Você sabe exatamente o que são vinhos laranja? Embora sejam elaborados a partir de uvas brancas, eles passam por um processo de vinificação mais próximo do normalmente aplicado aos tintos. Durante a fermentação, o mosto permanece em contato com as cascas e, frequentemente, com as sementes, extraindo cor, aromas, taninos e outros compostos fenólicos. O resultado pode variar de um vinho delicado, quase indistinguível visualmente de um branco que você conhece bem, a exemplares intensamente âmbar, estruturados e tânicos.
Em teoria, qualquer variedade branca pode passar por fermentação e maceração com as cascas. Na prática, porém, algumas respondem melhor do que outras. A espessura e a composição das cascas, a concentração de compostos fenólicos, a intensidade aromática, a acidez e a propensão ao amargor determinam como cada uva reage à maceração. Além disso, o resultado depende do tempo de contato, da temperatura de fermentação, do recipiente utilizado e da intensidade das extrações.
Quais são as uvas mais usadas?
Esta é uma pergunta difícil, mas alguns dados podem indicar o caminho. Para identificar quais variedades aparecem com maior frequência nos vinhos laranja, nada melhor do que olhar para o mercado, sobretudo nos catálogos de lojas online tradicionais e de estabelecimentos especializados em vinhos naturais, orgânicos e biodinâmicos ao redor do mundo. Foram analisados 200 vinhos laranja com composição de castas identificada, provenientes de 13 lojas online de oito países.
Entre os 200 vinhos coletados, 134, ou 67%, eram monovarietais, enquanto 66, ou um terço, eram cortes de duas ou mais uvas. E os dados mostram que há grande diversidade na escolha de variedades, com 44 uvas diferentes nos monovarietais e 89 nos cortes. Pinot Grigio foi a variedade mais frequente entre os vinhos monovarietais, enquanto o grupo da família Moscatel apresentou a maior presença total quando considerados tanto os varietais quanto os cortes.
Pinot Gris ou Pinot Grigio
A Pinot Gris foi a variedade mais comum entre os vinhos laranja monovarietais analisados, com 17 rótulos, o que corresponde a 12,7% desse grupo. Considerando também sua presença em cortes, apareceu em 25 dos 200 vinhos, ou 12,5% da amostra. Embora geneticamente branca, a Pinot Gris apresenta cascas que, quando maduras, geralmente adquirem tonalidades rosadas, cinzentas ou acobreadas. Essa característica explica parte da coloração de muitos vinhos macerados elaborados a partir dessa variedade. Suas cascas também fornecem uma quantidade significativa de compostos fenólicos, permitindo a produção de vinhos com textura, estrutura e coloração que podem se aproximar do cobre ou do rosa-escuro.
Quando falamos em vinhos brancos, geralmente, a Pinot Gris se divide em dois estilos principais: o mais encorpado e denso da Alsácia e o mais fresco e fácil de beber do Pinot Grigio italiano. Já nos vinhos laranjas, esta divisão desaparece. Por exemplo, no Domaine Weinbach, na Alsácia, a Pinot Gris é utilizada ao lado da Gewürztraminer no seu vinho laranja. Eddy Faller, enólogo principal do domaine, considera as duas variedades particularmente adequadas à maceração devido à espessura das cascas e à estrutura fenólica.
Na Itália, a Pinot Grigio é a base do Fuoripista, elaborado pela Foradori em colaboração com Marco Devigili. Proveniente de dois hectares em Campo Rotaliano, no Trentino, o vinho permanece por mais de oito meses em contato com as cascas dentro de tinajas, antes de passar por barris de acácia. O longo processo transforma uma variedade frequentemente associada a vinhos leves e simples na Itália em um vinho profundo, estruturado e de forte identidade.
Família Moscatel
Considerando os cortes, as variedades da família Moscatel (sobretudo Moscatel de Alexandria e Moscatel Branco) apresentaram a maior presença na pesquisa, com 31 dos 200 vinhos, ou 15,5% da amostra. Entre os monovarietais, apareceram em dez rótulos, o que equivale a 7,5% do total. As características destas uvas justificam seu uso em vinhos laranjas. Têm elevada concentração de terpenos, compostos responsáveis pelos aromas florais, cítricos e frutados. Substâncias como linalol e geraniol estão concentradas sobretudo nas cascas, e a maceração prolongada aumenta sua extração.
O resultado é quase sempre cativante, sobretudo nos cortes. Geralmente os vinhos mostram aromas intensos de flor de laranjeira, jasmim, casca de cítricos, ervas verdes, damasco e gengibre. Ao mesmo tempo, a fermentação completa dos açúcares cria um contraste interessante. O nariz pode sugerir doçura e fruta madura, enquanto o palato permanece seco, estruturado e, por vezes, marcadamente salgado ou especiado. As cascas relativamente espessas também fornecem taninos e outros compostos fenólicos, contribuindo para a textura e sustentando o caráter aromático. Isso evita que o vinho pareça excessivamente perfumado ou simples, o que é frequentemente observado em brancos tradicionais.
Chardonnay
A Chardonnay esteve presente em 23 dos 200 vinhos analisados, ou 11,5% da amostra. Entre os monovarietais, foram encontrados sete exemplares. Esta variedade, porém, demonstra que não há consenso sobre quais uvas funcionam melhor. Sua relativa neutralidade e capacidade de expressar o local de origem podem resultar em vinhos macerados complexos e estruturados. Existem exemplos na Eslovênia, na região austríaca da Estíria e em diferentes regiões francesas e italianas.
Por outro lado, há quem acredite que a Chardonnay pode desenvolver amargor excessivo quando submetida a longas macerações. Diversos enólogos ressaltam que a variedade exige atenção especial, pois suas cascas podem conferir um final pouco harmonioso. Isso não significa, como os números mostram, que seja inadequada em todos os casos, mas sim que a duração da maceração e a intensidade da extração precisam ser ajustadas cuidadosamente.
Grenache Blanc
A Grenache Blanc apareceu em 14 dos 200 vinhos, ou 7% da amostra. Sua acidez naturalmente moderada pode representar uma limitação para macerações prolongadas. Entretanto, sua abundância de frutas, seu corpo e sua textura macia podem equilibrar a estrutura resultante da extração das cascas. É comum em vinhos laranja do Rhône, Languedoc, Roussillon e da Catalunha, muitas vezes em cortes com outras variedades mediterrâneas. O desafio é preservar frescor e evitar que álcool, corpo e fenólicos tornem o vinho pesado.
Malvasia
As diferentes variedades da família Malvasia apareceram em 13 dos 200 vinhos, ou 6,5% da amostra. Entre os monovarietais, foram identificados quatro exemplares. A família reúne diversas uvas, algumas delas especialmente adequadas à maceração. A Malvasia di Candia Aromatica, encontrada principalmente na Emilia-Romagna, combina grande intensidade aromática com uma estrutura capaz de suportar contato prolongado com as cascas. Pode produzir vinhos florais, perfumados e bastante estruturados.
Já a Malvasia Istriana, ou Malvazija Istarska, é comum na Ístria croata, no Carso italiano e na parte ocidental da Eslovênia. Seus aromas de frutas maduras e sua textura generosa se integram bem aos taninos extraídos das cascas, resultando em vinhos amplos, mas potencialmente equilibrados.
Gewürztraminer e outras Traminer
Gewürztraminer e outras variedades da família Traminer estiveram presentes em 11 dos 200 vinhos, ou 5,5% da amostra. Quatro deles eram monovarietais. A Gewürztraminer, em particular, reúne diversas características favoráveis à maceração. Suas cascas relativamente espessas e sua elevada carga fenólica proporcionam estrutura, enquanto seu perfil intensamente aromático resiste mesmo a períodos consideráveis de contato com as cascas. Em vez de eliminar os aromas florais, de especiarias e de frutas maduras, a maceração suaviza-os e pode acrescentar textura e equilibrar a untuosidade habitual da variedade.
Chenin Blanc
A Chenin Blanc apareceu em 11 dos 200 vinhos, ou 5,5% da amostra, incluindo sete monovarietais. Sua elevada acidez representa uma vantagem importante, especialmente em macerações prolongadas. A variedade pode conservar tensão mesmo quando ganha corpo, textura e estrutura fenólica. Ao mesmo tempo, a maceração pode reduzir parte do seu caráter frutado e ressaltar notas terrosas, de cera, de ervas e de frutas secas. O equilíbrio depende da maturação das cascas e das sementes e do controle da extração.
Macabeo
A Macabeo também esteve presente em 11 dos 200 vinhos, dos quais quatro foram monovarietais. Também conhecida como Viura em parte da Espanha, pode produzir vinhos relativamente neutros quando trabalhada de forma convencional e com rendimentos elevados. A maceração é uma forma de adicionar textura, volume e complexidade aromática. Nos melhores exemplos, mantém frescor suficiente para equilibrar a estrutura extraída das cascas, especialmente quando proveniente de vinhas velhas e cultivo em regiões mais elevadas ou secas.
Viognier
A Viognier apareceu em dez dos 200 vinhos, ou 5% da amostra. Seu perfil floral e de pêssego amarelo pode resistir bem à maceração, enquanto o contato com as cascas acrescenta textura e certa estrutura tânica. A principal dificuldade é manter o equilíbrio entre álcool, corpo e sua baixa acidez natural. Macerações excessivas podem gerar vinhos pesados ou amargos.
Friulano
A Friulano apareceu em oito dos 200 vinhos, ou 4% da amostra, com quatro monovarietais. Esta uva tem longa presença no Friuli e na Eslovênia ocidental, regiões centrais no renascimento dos vinhos laranja. Pode produzir exemplares de corpo médio, com textura firme e aromas de ervas, amêndoas, flores e frutas maduras. Sua tendência natural a apresentar notas amargas no final exige controle da extração, mas essa mesma característica pode contribuir para a complexidade dos melhores vinhos.
Grüner Veltliner
A Grüner Veltliner também esteve presente em oito dos 200 vinhos, incluindo quatro monovarietais. Sua acidez elevada e seu caráter especiado constituem uma boa base para a maceração. O contato com as cascas pode ampliar sua textura e potencializar suas notas tradicionais de pimenta branca, ervas e frutas maduras, mantendo uma sensação de frescor. Seu uso concentra-se na Áustria e em outros países da Europa Central, onde há uma grande área plantada.
Sauvignon Blanc
A Sauvignon Blanc apareceu em sete dos 200 vinhos, ou 3,5% da amostra. É amplamente utilizada em vinhos macerados, sobretudo no Friuli, na Eslovênia e na Estíria austríaca. Seu perfil aromático intenso permite que preserve a identidade mesmo após contato prolongado com as cascas. Ao mesmo tempo, exige cuidado. A variedade apresenta elevada concentração de compostos aromáticos e fenólicos, e uma extração excessiva pode ampliar as notas vegetais, o amargor e a adstringência. Macerações mais controladas ou a utilização em cortes podem produzir resultados mais equilibrados.
Ribolla Gialla
A Ribolla Gialla também apareceu em sete dos 200 vinhos. Cinco deles eram monovarietais. Apesar de não estar entre as primeiras posições em termos de quantidade, ocupa uma posição central no reconhecimento moderno dos vinhos de maceração. Originária da área fronteiriça entre o Friuli, na Itália, e a região eslovena de Brda, onde é conhecida como Rebula, apresenta alta acidez e cascas espessas, características que favorecem longos períodos de contato sem que o vinho necessariamente perca frescor.
Joško Gravner e Stanko Radikon foram decisivos para recuperar esse modo de elaboração a partir da década de 1990, e alguns de seus vinhos hoje figuram entre os mais disputados no segmento de vinhos laranja em todo o mundo. Esta variedade pode gerar vinhos de grande estrutura, com taninos perceptíveis, elevada acidez e aromas que evoluem de frutas cítricas e flores a especiarias, mel, frutas secas e notas terrosas.
Rkatsiteli
A Rkatsiteli apareceu em seis vinhos monovarietais e em diferentes cortes. É a principal uva branca da Geórgia e uma das grandes referências dos vinhos produzidos tradicionalmente em Qvevri. Mantém boa acidez e pode produzir vinhos florais, frutados e estruturados. Quando submetida a vários meses de contato com cascas e sementes, desenvolve taninos marcantes. Por isso, exige fruta madura, controle de rendimentos e extração equilibrada.
Vitovska
A Vitovska apareceu em cinco vinhos monovarietais da amostra. Autóctone do Carso, território dividido entre Itália e Eslovênia, combina acidez, neutralidade aromática e capacidade de transmitir as distintas características minerais dos solos calcários da região. Mesmo quando submetida a macerações prolongadas, costuma produzir vinhos mais sutis do que os elaborados com Ribolla Gialla ou Malvasia. A estrutura fenólica revela-se delicada, acompanhada de notas florais, minerais e salinas.
Mtsvane e Tsolikouri
Na Geórgia, diferentes variedades locais são utilizadas em vinhos de longa maceração produzidos em Qvevris enterrados. A Mtsvane, especialmente em Kakheti, apresenta cascas grossas e alta concentração tânica. Pode gerar vinhos potentes, com aromas florais, de pera madura e notas de frutas secas, mas frequentemente requer um longo amadurecimento para integrar a estrutura.
A Tsolikouri, mais comum no oeste da Geórgia, tende a apresentar um perfil diferente. Seus vinhos podem ser mais leves, minerais e austeros, com menor extração do que os vinhos tradicionais de Kakheti. Nos melhores casos, essa contenção se traduz em elegância e precisão.
Variedade versus estilo
Os dados mostram que não há uma única uva dominante na produção de vinhos laranja. Mesmo as variedades mais frequentes aparecem em uma parcela pequena dos vinhos, o que reflete a enorme diversidade geográfica e varietal da categoria. Porém, algumas variedades aromáticas e de cascas grossas, como Moscatel de Alexandria, Gewürztraminer, Pinot Gris, Ribolla Gialla e algumas Malvasias, oferecem vantagens evidentes. Elas fornecem aromas, cor e estrutura suficientes para suportar macerações mais longas.
Por outro lado, variedades neutras e de cascas finas também podem responder bem, desde que o produtor adapte o processo. Um exemplo é a Nosiola, uva bastante neutra originária do Trentino. Neste caso, nas mãos de um produtor como Foradori, conseguiu atingir uma expressão única, após sete meses de maceração. Variedades como a Chardonnay também podem resultar em vinhos interessantes, mas sempre com o risco de adquirir amargor excessivo quando a extração não é adequada.
Quando se fala de vinhos laranja, a escolha da uva representa apenas o ponto de partida. O perfil final do vinho depende de muitos fatores. Entre eles, destaque para o tempo de maceração, a presença ou ausência de engaços, a frequência ou intensidade das extrações, o formato do recipiente e o período de maturação. Como ocorre nos vinhos tintos, com os quais compartilham diversas etapas do processo de vinificação, a combinação entre variedade e método pode produzir resultados completamente diferentes.
Fontes: Amber Revolution – How the world learned to love orange wine, Simon J. Woolf; entrevistas com produtores; Wine & Spirit Education Trust, What is orange wine? Understanding skin-contact white wines; The Morning Claret; The New York Times; Wine Folly; Decanter; Jancis Robinson;
Imagem: gerada por IA com ChatGPT