Last Updated on 17 de fevereiro de 2024 by Wine Fun
Quem está começando no mundo do vinho muitas vezes tem dificuldades para entender as informações que estão nos rótulos. De fato, existem rótulos bem complicados, como, por exemplo, aqueles de vinhos alemães, que em geral trazem uma quantidade enorme de informações. Se de um lado ajuda quem já está mais avançado no mundo do vinho, por outro faz a coisa parecer mais difícil para quem está começando.
As informações disponíveis nos rótulos variam muito, o que acaba dificultando o entendimento. Por que alguns trazem o nome da uva em destaque? Já outros destacam o nome da região, muitas vezes sem trazer sequer o nome da uva? Para entender melhor, ajuda bastante conhecer a origem dos vinhos, algo que facilita muito a compreensão das informações.
Velho mundo versus novo mundo
Uma distinção que ajuda a entender o rótulo é saber se o vinho foi elaborado em um país do “Velho Mundo” ou “Novo Mundo”. Embora esta própria distinção seja aberta a discussão, por Velho Mundo geralmente se entende os países europeus, com foco naqueles com grande tradição e longa história na elaboração de vinhos, como França, Itália, Espanha, Portugal e Alemanha.
Na definição de Novo Mundo, por outro lado, entram os países fora da Europa. Alguns exemplos são Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos, Argentina, Chile, África do Sul e, por que não, também o Brasil. Alguns deles têm longa tradição na vinicultura (por exemplo a África do Sul elabora vinhos de grande qualidade desde o século XVII) enquanto alguns somente ganharam importância nos últimos trinta anos, como a Nova Zelândia, por exemplo.
Tradição regional
E como esta diferença entre Velho e Novo Mundo está refletida no rótulo? Muito disso tem a ver com tradição e, para explicar melhor, vamos usar a França como exemplo. A França tem uma longa tradição na elaboração de vinhos, com uma enorme diversidade de regiões e, também, muitas uvas originárias do seu território, as chamadas uvas autóctones.
A Borgonha é um exemplo. Terra de origem das uvas Pinot Noir e Chardonnay, tem um longo histórico de produção de vinhos, com séculos de experiência acumulada no mapeamento das melhores regiões para cada tipo de uva. Quando você vai à Borgonha, você não pede simplesmente um Pinot Noir (até porque grande parte dos tintos da região é feita com esta variedade), você pede o vinho de uma determinada parte da Borgonha, ou colocando na linguagem do vinho, de uma denominação ou apelação diferente.
E isso está registrado nos rótulos. Os vinhos da Borgonha trazem como informações principais o nome do produtor e a sua denominação de origem (ou seja, a proveniência das uvas com o qual foi elaborado). Ao pedir um Échezeaux ou mesmo um vinho mais simples dentro da categoria Bourgogne Rouge, estará pedindo um Pinot Noir. Isso porque está no regulamento destas regiões que a única uva tinta permitida para estas denominações é a Pinot Noir.

Novos horizontes
A situação é diferente no Novo Mundo. Em geral, são regiões onde a elaboração de vinhos é algo mais recente que na Europa. A tradição não é tão longa e podemos dizer que ainda existe muito espaço para experimentar novas alternativas. As uvas, por sua vez, não são originárias destas regiões. Foram trazidas, em geral da Europa, para serem plantadas em locais onde mostram boas condições de adaptação.
Vamos seguir falando da Pinot Noir, mas agora com foco na Nova Zelândia. Hoje este país de Novo Mundo consegue produzir excelentes exemplares de Pinot Noir, mas não tem uma tradição como na França. Ao comprar o vinho neozelandês da foto abaixo, as primeiras informações que você encontrará no rótulo serão o nome do produtor (Felton Road) e da uva (Pinot Noir), com uma menção menos importante para a região de produção (Central Otago).

E o mesmo ocorre em todos os demais países de Novo Mundo. Por conta de uma tradição não tão longa na elaboração de vinhos, a informação mais relevante (junto com o nome do produtor) é saber a variedade. Sabemos que Mendoza, na Argentina, produz um volume enorme de vinhos usando a Malbec como variedade principal, mas também elabora vinhos com outras uvas. Assim, colocar somente Mendoza no rótulo como informação não é suficiente, a uva deve ser destacada.
Região versus uva
Assim, a principal diferença nos rótulos entre um vinho do Velho Mundo e do Novo Mundo é no foco dado à região ou à uva. Quando você opta por um vinho tradicional europeu, você pede pelo vinho de uma região, sendo que uva será sub-entendida. Échezeaux? Você está automaticamente pedindo um Pinot Noir. A mesma coisa acontece com outras regiões. Pediu Barolo? Vai receber um vinho feito com a uva Nebbiolo.
E isso vale para uma quase infinidade de regiões. Rioja (Tempranillo ou corte com grande participação desta variedade), Brunello de Montalcino (Sangiovese na sua totalidade ou grande proporção), Bordeaux (participações variáveis de Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e outras uvas menos importantes) são apenas alguns exemplos.
Por outro lado, embora existam denominações de origem também no Novo Mundo, a informação principal, aliada ao nome do produtor) segue sendo o nome da uva. É, portanto, mais uma questão de praticidade, já que a tradição não é tão longa e as uvas não são originárias destas regiões.
Sempre existem exceções
É importante entender também que existem muitas exceções à distinção mostrada acima. Não são poucos os vinhos europeus que deixam muito claro quais são as uvas usadas, muitas vezes até em uma posição de maior destaque do que a própria região de onde vieram as uvas. Um exemplo é aquele de regiões relativamente novas ou onde houve mudanças nas uvas dominantes (pense em algumas partes de Portugal ou do Sul da França).
Também são comuns denominações onde várias uvas distintas são permitidas. A região francesa da Alsácia é um exemplo, você pode ter um Alsace Grand Cru branco elaborado com Riesling, Moscatel Branco, Pinot Gris ou Gewurztraminer. Outro exemplo é a elaboração de vinhos com as variedades que não sejam as tradicionais da região, como um Syrah no Douro ou um Chardonnay na Sicilia.
E há exceções também do outro lado, pois existem denominações no Novo Mundo com regras que automaticamente implicam no uso restrito de variedades. E nem precisamos sair do Brasil para entender isso. Ao se deparar com um vinho da Denominação de Origem Vale dos Vinhedos, você pode ter certeza que o tinto terá uma grande parcela de Merlot e o branco de Chardonnay. Mas, novamente por conveniência, em geral a uva estará destacada.
Imagem: Sean Zhang via Unsplash