Definindo terroir: conheça os principais índices climáticos

Dentre os elementos que compõem o terroir, o clima é de fundamental importância. Compreender os principais parâmetros do clima é essencial para determinar a adequação de uma determinada região a variedades e estilos de vinho. Se no passado este processo resultou da experiência e tradição dos viticultores, hoje em dia existem ferramentas analíticas que ajudam nesta tomada de decisão.

Vinhos de alta qualidade têm origem em uvas no ponto correto de maturação, portanto, o clima de uma região é uma variável-chave para tomar as melhores decisões. Para ajudar neste processo, foram desenvolvidos diversos índices que permitem quantificar e classificar as condições climáticas de uma região. Esses índices não apenas auxiliam na escolha de qual varietal cultivar, mas também ajudam a prever potenciais impactos das mudanças climáticas sobre a viticultura.

É importante lembrar que quando falamos em clima, não estamos tratando de apenas uma safra ou um ano específico. A definição de clima considera as médias observadas ao longo de um período prolongado (geralmente 30 anos), de forma a caracterizar tendências de médio prazo. Com um histórico de dados, podemos calcular índices que sintetizam informações complexas em parâmetros práticos, permitindo comparações entre regiões e avaliações de adequação vitícola de cada uma delas.

Diversos indicadores

O processo de maturação das uvas é longo, com a temporada geralmente durando entre abril e outubro (no Hemisfério Norte) e entre outubro e abril (no Hemisfério Sul). Por conta disso, boa parte dos índices busca medir as condições climáticas nestes períodos. Há aqueles, porém, que focam exclusivamente na parte final deste intervalo, as semanas que vêm antes da colheita e que são tão decisivas para a maturação completa das uvas.

Mas qual variável analisar? Embora existam múltiplas variáveis que afetam o clima (regime de chuvas, umidade e efeito do vento), por simplicidade boa parte dos indicadores acaba focando nas temperaturas. Deste modo, usando um indicador da temperatura em torno das videiras, buscam definir uma classificação das diferentes regiões. Vale a pena explorar alguns destes indicadores que, embora relativamente simples, podem trazer uma classificação bastante útil para a adequação da viticultura.    

Índice de Winkler

O Growing Degree Days (GDD), geralmente conhecido como índice ou escala de Winkler, é um dos mais tradicionais índices de classificação climática na viticultura. Desenvolvido por Davis Winkler e Maynard Amerine em 1944, na Universidade da Califórnia, é prático e objetivo. Ele mede a soma das temperaturas médias diárias acima de 10 °C (abaixo desta temperatura as videiras não crescem), durante a estação de crescimento. A lógica é que a videira só cresce e amadurece frutos a partir de um limiar mínimo de temperatura, de forma que este índice permite comparar regiões e associá-las à adequação varietal.

Para calculá-lo, basta ter em mãos as temperaturas máximas e mínimas de cada dia durante a estação de crescimento. Por exemplo, se em um dia a temperatura máxima foi de 28 °C e a mínima de 14 °C, a média será de 21 °C. Subtraindo o limiar de 10 °C, temos 11 unidades de GDD. Repetindo ao longo da estação, chega-se à soma anual que define a região. Sua grande vantagem é a simplicidade e correlação direta com a maturação das uvas. Entretanto, apresenta diversas limitações:  não considera extremos de calor, amplitude térmica, insolação ou balanço hídrico.

Apesar destas limitações, serve como base para a definição de uma escala que divide as regiões vitivinícolas do mundo em cinco grupos. Originalmente desenvolvida para a escala de temperatura usada nos Estados Unidos (Fahrenheit), tem a seguinte matriz quando convertida em Celsius:

Região I: 850–1.390 GDD. Muito fria, adequada para uvas como Riesling, ou Pinot NoirChardonnay para espumantes; em regiões como Champagne, Mosel ou sul da Nova Zelândia.

Região II: 1.391–1.670 GDD. Clima fresco, ideal para castas como Pinot Noir, Chardonnay, Cabernet FrancSauvignon Blanc ou Albariño; cobrindo, entre outros, partes da Borgonha, Loire, Galícia ou Hunter Valley.

Região III: 1.671–1.950 GDD. Clima quente, propício para  Cabernet SauvignonMerlot, Tempranillo, Syrah ou Sangiovese, tendo como exemplo regiões como Rioja, Napa, Toscana ou Douro.

Região IV: 1.951–2.220 GDD. Clima muito quente, recebe bem variedades como Tempranillo, Shiraz, Grenache, Barbera, em áreas como Central Valley (California), La Mancha, Puglia, Alentejo ou Barossa Valley

 Região V: >2.220 GDD. Climas excessivamente quentes, adequados sobretudo para uvas de mesa e vinhos de grande volume.

Índice de Huglin

Criado em 1978 pelo francês Pierre Huglin, o índice que leva seu nome traz uma visão “mais europeia” da classificação de climas. É uma evolução do GDD que leva em conta não apenas a temperatura média, mas também a temperatura máxima diária e um fator de correção de latitude (k), que compensa o efeito de dias mais longos em latitudes mais altas. O cálculo é feito entre abril e setembro no Hemisfério Norte, sempre com o limiar de 10 °C.

A principal vantagem do Huglin é sua maior sensibilidade em refletir a capacidade de amadurecimento em regiões mais setentrionais da Europa. Por outro lado, tende a superestimar o potencial em áreas muito quentes e secas. Trabalha com seis categorias: abaixo de 1.500 (muito frio, apenas variedades híbridas), 1.500–1.800 (clima fresco, Riesling, Pinot Noir), 1.800–2.100 (temperado, Merlot, Cabernet Franc), 2.100–2.400 (temperado-quente, Cabernet Sauvignon, Syrah), 2.400–3.000 (quente, variedades mediterrâneas como Tempranillo, Mourvèdre) e acima de 3.000 (muito quente, uvas de mesa e passas).

Growing Season Temperature (GST)

Ao contrário dos demais, que acumulam as temperaturas, aqui o foco é na média. O GST, desta forma, calcula a média das temperaturas de toda a estação de crescimento, entre abril e outubro no Hemisfério Norte (ou de outubro a abril no Sul). É um índice muito usado em estudos de mudança climática por sua simplicidade e por permitir comparações globais diretas.

As categorias são: <13 °C (muito frio), 13–15 °C (fresco, Champagne, Mosel), 15–17 °C (temperado, Borgonha, Marlborough), 17–19 °C (temperado-quente, Bordeaux, Rioja), 19–21 °C (quente, Napa, Douro), >21 °C (muito quente, Riverland, La Mancha). Sua principal vantagem é a clareza e aplicabilidade ampla.

Mean Temperature of the Warmest Month (MUT)

Aqui o foco não é na temporada completa de crescimento, mas somente no mês mais quente. O MUT, deste modo, usa a temperatura média do mês de maior calor do ciclo vegetativo, normalmente julho no Hemisfério Norte e janeiro no Hemisfério Sul. É um índice simples e intuitivo, útil para indicar os limites térmicos superiores e inferiores para a viticultura.

Suas vantagens são a facilidade de cálculo e a boa correlação com o potencial de maturação. Contudo, ignora o restante da estação, não considera amplitude térmica nem extremos fora do mês mais quente. São sete categorias (das quais seis adequadas para a viticultura): <14 °C (inadequada), 14–16 °C (muito fresco, Champagne, Mosel), 16–18 °C (fresco, Borgonha, Loire), 18–20 °C (temperado, Bordeaux, Rioja), 20–22 °C (quente, Toscana, Douro), 22–24 °C (muito quente, La Mancha, Napa) e >24 °C (excessivo, adequado sobretudo para uva de mesa).

Vantagens e pontos fracos

Cada índice climático possui pontos fortes e limitações. O Winkler é simples e historicamente importante, mas foi concebido levando em conta sobretudo a realidade da viticultura na Califórnia. O Huglin adiciona correções que o tornam mais aplicável à Europa e regiões de latitude elevada. O MUT, por sua vez, oferece uma leitura clara do limite térmico superior de uma região, enquanto o GST fornece uma visão média global da estação de crescimento, sendo bastante utilizado em estudos de mudança climática.

Na prática, porém, nenhum destes índices consegue captar toda a complexidade climática que influencia a viticultura. Por isso, muitos estudos modernos combinam mais de um indicador, unindo parâmetros de acumulação térmica, temperatura máxima, médias sazonais e médias noturnas de temperatura. Esse conjunto permite definir de forma mais precisa a adequação de uma região para determinadas castas e estilos de vinho.

Fontes: General Viticulture, Winkler, A.J.; Amerine, M.A.; Biologie et écologie de la vigne, Huglin, P.; A multicriteria climatic classification system for grape-growing regions worldwide, Tonietto, J.; Carbonneau, A.; Climate and terroir: Impacts of climate variability and change on wine, Jones, G.V.;
Climate change and global wine regions, Jones, G.V.; White, M.A.; Cooper, O.R.; Storchmann

Imagem: Arquivo pessoal

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