e a qualidade do vinho nessas áreas. Para cenários de aquecimento mais amplo, a maioria das regiões mediterrâneas pode se tornar climaticamente inadequada para a produção de vinho, a não ser em maiores altitudes.

Por outro lado, a Galícia, Balcãs setentrionais e zonas ao norte do paralelo 46° (incluindo trechos na França e Alemanha, além de áreas em países como Holanda, Bélgica, Polônia, Inglaterra e países escandinavos) irão se beneficiar. Este cenário pode resultar na expansão das regiões vitivinícolas, sobretudo nas áreas próximas ao Atlântico, resultando em um aumento líquido de zonas climaticamente adequadas na Europa em até 60%. No entanto, essa expansão é puramente teórica e diz respeito apenas às condições climáticas, sem considerar a qualidade do solo e outros fatores.

América do Norte

Atualmente, a maior parte da produção de vinho na América do Norte, que responde por 10% da produção mundial de vinho, está concentrada na costa oeste, particularmente no norte da Califórnia. Em um cenário conservador, níveis moderados de aquecimento global permitirão manter a adequação das regiões costeiras da Califórnia para a produção de vinho de alta qualidade. Os produtores, todavia, enfrentarão riscos crescentes de seca, ondas de calor e incêndios florestais

Porém, se o aquecimento global exceder 2 °C, a costa da Califórnia fará a transição para um clima muito quente e árido para a viticultura. Isso provavelmente resultará em um declínio na qualidade do vinho e na sustentabilidade econômica. Como resultado, a área adequada para a produção de vinho na Califórnia pode diminuir em até 50% até o final do século XXI.

Por outro lado, regiões mais ao norte, como British Columbia, Washington e Oregon na costa oeste, região dos Grandes Lagos e Nova Inglaterra na costa leste, devem ganhar com o novo cenário. Provavelmente passarão de viticultura de clima frio para intermediário, ou mesmo quente, aumentando assim seu potencial para a produção de vinhos premium. Porém, isso pode implicar em riscos maiores de ondas de calor e aumento da pressão de doenças fúngicas. Vale lembrar que essas regiões são predominantemente classificadas como úmidas.

América do Sul

A produção atual de vinho na América do Sul corresponde a cerca de 10% do total mundial e se concentra principalmente em altitudes médias e altas no Chile e Argentina. Dada a irrigação extensiva já adotada sobre as regiões vitivinícolas mais secas, como Mendoza, as projeções de menos chuvas podem não ser um problema tão sério. Assim, a adequação futura nessas regiões dependerá principalmente do aumento da temperatura e da disponibilidade de água, além da frequência de eventos extremos.

Por conta disso, para um nível limitado de aquecimento, espera-se que o setor do Pacífico da América do Sul experimente um baixo risco de perda de adequação. Mas esse risco aumenta para as regiões atlânticas, como Brasil e Uruguai. Por outro lado, regiões de clima frio, sobretudo na Argentina, podem ganhar com o aquecimento global.

Oceania

Assim como na Europa, o aquecimento global trará impactos muito distintos sobre a Oceania, que hoje produz cerca de 6% do vinho no mundo. As alterações climáticas devem afetar sobretudo as regiões já relativamente quentes e áridas. Embora o aquecimento global limitado (<2°C) trará melhores condições de temperatura para as regiões ao sul, um risco moderado de perda de capacidade adequada é esperado na região interna de Nova Gales do Sul.

Porém, se as temperaturas globais subirem acima de 2°C, a projeção muda bastante, com regiões tradicionais na Austrália se tornando inadequadas. Por outro lado, a Tasmânia e o sul da Nova Zelândia se beneficiarão de um aquecimento limitado, o que pode oferecer condições mais favoráveis para a produção de vinhos de alta gama. A Tasmânia, em particular, apresenta um maior potencial de produção de vinho premium em cenários de aquecimento moderado e mais severo.

No geral, dependendo do grau de aquecimento global, até 65% dos vinhedos tradicionais australianos podem se tornar climaticamente inadequados. Já as regiões produtoras de vinho na Nova Zelândia têm potencial para crescer entre 15% a 60% até o final do século.

Ásia

As principais regiões vitivinícolas da Ásia (cerca de 3,5% da produção mundial de vinho) incluem o Cáucaso e a China. Porém, a avaliação da futura adequação climática para a produção de vinho é incerta, por conta de estudos limitados, especialmente para Xinjiang, uma das principais regiões produtoras de vinho do continente.

As regiões do Cáucaso e do leste asiático enfrentarão riscos baixos a moderados de inadequação. Isso, porém, depende dos níveis de aquecimento, com risco maior para as áreas áridas do Oriente Médio e Ásia Central. Por sua vez, regiões emergentes, como as costas nordeste do Mar Negro, leste da Anatólia e montanhas Pamir-Himalaia mostram potencial para a produção futura de vinho.

África

A África produz pouco vinho (3,8% da produção mundial), sendo a África do Sul o principal produtor. Marrocos, Tunísia e Argélia mostram uma escala de produção muito menor. A literatura sobre a produção futura de vinho na África do Sul é, porém limitada, resultando em avaliações de baixa confiança. Em contraste, com maior volume de pesquisas, a área do Mediterrâneo sofre um risco moderado a alto de perda de aptidão na região do Magreb, cuja possibilidade de produção futura de vinho pressupõe o deslocamento para altitudes mais elevada, como nas montanhas do Atlas.

Na contramão, ganhando com aquecimento global, aparecem as regiões mais elevadas do Quênia e da Etiópia. São locais onde a indústria vitivinícola já se encontra numa fase inicial de desenvolvimento.

Fonte: Climate Change Impacts and Adaptations of Wine Production, van Leeuwen et al

Imagem: Michael Anderson Vincent via Pixabay

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