O vinho tem uma família numerosa. Com raras exceções, a grande maioria das variedades usadas para a elaboração de vinhos pertence à mesma espécie, a Vitis vinifera. Como parte de uma boa família, cada variedade mantém diversas relações de parentesco, muitas delas conhecidas, com outras variedades. Por exemplo, a Chardonnay tem como ascendentes diretos a Pinot Noir e a Gouais Blanc, esta última uma variedade quase extinta atualmente, mas que teve importante papel no passado.
Isso a coloca como irmã de outras variedades que também podem chamar Pinot Noir e Gouais Blanc de “pai e mãe”. Exemplos são Gamay, Aligoté e Melon de Bourgogne. Uma outra família já bem mapeada é aquela que reúne Cabernet Franc, Sauvignon Blanc e Cabernet Sauvignon (entre outras variedades com presença em Bordeaux), sendo a última resultado do cruzamento natural das duas primeiras.
Devido à popularização das técnicas de análise de DNA, determinar quem são os ascendentes ou descendentes de uma determinada variedade ficou mais fácil. Diversas relações genéticas foram comprovadas, ligando variedades antes consideradas “distantes” e destruindo mitos baseados em crendices populares. E isso permitiu aos cientistas identificar quais seriam as “variedades fundadoras”, ou seja, aquelas com o maior número de descendentes.
Um casal mais do que ativo
A Pinot Noir não é somente uma das variedades mais apreciadas do mundo. Ela também desempenha um papel central como variedade fundadora, por conta de sua longa trajetória e de seu “jeitinho especial” de se relacionar com outras variáveis. Estimativas colocam esta uva, possivelmente originária da região da Borgonha, como aquela com mais descendentes entre as uvas atualmente conhecidas.
Além de suas mutações (Pinot Blanc e Pinot Gris), seriam aproximadamente 200 descendentes, concentrados sobretudo na França, mas também em outros países europeus. Exemplos, além dos mencionados anteriormente, incluem também Romorantin, Sacy e Auxerrois na França, mas também Zweigelt e André na Áustria, além de Manzoni Nero na Itália e Reichensteiner na Alemanha.
Com cerca de 140 descendentes, a Gouais Blanc figura como a segunda variedade mais prolífica. Além de seus descendentes franceses, esta variedade aparentemente originária do Leste Europeu, deixou “herdeiros” em várias partes da Europa. Exemplos são Riesling (Alemanha), Blaufränkish (Áustria), Furmint (Hungria) e Xinomavro (Grécia), assim como outras uvas como Ribolla Gialla, Folle Blanche, Jacquère e Elbling.
Outras variedades fundadoras
A terceira variedade com mais descendentes tem sua “casa” em outra parte da Europa (Península Ibérica), com cerca de 110 variedades relacionadas. A Hebén deu origem a diversas uvas hoje populares na Espanha, como Airén, Cayetana Blanca, Viura (Macabeo), Xarel·lo, Pedro Ximénez e Allarén. Em Portugal, o legado foi também numeroso, incluindo Trincadeira das Pratas, Tinta Grossa, Castelão Branco, Malvasia Fina e Moscatel Nunes.
Três outras uvas vêm a seguir : Savagnin e Chasselas (cerca de oitenta descendentes cada) e Muscat à Petits Grains Blanc, conhecida também como Moscatel Branco, com aproximadamente 70 descendentes.
Fonte: Focus on Grapevine Generit Diversity, Anna Schneider
Imagem: Gerada via IA com Magic Media