Se a produção de vinhos na França mostra um desempenho errático nos últimos anos, o consumo, infelizmente, parece apresentar uma tendência clara. Devido à menor demanda por vinhos, sobretudo tintos, as autoridades francesas atuam em diversas frentes para evitar uma maior acumulação de estoques. Dois conjuntos de medidas, um mais estrutural e outro com foco conjuntural, estão no centro das atenções.
Nos últimos três anos, as autoridades francesas anunciaram programas que resultaram no arranque de mais de 50 mil hectares de vinhedos, concentrados sobretudo em Bordeaux e no Languedoc. Estas medidas de caráter estrutural, porém, parecem longe de resolver o desequilíbrio entre oferta e demanda. Por conta disso, uma solução alternativa é a destilação, ou seja, comprar vinho junto aos produtores para fabricar álcool.
Uma nova rodada
Encerrado em meados de maio deste ano, o procedimento da FranceAgriMer para a campanha de destilação de 2026 não cumpriu integralmente seus objetivos. Os 1.914 pedidos apresentados por produtores individuais, cooperativas e négociants resultaram em pedidos de destilação de 673.445 hectolitros de vinhos tintos e rosés, no valor total de € 22,2 milhões. O volume, porém, está bem distante da meta de 1,2 milhão de hectolitros anunciada pelo comissário da Agricultura da União Europeia. No total, foram liberados € 40 milhões do fundo de crise durante o último Salão da Agricultura, em Paris, no fim de fevereiro.
O motivo do fracasso? O valor oferecido, de € 33 por hectolitro (100 litros de vinho), incluindo € 3/hl para os destiladores. Nas regiões de Bordeaux e do Gard (que inclui muitos dos vinhedos do Languedoc e do Vale do Rhône), já havia suspeita de que, com um prêmio tão baixo em comparação com destilações de crise anteriores, não haveria volumes suficientes para destilar. Estoques, porém, não faltam.
No fim, o Gard de fato apresentou poucos pedidos de destilação, ao contrário do que ocorreu na Gironde, segundo as estatísticas da FranceAgriMer. No conjunto, a Nouvelle-Aquitaine (que inclui Bordeaux) concentrou 52% das inscrições, com 328.000 hl, bem à frente da Occitanie, com 25% e 198.000 hl. Bem mais atrás aparecem Pays de la Loire, com 45.000 hl; Auvergne-Rhône-Alpes, com 19.000 hl; Centre-Val de Loire, com 16.000 hl; Córsega, com 10.000 hl; e Borgonha, com 4.000 hl.
Colocando em perspectiva
Embora não sejam inteiramente bem-sucedidas, as medidas deste ano podem trazer algum alívio à situação dos estoques de vinho. Há expectativa de que eles cresçam significativamente em função das promissoras perspectivas de volume para a safra de 2026. Porém, o volume a ser destilado ficou bastante abaixo do de outras campanhas recentes.
A operação de 2020 foi a maior, diretamente vinculada à pandemia de COVID-19. O objetivo era compensar o colapso parcial da demanda causado pelo fechamento de restaurantes, bares e eventos, bem como pelas dificuldades de exportação. A escala foi muito elevada: € 250 milhões, com 2,6 milhões de hectolitros aceitos para destilação. Os prêmios, porém, eram bem superiores aos de 2026: 58 €/hl para Vin de France e 78 €/hl para vinhos AOP e IGP.
Em 2023-2024, uma grande operação de destilação voltou a ocorrer, em outro contexto. O mercado ainda sentia os impactos da crise sanitária, mas refletia algo que parece ter se tornado comum: uma crise estrutural de consumo e de estoques, especialmente em vinhos tintos e rosés. A instrução oficial francesa definia o objetivo como restabelecer o equilíbrio entre oferta e demanda. Os valores foram de 45 €/hl para Vin de France, 65 €/hl para IGP e 75 €/hl para AOP, com € 200 milhões e 4,4 milhões de hectolitros enviados à destilação.
Mudança de paradigma
A leitura geral é que a destilação de vinhos, em momentos de desequilíbrio entre oferta e demanda, deixou de ser apenas uma resposta emergencial. Passou a funcionar como uma ferramenta de gestão do desequilíbrio estrutural. Em 2020, ela respondeu a um choque externo; em 2023-2024, a uma crise de estoques e de consumo; em 2026, aparece combinada com medidas de arranque de vinhedos, especialmente nas regiões mais pressionadas. Ou seja, a França está tentando atuar simultaneamente sobre o estoque existente, por meio da destilação, e sobre a capacidade futura de produção, por meio do arranque.
A pergunta que fica no ar é se estas medidas serão suficientes. O principal motivo da não adoção de medidas emergenciais em 2024 e 2025 foi o volume de produção destas safras. Devido a fatores climáticos, ambas apresentaram produção cerca de 20% abaixo da média de 10 anos, ou seja, a oferta de vinhos foi menor por causa de condições naturais. Em 2026, com a perspectiva de uma safra em linha com a média histórica, medidas são novamente necessárias. O que esperar daqui em diante?
Fontes: FranceAgriMer, Aide à la distillation de crise 2026; Ministère de l’Agriculture et de la Souveraineté alimentaire, Instruction technique DGPE/SDC/2023-394; Vitisphere; FGVB, Aide à la distillation: lancement 3ème vague; Sénat, Rapport d’information sur la crise viticole.
Imagem: Gerada via IA com ChatGPT