Uma das tendências mais atuais do mundo do vinho é a busca por tipicidade, com a valorização de variedades regionais ganhando destaque. E não existe lugar melhor para isso do que a Itália, que concentra a maior quantidade de cepas autóctones do mundo. Neste sentido, foi um prazer participar de uma degustação temática sobre a uva Ciliegiolo, organizada em Firenze pelo Consorzio Tutela Vini Della Maremma Toscana (CTVMT), órgão que representa os produtores da região italiana onde a Ciliegiolo tem a maior área de vinhedos.
A Ciliegiolo, para quem não conhece, é uma variedade autóctone da Toscana, possivelmente da sub-região da Maremma. Após muita controvérsia sobre sua origem, estudos genéticos recentes indicam que ela resulta de um cruzamento natural entre Sangiovese e Moscato violetto. Suas características? De forma simples, ela tem muito em comum com a Sangiovese, porém apresenta menos acidez, taninos mais macios e notas mais intensas de cereja (fruta intimamente ligada ao próprio nome da variedade – “cereja” em italiano é “ciliegia”).
Devido à versatilidade da Ciliegiolo, a CTVMT optou por dividir os vinhos em três grupos, com base no estilo de elaboração. Os quatro primeiros vinhos analisados abaixo fazem parte do grupo Frescor e Juventude, com vinificações que privilegiam as características frutais e florais da uva. O grupo seguinte, Prazer e Elegância, conta com dois vinhos, enquanto o terceiro (Estrutura e Complexidade) concentra os demais, que, em boa parte, fazem estágio em carvalho antes do engarrafamento. Abaixo, uma rápida análise dos vinhos degustados.
Ciliegiolo Gagiablu 2024, Gagiablu
Sede da vinícola em Roselle, no município de Grosseto
Vinificação integral em tanques de inox com maceração de aproximadamente 15 dias. Com baixa extração de cor e olfativo frutado e floral, um vinho fresco, glou-glou e fácil de beber, com taninos macios e discretos, além de apenas 12,5% de teor alcoólico.
Maestrale 2024, Mantellassi
Banditaccia, Magliano in Toscana
Vinificado inteiramente em tanques de inox, apresentou uma expressão muito fresca e direta da Ciliegiolo. Fruta explosiva, com destaque para aromas de cereja fresca; um vinho leve, de taninos doces, textura macia e muito frescor, com corpo médio e grande vivacidade.
Canapone 2024, Santa Lucia
Fonteblanda, Orbetello
Vinificado e com estágio em aço inox, com remontage e délestage frequentes. Nariz marcado por notas de cereja, além de toques florais e de pimenta. Alta acidez, corpo médio e taninos um pouco mais presentes, com uma discreta nota verdeal que lembrou engaço.
Ciliegiolo Aquilaia 2024, Tenuta Aquilaia
Pomonte, Scansano
Elaboração também 100% em inox, com maceração de cerca de 15 dias. Olfativo com aromas intensos de cereja e notas de menta. Talvez o vinho de tanino de fruta mais marcado do painel, com discreta rusticidade e menos drinkability que os anteriores.
Neltufo 2024, Cantina di Pitigliano
Pitigliano
Com uvas de solos vulcânicos, fermentou em inox com maceração de 15 dias, seguido de estágio de cerca de seis meses em barricas de carvalho francês. Não mostrou o caráter exclusivamente frutado e floral dos anteriores, com notas secundárias e terciárias, além de maior volume de boca e de um discreto toque salino no final.
Ciliegiolo Sequerciani 2023, Sequerciani
Tatti, Gavorrano
Com uvas de solos argilosos, passou por fermentação em tanques de cimento com remontage durante quatro semanas e, posteriormente, por estágio em cimento por 12 meses. Vinificação sem uso de sulfitos e sem filtração. Um vinho que chamou a atenção pela qualidade de fruta e pelas notas florais, com muita vivacidade, boa acidez, leve toque terroso, bom corpo de frutas e taninos sedosos.
Albarese 2022, Cantina I Vini di Maremma
Il Cristo, Marina di Grosseto
Fermentado em inox e com estágio em botti e em cubas de cimento. Olfativo intenso, com notas de cereja e de ameixa. Boa acidez, corpo médio e taninos redondos, um vinho equilibrado e com fruta na medida, mas sem muita vibração.
Il Ciliegiolo 2021, Val delle Rose
Poggio La Mozza, Grosseto
Fermentado em tanques de inox, com estágio de 12 meses em tonneaux e de 12 meses em cimento. Olfativo intenso de frutas vermelhas (cereja e ameixa), com toque de cedro e pimenta. A fruta mais madura e as notas de cedro dominaram inteiramente o palato, criando um vinho denso, porém sem o equilíbrio necessário entre corpo, álcool (14,5%) e acidez.
San Lorenzo 2021, Sassotondo
Sovana, Sorano
Carla Benini e Edoardo Ventimiglia criaram a Sassotondo e foram pioneiros da vinificação de monovarietais de Ciliegiolo na Maremma, ainda na década de 1990. Hoje produzem cinco cuvées distintas, desde versões mais leves (incluindo um rosé) até este, seu flagship. Com uvas plantadas em solos vulcânicos, fez fermentação em tanques de inox, com maceração de 15 a 20 dias e 18 a 24 meses em botti de 10 hl e depois mais um ano em garrafa. Olfativo intenso e complexo, com notas de cereja, groselha e especiarias. Palato de boa acidez, corpo médio, bom equilíbrio e taninos macios. Mais denso e concentrado, com estrutura firme e um final mais longo e persistente, não aparenta conter 14,5% de álcool. Um dos destaques do painel.
Capoccia Riserva 2021, Vignaioli di Scansano
Scansano
Com uvas de solos vulcânicos, traz uma expressão distinta dos demais, pois as notas de carvalho deixaram a fruta em segundo plano. Fermentado a altas temperaturas em tanque de inox, fez estágio de seis meses em barricas de carvalho francês de 225 litros (40% novas e 60% de segundo uso), e 10 meses em garrafa.
Ciliegiolo Le Vigne 2023, Le Vigne
Montenero d’Orcia, Castel del Piano
Vinificado em tanque de inox, com maceração de cerca de 15 dias, com remontage e délestage frequentes, seguido de estágio de 12 meses. Aromas de fruta vermelha madura (ginja), ervas verdes e pimenta. Palato fresco e vertical, com boa acidez, taninos redondos e corpo médio. Apesar de apresentar mais estrutura, é um vinho fresco e fácil de beber.
Belguardo 2023, Belguardo Mazzei
Poggio La Mozza, Grosseto
Fermentado em cubas de cimento, com maceração de doze dias e mais seis meses de estágio. Olfativo com fruta madura, com palato bem concentrado e denso; faltaram equilíbrio e elegância também na boca, sem muita tensão.
Silio 2023, Tenuta Montauto
Campigliola, Manciano
Fermentado em aço com maceração de cerca de 15 dias após a criomaceração das uvas por uma noite em câmara fria. Envelhecido 20% em barricas de carvalho francês, de tostagem média, por quatro meses e 80% em aço por 10 meses. Bastante frutado (cereja e morango), tanto no olfativo quanto no palato, com boa acidez, corpo médio e taninos macios. Sente um pouco o carvalho, com algum amargor no final de boca.
Ciliegiolo Poggio ai Quadri 2022, Podere Poggio ai Quadri
Valpiana, Massa Marittima
Fermentado em cubas de cimento, com estágio posterior de 24 meses. Nariz mais complexo, com a fruta vermelha abrindo espaço para aromas de ervas verdes e de pimenta preta. Palato austero e linear, com corpo médio e bom equilíbrio entre acidez, textura e álcool (13%). Um dos vinhos mais equilibrados e elegantes do painel.
Ciliegiolo I Cavallini 2022, I Cavallini
La Sgrilla, Manciano
Fermentado em inox, com maceração de duas semanas, seguido por estágio de 12 meses em botti de carvalho. Nariz com frutas vermelhas maduras, menta e ervas verdes. Gustativo de corpo médio, boa acidez, mas taninos não tão macios.
Conclusões
Apesar de tanta versatilidade, minha opinião é que boa parte dos vinhos que mais me agradaram foram aqueles em que a expressão de fruta pura da Ciliegiolo ficou mais evidente, privilegiando frescor e drinkability, sem renunciar a uma boa estrutura de boca e a taninos macios. Neste sentido, esta variedade, que vem ganhando mais espaço na Toscana, aparece como uma excelente opção para um mercado que, a cada dia, busca vinhos tintos mais leves e verticais. Vale a pena conhecer mais de perto!