Degustando Bordeaux por uma causa nobre

Foi um prazer participar de um evento recente da Confraria pela Cura, cujo valor integral da arrecadação (na forma de garrafas de vinhos de alta gama a serem leiloadas) foi destinado à TUCCA, com foco no tratamento do câncer infantojuvenil. Desta vez, o tema foi Bordeaux da margem esquerda, em uma degustação às cegas com a inclusão de um “coelho”. Abaixo, minhas considerações sobre os vinhos degustados.

Château Pichon Baron 2009, 14%

Deuxième Grand Cru Classé, Pauillac. Corte de 70% Cabernet Sauvignon e 30% Merlot, com parcela significativa de vinhas velhas provenientes da parte central da propriedade. Vinificação em inox, com estágio de 20 meses em barricas de carvalho francês, sendo 80% novas e 20% de segundo uso. Um excelente exemplar da quente e seca safra de 2009, com um core de frutas poderoso e taninos finos. Coloração rubi de alta concentração, com olfativo intenso marcado por aromas de fruta negra madura, cassis, cedro, incenso, grafite, pimentão vermelho e café. Palato de alta acidez, corpo médio-plus, um vinho bem seco e elegante, ainda com uma longa estrada pela frente. Com final longo e muita concentração, uma das estrelas da noite.

Château Ferrière 2005, 13%

Troisième Grand Cru Classé, Margaux. O corte desta safra reúne 73% Cabernet Sauvignon e 27% Merlot, com vinificação por parcela, com uso de leveduras indígenas, extração suave e maceração de aproximadamente três semanas.  Estágio de 18 meses em barricas de carvalho francês, sendo 40% novas. De uma safra considerada excelente, curiosamente, mostrou-se um dos vinhos mais terciários do painel, com as notas derivadas do estágio em carvalho ganhando destaque. Coloração rubi de alta concentração, com nariz rico, marcado por notas de frutas vermelhas e negras, cedro, couro, caixa de charuto e leve estrebaria. No gustativo, apresentou alta acidez, taninos granulosos e corpo robusto, com presença intensa de notas terciárias (couro e cedro).

Château Gruaud Larose 1997, 13,3%

Deuxième Grand Cru Classé, Saint-Julien. Em 1997, a propriedade já adotava práticas inspiradas na agricultura orgânica e biodinâmica, com alta proporção de vinhas velhas (idade média de 46 anos). Corte de 60% Cabernet Sauvignon, 30% Merlot, 5% Cabernet Franc e 5% Petit Verdot. A fermentação ocorreu em uma combinação de cubas de cimento e de madeira, seguida de amadurecimento de 16 a 18 meses em barricas francesas, cerca de 30% novas. Um dos destaques do painel, um exemplo do classicismo de Bordeaux. Coloração granada média, com olfativo complexo, incluindo aromas de frutas vermelhas, cedro, pimentão vermelho e um leve toque de estrebaria. Um vinho elegante e fresco, aliando alta acidez, taninos finos e corpo médio, já bem terciário, com final longo e sedutor.

Château Pichon Longueville Comtesse de Lalande 2008, 13%

Deuxième Grand Cru Classé, Pauillac. Corte de  63% Cabernet Sauvignon, 29% Merlot, 5% Petit Verdot e 3% Cabernet Franc. Estágio de 18 meses em barricas de carvalho francês, sendo 50% novas e 50% de segundo uso. Confesso que esperava mais elegância e precisão neste vinho, que certamente vai se beneficiar de mais tempo na garrafa. Olfativo com leve redução, notas de frutas negras, alcaçuz, tostado, tabaco e cedro. Na boca, apresentou alta acidez e taninos intensos, ainda não plenamente integrados;  um vinho mais encorpado e concentrado do que o normal para esta cuvée, que geralmente preza mais pela elegância do que pela potência.

Château Cantemerle 2012, 13%

Cinquième Grand Cru Classé, Macau (Haut-Médoc). O corte desta safra reúne 59% Cabernet Sauvignon, 27% Merlot, 8% Cabernet Franc e 7% Petit Verdot, com estágio de 12 meses em barricas de carvalho francês, das quais aproximadamente 40% eram novas. Dentre os vinhos de Bordeaux deste painel, o mais simples e acessível, já totalmente pronto para consumo imediato. Coloração rubi, de concentração média a alta, com nariz marcado por frutas negras, alcaçuz, cedro, notas tostadas e de café. Palato de acidez média a alta, com taninos finos e secos, de menor concentração e final médio.  

Montchenot 10 Años 2009, 13,5%

O “coelho” da noite. Produzido pela Bodegas López, em Mendoza, o Montchenot 10 Años é um dos vinhos mais tradicionais da Argentina. Predomínio de Cabernet Sauvignon, complementado por Merlot (vinhas de 1967) e por uma parcela de Malbec (vinhas velhas, datadas de 1927). Os vinhedos estão situados entre 870 e 1.100 metros de altitude e cada variedade amadurece separadamente durante 36 meses em grandes tonéis de carvalho francês. Após o corte final, o vinho permanece em tanques por aproximadamente dez anos antes do engarrafamento e do lançamento.

Degustado às cegas, assim como os demais, revelou-se facilmente distinto, sobretudo por sua estrutura de taninos e pela presença de fruta mais generosa. Coloração granada de baixa concentração, com nariz dominado por aromas de frutas vermelhas maduras e secas, notas de couro e de sangue. No palato, mostrou alta acidez, fruta bem madura, taninos granulosos e corpo médio, com as notas sanguíneas novamente em evidência.

Château Montrose 2006, 12,5%

Deuxième Grand Cru Classé, Saint-Estèphe. Corte de 72% Cabernet Sauvignon e 28% Merlot, com amadurecimento por 18 meses em barricas francesas, 60% delas novas. Apesar da safra difícil, foi um dos destaques do painel, com muita precisão, austeridade e equilíbrio. Coloração rubi de alta concentração, com olfato marcado por notas de frutas vermelhas e negras, cedro e pimentão vermelho. Na boca, mostrou-se tenso, fresco, elegante e bastante seco, com alta acidez, corpo médio-plus e final longo. Se não mostrou um core de frutas tão abundante, compensou com precisão e classicismo.

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