Quando se fala dos vinhos da Nova Zelândia, a região de Marlborough concentra boa parte dos superlativos. Embora tenha uma história de vinificação comercial relativamente recente, respondeu em 2023 por mais de 80% da produção de vinhos neozelandeses, tendo a Sauvignon Blanc como carro-chefe. Se a vinicultura deste país da Oceania é famosa por esta uva de origem francesa, Marlborough é a principal referência, com mais de 92% da produção nacional desta variedade.
São cerca de 30 mil hectares de vinhedos, dos quais 80% plantados com a Sauvignon Blanc. Para colocar este número em perspectiva, a soma dos vinhedos desta variedade em Sancerre e Pouilly-Fumé, principais referências desta uva na França, não chega a 4 mil hectares. Porém, Marlborough não traz somente superlativos de produção. Seus vinhos possuem um estilo inconfundível, marcados por alta acidez e muita intensidade aromática. Vale a pena conhecer melhor sua história e características.

Origens, cereais e crescimento explosivo
Os primeiros vinhedos de Marlborough, da uva Moscatel, foram plantados em 1873 pelo escocês David Herd, na sub-região de Southern Valleys. Pouco depois, em 1880, a primeira vinícola foi criada por George Freeth. Apesar destes eventos, a vinicultura não prosperou na área, que ganhou importância pelo cultivo de cevada e alfafa. A justificativa? Marlborough é uma das regiões mais secas da Nova Zelândia, com baixas temperaturas médias. O desenvolvimento da vinicultura, assim, não era visto como viável.
Esta percepção, porém, passou a mudar a partir de 1973. Foi quando a vinícola Brancott Estate começou o cultivo na sua propriedade Montana, localizada em Fairhall. O imigrante croata Ivan Yukich, que plantava videiras na região de Auckland desde a década de 1940, viu enorme potencial na área. Após algumas experiências com outras variedades, em 1975 decidiu replantar seus vinhedos com Sauvignon Blanc e Pinot Noir, mais adaptadas ao frio da Ilha Sul.
O lançamento comercial de seu primeiro Sauvignon Blanc, em 1979, foi um marco, atraindo uma legião de novos produtores para a região. Em 1980 houve a criação da Marlborough Grapegrowers Association Incorporated e nem a chegada da filoxera à região em 1984 conseguiu conter o ritmo de crescimento. Em 1997 já eram 2.655 hectares de vinhedos, número que explodiu para mais de 21 mil hectares dez anos depois.
Localização e terroir
A região de Marlborough fica na parte nordeste da Ilha Sul, tendo ao norte o Estreito de Cook e a leste o Oceano Pacífico. Com isso, tem um clima tipicamente marítimo e conta com as mais altas médias de horas de exposição solar da Nova Zelândia (superiores a 2.400 horas/ano). É uma área de grande amplitude térmica (que chega a 11 graus no verão), com dias quentes e noites frias, fator fundamental para aumentar a complexidade das uvas. Sua posição costeira proporciona a ação de uma brisa marítima refrescante, enquanto cadeias de montanhas próximas trazem proteção contra chuvas e ventos extremos.
Ao lado de Central Otago, é um das regiões mais secas da Nova Zelândia, com índices pluviométricos na faixa de 655 milímetros de chuva por ano. A influência da água, porém, não se deve somente ao mar e à chuva. Dois rios marcam a região: a norte o Wairau e, mais ao sul, o Awatere. Por conta disso, Marlborough conta com numerosos vales e alta proporção de solos aluviais, já que o curso dos dois rios mudou constantemente no passado. Por conta destes fatores, é uma região dos diversos micro terroirs, que podem ser agrupados em três sub-regiões distintas.

Wairau: o local com um buraco na nuvem
Os Māori se referiam a Wairau Valley como Kei Puta te Wairau, ou “o lugar com o buraco na nuvem” – refletindo a excelente proteção oferecida pela sua topografia. Esta sub-região é definida por sua proximidade com o rio Wairau, que tem cerca de 170 km de extensão e flui das montanhas do oeste para o oceano, desaguando na Cloudy Bay. Os primeiros vinhedos de Marlborough foram estabelecidos nestas planícies fluviais, que incluem as áreas de Rapaura e Renwick.
Esta sub-região fica mais próxima da cordilheira de Richmond, que registra mais chuvas do que o maciço de Wither Hills, que domina outra sub-região, Southern Valley. São essas cordilheiras que protegem o vale de Wairau de eventos climáticos extremos vindos do norte e noroeste. São solos antigos, com cascalhos de leito dos rios e diversos mesoclimas, que podem ser divididos em dois grupos. De um lado, os locais mais frios e secos do interior; de outro, aqueles com temperatura mais moderada por conta da brisa marítima. Isso confere diferentes características aos vinhos desta sub-região.
Southern Valleys
Como nome indica, esta sub-região engloba vários pequenos vales (Omaka, Fairhall, Brancott, Ben Morvan e Waihopai) situados ao sul de Wairau. Por conta da presença de diversos morros, o terroir varia bastante, porém os solos tendem a ser mais pesados e conter mais argila do que Wairau. O relevo acidentado também torna a área mais fria e seca. É uma sub-região onde a Sauvignon Blanc tem uma participação menor, com a Pinot Noir ganhando mais espaço.
Awatere Valley
A palavra Māori Awatere significa “fluxo rápido”, se referindo aos rio local. O Vale de Awatere é a sub-região geograficamente mais distinta das demais, situada mais ao sul, em torno do rio Awatere e nas áreas de Seaview, Redwood Pass e Blind River. Por conta da menor proteção das cadeias de montanhas, conta com um terroir mais frio, seco e ventoso, embora tenham maior altitude média. Com rendimentos mais baixos, é conhecida por seus Pinot Noir mais aromáticos e Sauvignon Blanc mais diretos e verticais. Awatere foi a última sub-região a ter pleno reconhecimento, com seus primeiros plantios em escala comercial no final da década de 1980.
Vinhedos e produção
Com uma área de vinhedos de 29.654 hectares, cerca de 71% do total de videiras da Nova Zelândia, é uma região onde a Sauvignon Blanc se destaca, com 23.834 hectares, ou 80% dos vinhedos locais. Para colocar este número em perspectiva, isso equivale a 88% das plantações totais desta uva na Nova Zelândia. Também merecem destaque Pinot Noir (2.733 ha), Pinot Gris (1.238 ha) e Chardonnay (1.083 ha). Há cultivo em menor escala de outras uvas, como Riesling, Chenin Blanc, Grüner Veltliner, Viognier, Syrah, Arneis e Tempranillo, entre outras.

Em 2023 a produção total de Marlborough ficou em torno de 393 mil hectolitros, o que corresponde a cerca de 52 milhões de garrafas. Este número representou 81% da produção total da Nova Zelândia no mesmo período. Deste total, a Sauvignon Blanc reinava soberana, com mais de 89% do volume produzido em Marlborough, seguida por Pinot Noir (3,9%), Pinot Gris (3,4%) e Chardonnay (2,4%).
Vinhos e produtores
A associação com a Sauvignon Blanc é imediata quando se fala de vinhos de Nova Zelândia. Sendo responsável por mais de 92% dos vinhos desta variedade no país em 2023, Marlborough acaba sendo a principal referência. São vinhos que rapidamente alcançaram grande projeção internacional, criando uma nova dimensão para a Sauvignon Blanc. Assim como os vinhos de Sancerre e Pouilly-Fumé, são leves e com alta acidez, porém com um componente aromático muito mais intenso. As notas de frutas tropicais, sobretudo maracujá, ganharam espaço, esculpindo vinhos fáceis de beber, com boa complexidade e muito frescor.
A partir do sucesso da Brancott Estate, diversas vinícolas se estabeleceram na região, unindo altos volumes e ótima qualidade. Algumas delas acabaram atraindo a atenção de grandes grupos internacionais, como a Cloudy Bay (adquirida pela gigante LVMH) e a Wither Hills (controlada por um grupo australiano). Outros nomes importantes, como Dog Point, Nautilus Estate, Oyster Bay, Montana Wines, Saint Clair, Greywacke e Astrolabe seguem sob controle local.
Fontes: NZ Wines; NZ Wine Directory; Marlborough Wines; Discovering the Wines of New Zealand, Wine Scholar Guild
Mapas: New Zealand Wine
Imagens: New Zealand Winegrowers Inc,.Giesen.Wines.jpg