Diversidade no Friuli: 12 vinhos da Vie di Romans

A família Gallo tem tradição na viticultura desde o início do século XX, mas ganhou maior escala a partir de 1978, quando Gianfranco Gallo assumiu a vinícola familiar. Ele ampliou de forma significativa a área de vinhedos e a produção, sendo também responsável pela adoção do nome Vie di Romans, por conta do “conflito” com a gigante norte-americana Gallo. O foco principal fica em vinhos elaborados a partir de Chardonnay e Sauvignon Blanc, porém com cultivo também de Friulano, Pinot Grigio, Malvasia Istriana, Riesling, Pinot Noir e Merlot.

As uvas brancas representam 95% da produção, com vinificação em boa parte. Após colheita manual, as uvas passam por curta maceração pré-fermentativa anaeróbica em tanques de inox, onde fazem fermentação alcóolica com leveduras selecionadas. Não há conversão maloláctica e cerca de 50% dos vinhos segue em inox. Já as demais cuvées fazem estágio em barricas de carvalho francês por um período entre oito a nove meses, sempre com suas lias.

Os vinhos são rotulados como Friuli Isonzo DOC, uma área que reúne diversas peculiaridades de terroir. Há uma grande variação de solos, desde áreas com maior concentração de calcário com parcelas com maior proporção de argila e areia. O clima combina influências mediterrâneas (Mariano del Friuli fica a cerca de 15km do Mar Adriático) e continentais (são menos de 50 km até os Alpes), trazendo importante impacto sobre os vinhos. Somado a isso, o uso de muitas variedades abre espaço para uma grande diversidade de vinhos diferentes. Foi um prazer provar diversos de seus vinhos em visita conduzida por Matteo, filho de Gianfranco.

Ciampagnis Chardonnay 2022, 14,5%

Elaborado 100% em inox e com uvas mais próximas da área do Carso (mais frescas e com mais calcário), um Chardonnay direto e vertical, que na safra anterior chegou a lembrar um Sauvignon Blanc. Frutas brancas e tropicais no nariz, com alta acidez, corpo médio e boa intensidade de fruta no palato, alta tensão e leve toque de álcool.

Vie di Romans Chardonnay 2022, 14,4%

Vinho de maior produção da vinícola, com uvas provenientes de solos mais argilosos e com areia; estágio em barricas (20% novas). Maior presença de frutas brancas (maçã e pêssego) e nota de manteiga, com mais cremosidade e intensidade, mantendo alta acidez e toque amanteigado também no palato.

Dolée Friulano 2022, 14%

Apesar de muita gente considerar a Friulano como variedade autóctone do Friuli, ela chegou à região há cerca de 150 anos. Trazida pelos austríacos, é proveniente de Bordeaux, onde é conhecida com Sauvignonasse. Nesta safra, o vinho passou em estágio somente por carvalho usado. Bastante aromático, com notas intensas de pêssego branco, ervas verdes e especiarias. Mais untuoso e com alta acidez, mostrou uma interessante combinação entre frutas brancas maduras, especiarias e notas salinas no retrogosto.

 Dis Cumieris Malvasia Istriana 2022, 14,4%

A Malvasia Istriana é menos doce que outros tipos de Malvasia, sendo usada para vinhos brancos secos, como neste caso. Com vinificação 100% em inox, um vinho bastante aromático, com notas de uva in natura, frutas cítricas cristalizadas, gengibre e pimenta branca. Trouxe um palato de alta acidez, corpo médio, leve dulçor e mais untuosidade.

Vieris Sauvignon Blanc 2022, 14,6%

Assim com a Chardonnay, a Sauvignon Blanc tem um histórico superior a 200 anos no Friuli, tendo sua introdução na época da dominação Napoleônica. Vinificação 100% em inox, com uvas de vinhedos de solos mais pobres e mais calcários. Um dos destaques da degustação, com olfativo intenso marcado por notas cítricas (grapefruit), ervas verdes, maracujá e brisa de mar. Na boca, combinou uma espinha dorsal de alta acidez e frescor com boa intensidade de fruta, salinidade e textura firme. Um vinho direto e com muita tensão, sem percepção do elevado teor alcóolico.

Dessimis Pinot Grigio 2022, 14,8%

Uma proposta diferente de Pinot Grigio em relação ao que é mais comum no Friuli. Coloração acobreada, maior presença de componentes aromáticos, além de mais estrutura e profundidade. Um ponto intermediário entre o que esta variedade oferece na grande maioria dos vinhos desta região e aqueles da Alsácia, embora menos untuoso e mais seco.

Flors di Uis Blend 2017 e 2007

Corte de 55% Malvasia, 25% a 30% Riesling Renano e o resto de Friulano. Comparação entre duas safras com dez anos de intervalo, o mais antigo elaborado na época quando ainda havia uso de conversão maloláctica, porém sempre sem passagem por madeira. O 2017 se mostrou bastante aromático, com a Malvasia prevalecendo, porém, com a Riesling aportando mais acidez. O 2007 estava 100% íntegro, com mais untuosidade e densidade, sem a mesma tensão.

Glesie Chardonnay 2017, 13,5%

A Vie di Romans elabora seis Chardonnays de vinhedos distintos, usando um conceito parcellaire, mais comum na Borgonha. A vinificação é a mesma: sem maloláctica, nove meses em barricas (das quais 20% novas, 20% de segundo uso e assim em diante), com mais 10 meses em inox e dois anos em garrafa antes do lançamento. O Glesie tem origem em solos mais argilosos, de clima mais quente. Com olfativo marcado por frutas brancas e nota de manteiga, um Chardonnay mais gordo e de fruta mais abundante, com alta intensidade aromática e final longo.

Boghis Chardonnay 2017, 13,5%

Parcela localizada mais a leste, a cerca de 3,5 quilômetros em linha reta da anterior, onde o solo é mais calcário e as temperaturas médias um grau abaixo. Outro dos destaques da visita, um vinho mais mineral e com maior presença de notas mais verdes, sem perder uma agradável qualidade de fruta. Também traz leves notas de madeira, porém um Chardonnay mais direto e tenso.

Vie di Romans Pinot Nero 2020, 14,5%

Uma expressão diferente para a Pinot Noir, onde aromas e sabores de ervas mediterrâneas acompanharam notas de frutas vermelhas e negras mais maduras e raiz, com boa acidez, taninos mais presentes e corpo médio.

Voos dai Ciamps 2018, 14%

Monovarietal de Merlot, com frutas vermelhas e negras maduras, notas de pimentão e pimenta negra. Na boca, boa acidez, taninos redondos e levemente doces, com corpo médio e textura elegante. Assim com Chardonnay e Sauvignon, a Merlot também chegou ao Friuli na dominação francesa e achou na região uma expressão diferente, porém interessante.

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