Vinhos da Grécia: classificação que combina modernidade e tradição

Ainda pouco conhecida por muitos apreciadores de vinho, a Grécia tem uma longa tradição na vinicultura. Nas últimas décadas, tem buscado desempenhar um papel mais relevante no cenário internacional, sobretudo devido ao crescente interesse por vinhos de variedades autóctones. Por conta de seu pequeno porte (sua produção média nos últimos cinco anos foi metade da brasileira), seu grande diferencial é a tradição e a qualidade. E, para entender melhor suas particularidades, nada melhor do que conhecer o sistema grego de classificação de vinhos.

De forma geral, o sistema de classificação dos vinhos gregos segue a estrutura europeia, baseada em quatro categorias principais, alinhadas às definições da União Europeia. No topo da pirâmide estão as PDOs (Protected Designation of Origin), seguidas pelas PGIs (Protected Geographical Indication). Elas são equivalentes às DOC/DOCG italianas e às AOC francesas no primeiro caso, e às IGP no segundo. A estas categorias somam-se os vinhos varietais e os vinhos sem indicação geográfica, formando um conjunto relativamente claro do ponto de vista legal.

Porém, em paralelo, a Grécia adaptou este modelo à sua própria história e identidade. Entre essas especificidades, destacam-se estilos únicos que não têm paralelo direto em outros países, como a Retsina e a rara Verdea de Zakynthos. Assim, o sistema grego não é apenas uma reprodução do modelo europeu, mas uma estrutura mais flexível que acomoda tradições milenares dentro de uma lógica moderna de classificação. Portanto, a coexistência de categorias únicas dentro de um contexto padronizado e regulamentado permite que o país explore sua herança, sem sair de um modelo que é de fácil compreensão para um consumidor internacional

POP: vinhos com denominação de origem protegida

No topo da hierarquia encontram-se os vinhos com denominação de origem controlada, ou PDO, na definição da União Europeia. Em grego, são chamados de Prostatevomenis Onomasias Proelefsis (Προστατευόμενης Ονομασίας Προέλευσης), com a sigla POP (Π.Ο.Π.). Assim como nos seus equivalentes em outros países europeus, representam a expressão mais rigorosa do conceito de origem. As regras abrangem delimitação geográfica precisa, variedades autorizadas, práticas vitícolas e métodos de vinificação, refletindo, todavia, ligação ao terroir e às tradições locais. Em muitos casos, estas denominações estão diretamente associadas a variedades autóctones e estilos históricos.

As 33 POPs distribuem-se por todo o território grego. No Peloponeso, área que responde por cerca de 16% dos vinhedos, encontram-se Nemea, Mantinia e Monemvasia-Malvasia. Na Grécia Ocidental, Patras e Muscat of Rio Patras; em Creta, Dafnes, Peza, Archanes e Sitia. Já na Macedônia (cerca de 14% dos vinhedos), temos Naoussa, Goumenissa, Amyndeon e Playies Melitona; na Tessália, Rapsani e Messenikola; no Epiro, Zitsa. Por fim, nas ilhas do Egeu, há denominações como Santorini, Paros, Naxos e Rhodes.

Em termos quantitativos, os PDO ocupam cerca de 14.000 hectares dos aproximadamente 64.000 hectares de vinhas destinadas à produção de vinho na Grécia. Isso corresponde a cerca de 22% da área total plantada e, refletindo o controle de rendimentos e a maior participação de vinhas velhas, aproximadamente 11% da produção de vinhos.

PGE: as indicações geográficas protegidas

A categoria PGI funciona como um nível intermediário, oferecendo maior liberdade quanto às castas e práticas, ao mesmo tempo em que mantém uma ligação geográfica definida. Em grego, esta categoria é chamada de Prostatevomenis Geografikis Endixis (Προστατευόμενης Γεωγραφικής Ένδειξης), cuja sigla é PGE (Π.Γ.Ε.). É nesta categoria, que inclui 114 PGEs diferentes, que se encontra uma parte substancial do vinho grego. Ela permite que os produtores tenham mais flexibilidade e explorem diferentes abordagens, sem as limitações impostas pelas PDO.

Entre os PGI gregos, é possível identificar duas grandes tipologias. Por um lado, existem as indicações regionais amplas, como Peloponnese, Macedonia, Thessaly, Central Greece, Crete ou Aegean Islands, que funcionam como denominações guarda-chuva. Por outro lado, há indicações mais locais e específicas, frequentemente associadas a áreas menores ou a identidades mais particulares, como Drama, Kavala, Paggaio, Imathia, Arcadia, Corinthia, Ilia, Laconia ou Zakynthos.

A categoria PGE representa cerca de 40.700 hectares, o que corresponde a aproximadamente 63% da área total de vinhas do país. Porém, em termos de produção, a proporção é muito menor, já que muitos produtores optam por “desclassificar” uvas provenientes de áreas PGE para categorias inferiores. Isso ocorre, sobretudo, por conta das limitações de rendimento. Assim, os vinhos PGE representam apenas cerca de 26% dos vinhos produzidos.

É nesta categoria que se inserem dois dos estilos mais tradicionais do vinho grego. O primeiro é a Retsina, com quinze PGIs concentradas sobretudo na Ática, na Eubeia e na Beócia. O segundo é a Verdea de Zakynthos, um vinho tradicional das Ilhas Jônicas, historicamente associado a práticas de mistura e de envelhecimento oxidativo. Deste modo, a tradição encontra enquadramento nas indicações geográficas protegidas.

Vinhos varietais

Os vinhos varietais representam uma categoria mais recente, orientada para o mercado internacional. Para facilitar a identificação nas garrafas, procure o termo Epitrapezios Oinos Poikiliakos (Επιτραπέζιος Οίνος Ποικιλιακός). Neste caso, a identidade do vinho é definida principalmente pela variedade utilizada, podendo ou não haver referência geográfica mais ampla. Este segmento tem sido fundamental para a projeção das castas gregas no exterior, com variedades como Assyrtiko, Xinomavro e Agiorgitiko ganhando notoriedade.

Ao mesmo tempo, a presença de castas internacionais também é relevante. Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Chardonnay e Sauvignon Blanc representam uma fatia significativa, embora minoritária, da área plantada. Em conjunto, estas cinco variedades ocupam cerca de 10% do vinhedo grego, mais do que a soma de variedades tradicionais como Assystiko e Xinomavro.

Vinhos de mesa ou Wines of Greece

Na base do sistema encontram-se os vinhos sem indicação geográfica, frequentemente agrupados sob a designação genérica “Wines of Greece“. Na Grécia, são também conhecidos como “Vinhos de Mesa”, em grego: Epitrapézios Oínos (Επιτραπέζιος Οίνος). Esta categoria oferece total liberdade de produção (similar à de um Vin de France, por exemplo), sem restrições quanto à origem, às castas ou aos métodos.

Embora muitas vezes associada a vinhos mais simples ou de grande volume, esta categoria também desempenha um papel importante como espaço de inovação. Alguns produtores utilizam-na para vinificar estilos não convencionais, testar novas combinações de variedades ou adotar práticas que não seriam permitidas nas categorias superiores.

Fontes: Wines of Greece; Wines of the World, WSET; Greek Wine Federation

Imagem: Julian Venter via Pixabay

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