Quase cem vinícolas e surpresas: o Guia Michelin de produtores da Borgonha

Last Updated on 9 de julho de 2026 by Wine Fun

Muitos nomes consagrados e algumas surpresas. Este pode ser um resumo da primeira classificação de produtores da Borgonha, divulgada pelo Guia Michelin, uma iniciativa que leva ao mundo do vinho a lógica que tornou famoso o seu guia de restaurantes. A escolha da Borgonha como ponto de partida não parece acidental, afinal de contas, é uma das regiões do mundo com relação muito forte entre origem, prestígio e valorização do terroir.

A seleção foi anunciada no início de julho em Dijon, no Palais des ducs et des États de Bourgogne, e inclui 94 vinícolas. O modelo desta nova iniciativa segue uma lógica semelhante à da gastronomia. No topo estão os produtores com três uvas Michelin, distinção reservada aos domaines que, segundo o guia, recebem total confiança independentemente da safra. Abaixo vêm os produtores com duas uvas Michelin e uma uva Michelin. Por fim, há a categoria de vinícolas selecionadas, dedicada a produtores considerados consistentes e confiáveis. Não há, porém, um equivalente ao Bib Gourmand, o que poderia ser de grande valia em uma região de preços inflacionados como a Borgonha.

Apesar disso, o paralelo com o guia de restaurantes é evidente. As Michelin Grapes funcionam como um sistema de distinções, com uma recomendação de qualidade. A diferença é que, no caso da Borgonha, a hierarquia não avalia pratos ou menus, mas produtores, estilos, consistência, precisão de trabalho no vinhedo e na adega, e a capacidade de expressar os diferentes terroirs da região.

Critérios de classificação

A avaliação do Michelin para produtores de vinho baseia-se em cinco critérios principais. O primeiro é a viticultura, entendida como a vida dos solos, o equilíbrio das videiras e o cuidado dedicado ao vinhedo, fatores considerados essenciais para a qualidade final. O segundo é o domínio técnico, ou seja, uma vinificação precisa e rigorosa, capaz de refletir o terroir e as variedades sem falhas que desviem a atenção. Os avaliadores também valorizam a identidade dos vinhos, buscando rótulos que expressem personalidade, senso de lugar e a cultura por trás de sua produção.

Além disso, o guia observa o equilíbrio dos vinhos do produtor em questão, considerando a harmonia entre acidez, taninos, madeira, álcool e dulçor. Por fim, há o critério da consistência, talvez especialmente importante em uma região como a Borgonha: a capacidade de manter uma qualidade elevada ao longo de diferentes safras, inclusive em anos mais difíceis. Em outras palavras, a seleção não se baseia apenas na fama dos produtores ou no prestígio de determinados vinhedos, mas em uma leitura ampla que combina trabalho no campo, precisão na adega, expressão de origem, equilíbrio sensorial e regularidade.

Os nove produtores com três uvas Michelin

A distinção máxima ficou limitada a nove produtores, todos concentrados entre Côte de Nuits e Côte de Beaune. Não há grandes surpresas na presença de alguns dos nomes míticos da Borgonha, mas há escolhas que surpreenderam por não reproduzirem uma simples hierarquia de preços dos vinhos e da fama dos domaines.

Na Côte de Nuits, Vosne-Romanée aparece com os dois nomes mais esperados: Domaine de la Romanée-Conti e Domaine Leroy. A presença do DRC é quase inevitável em qualquer seleção de elite da Borgonha. O domínio, com seus Grands Crus e sua reputação mundial, é um símbolo da região. Domaine Leroy, por sua vez, reforça o peso de Lalou Bize-Leroy, figura central da Borgonha contemporânea e única produtora a aparecer duas vezes na categoria máxima, já que também gere o Domaine d’Auvenay, em Saint-Romain.

Ainda na Côte de Nuits, os demais nomes compõem uma seleção de altíssima concentração. Em Morey-Saint-Denis, Cécile Tremblay é talvez o caso mais chamativo: um domaine criado apenas em 2003 e que, em menos de duas décadas, tornou-se um dos endereços mais disputados da região. Já em Gevrey-Chambertin, Dugat-Py representa a tradição, com vinhos de produção muito limitada, vinhas velhas e perfil de longa guarda. Em Chambolle-Musigny, Domaine Roumier completa o grupo.

Na Côte de Beaune, há quatro produtores, incluindo o já citado Domaine d’Auvenay. Em Meursault, Coche-Dury aparece como uma das referências, com vinhos marcados por  intensidade e capacidade de envelhecimento. Em Volnay, por sua vez, Jean-Marc & Thomas Bouley representam uma escolha talvez menos óbvia para o público mais leigo, mas coerente com a precisão e personalidade de seus vinhos. Por fim, em Saint-Aubin, Hubert Lamy fecha a lista, reforçando a ascensão desta parte até pouco obscura da Côte d’Or e o impecável trabalho da família, inclusive inovando com vinhas de altíssima densidade.

Vinte produtores com duas uvas Michelin

A segunda categoria reúne vinte produtores, definidos pelo guia como propriedades de qualidade notável e de grande consistência. Aqui, a seleção já se torna mais ampla, com a presença da Côte de Nuits, da Côte de Beaune e da Côte Chalonnaise. Na Côte de Nuits, a Michelin selecionou seis produtores. Vosne-Romanée traz os nomes de Georges Mugneret-Gibourg e de Gérard Mugneret. Marsannay entra com Bruno Clair, produtor que ajuda a evidenciar o peso crescente da parte norte da Côte de Nuits. Em Gevrey-Chambertin, Denis Mortet figura como referência na evolução rumo a uma maior elegância. Morey-Saint-Denis é representada pelo Domaine Dujac, um dos produtores mais importantes da região nas últimas décadas, conhecido pelo uso de cachos inteiros. Chambolle-Musigny fecha o grupo com Jacques-Frédéric Mugnier.

Na Côte de Beaune, a seleção de duas uvas Michelin reúne doze propriedades. Meursault e Puligny-Montrachet aparecem como polos centrais. Os irmãos Arnaud Ente e Benoît Ente reforçam a importância dos grandes brancos dessa faixa da Côte de Beaune. Em Meursault, Domaine des Comtes Lafon soma peso histórico e reputação internacional. Puligny-Montrachet ainda aparece com Domaine Leflaive e Étienne Sauzet.

Chassagne-Montrachet também tem forte presença, com Benoît Moreau, Lamy-Caillat e Paul Pillot. O caso de Paul Pillot é destacado pela Michelin pelo trabalho de Thierry Pillot, marcado por viticultura precisa, fermentações naturais, longo contato com as lias e busca por tensão e textura. Saint-Aubin aparece com Domaine Jean-Claude Bachelet.

A Côte de Beaune se completa com Bonneau du Martray, em Pernand-Vergelesses; Domaine des Croix, em Beaune; e Jean-Marc Vincent, em Santenay, produtor apresentado como importante para a valorização moderna desta pouco conhecida denominação de origem. A Côte Chalonnaise, por sua vez, aparece com dois produtores nesta categoria. Em Mercurey, Bruno Lorenzon sempre se mostrou a principal referência desta denominação de origem. Em Rully, Dureuil-Janthial confirma a força crescente da Côte Chalonnaise.

Os trinta e três produtores com uma uva Michelin

A categoria de uma uva Michelin reúne 33 produtores. Segundo o guia, ela distingue propriedades de alta qualidade, capazes de produzir vinhos de caráter e estilo, especialmente bem-sucedidos nas melhores safras. Nesta primeira seleção, os nomes estão concentrados na Côte de Nuits e na Côte de Beaune.

Na Côte de Nuits, Gevrey-Chambertin domina a categoria com seis produtores: Armand Rousseau, Claude Dugat, Denis Bachelet, Duroché, Joseph Roty e Trapet. É uma concentração importante, pois reúne nomes clássicos, produtores cultuados que ajudam a explicar por que Gevrey continua sendo uma das comunas mais associadas à potência e concentração. Chambolle-Musigny conta com quatro produtores: Comte Georges de Vogüé, Ghislaine Barthod, Hudelot-Noëllat e Louis Boillot. Morey-Saint-Denis vem em seguida, com nomes de forte presença em vinhedos Grand Cru, como Clos de Tart, Domaine des Lambrays e Domaine Ponsot. Já Vosne-Romanée reúne Arnoux-Lachaux, Domaine Sylvain Cathiard e Méo-Camuzet.

Na Côte de Beaune, Meursault é o vilarejo mais representado, com seis produtores: Domaine de Montille, Bernard-Bonin, Henri Boillot, Henri Germain, Domaine Roulot e Vincent Girardin. Volnay aparece com três produtores: Marquis d’Angerville, Michel Lafarge e Roblet-Monnot. Beaune reúne Benjamin Leroux e os négociants Joseph Drouhin e Louis Jadot. A Côte de Beaune se completa com Pierre-Yves Colin-Morey, em Chassagne-Montrachet; Marc Colin, em Saint-Aubin; e Henri & Gilles Buisson, em Saint-Romain, domínio lembrado pela Michelin como pioneiro da viticultura orgânica na Borgonha desde o fim dos anos 1940.

Os trinta e dois domaines selecionados

Além das uvas Michelin, o guia inclui 32 produtores selecionados. A categoria funciona como uma recomendação de confiança. São produtores escolhidos pela consistência e pela qualidade dos vinhos, ainda que não tenham recebido uma, duas ou três uvas. Na Côte de Nuits, a seleção começa com Fixin, representada por Domaine Berthaut-Gerbet, e com Marsannay, incluindo Charles Audoin e Sylvain Pataille.

Chambolle-Musigny entra com Domaine Felettig, enquanto Comblanchien e a Côte de Nuits-Villages aparecem com Domaine Camille Thiriet, projeto criado quase do zero a partir de uma microatividade de négoce e que ganhou escala com a aquisição do Domaine Gilles Jourdan em 2022. A Côte de Nuits se completa com Benoit Chevallier, em Vosne-Romanée; Domaine Fourrier, em Gevrey-Chambertin; e Hubert Lignier, em Morey-Saint-Denis.

Na Côte de Beaune, Meursault volta a ser o vilarejo mais representado. A lista inclui Anne Boisson, Ballot-Millot, Buisson-Charles, Camille & Guillaume Boillot, Domaine Jobard-Morey, Pierre Boisson, Pierre Girardin e Pierre Morey.  Chassagne-Montrachet aparece com Alex Moreau, Domaine Ramonet e Vincent Dancer. Puligny-Montrachet reúne Jacques Carillon e Thomas-Collardot. Beaune é a sede de Albert Bichot e Bouchard Père & Fils, enquanto Dezize-lès-Maranges reúne Bachelet-Monnot e Nicolas Perrault. A seleção da Côte de Beaune completa-se com Alain Gras, em Saint-Romain; Joseph Colin, em Saint-Aubin; Lafouge, em Auxey-Duresses; Pierre Guillemot, em Savigny-lès-Beaune; Domaine Rapet, em Pernand-Vergelesses; e Yvon Clerget, em Pommard. Na Côte Chalonnaise, o único nome selecionado foi o de Maxime Cottenceau, em Montagny.

Principais surpresas positivas

Como toda primeira classificação, a seleção da Michelin na Borgonha combina nomes de consenso e escolhas surpreendentes. Entre as surpresas positivas, a mais marcante talvez seja a presença de Hubert Lamy na categoria máxima, com três uvas Michelin. O reconhecimento é significativo porque coloca um produtor de Saint-Aubin no mesmo patamar de nomes como Domaine de la Romanée-Conti, Domaine Leroy, Coche-Dury, Domaine Roumier e Domaine d’Auvenay. Para quem acompanha a evolução da Côte de Beaune, porém, a escolha faz sentido: Olivier Lamy tornou-se um dos nomes mais influentes da Borgonha contemporânea, com vinhos de enorme precisão, tensão e capacidade de envelhecimento.

Na categoria de duas uvas Michelin, outras duas escolhas positivas merecem destaque. Paul Pillot, em Chassagne-Montrachet, recebe um reconhecimento importante para um produtor que talvez ainda não tenha, fora de alguns círculos, a mesma fama de outros nomes históricos da Côte de Beaune. Na Côte Chalonnaise, Dureuil-Janthial também se destaca como uma escolha muito interessante. A presença do produtor de Rully entre os domínios de duas uvas reforça a ideia de que a excelência não está restrita à Côte d’Or e que alguns vinhos da Côte Chalonnaise já disputam espaço além do que sua hierarquia tradicional sugeriria.

Surpresas negativas

Entre as surpresas negativas, uma das maiores é Domaine Ramonet aparecer apenas entre os produtores selecionados, fora das avaliações mais altas. Trata-se de um dos nomes mais tradicionais e respeitados de Chassagne-Montrachet, historicamente associado a alguns dos grandes brancos da Côte de Beaune. Em uma classificação que concedeu três uvas a Coche-Dury, duas uvas a Domaine Leflaive, Étienne Sauzet, Arnaud Ente, Benoît Ente, Domaine des Comtes Lafon, Benoît Moreau, Lamy-Caillat e Paul Pillot, a posição de Ramonet, apenas na faixa dos selecionados, chama a atenção, com um reconhecimento bem mais discreto do que o esperado.

Outra surpresa foi Armand Rousseau receber apenas uma uva Michelin. Para muitos conhecedores da Borgonha, Rousseau é uma das grandes referências de Gevrey-Chambertin. Na classificação da Michelin, porém, o domaine ficou bem abaixo de nomes como Dugat-Py, que recebeu três uvas, e de Denis Mortet, que recebeu duas. Ainda em Gevrey-Chambertin, Rousseau aparece no mesmo nível de Claude Dugat, Denis Bachelet, Duroché, Joseph Roty e Trapet.

Ausências surpreendentes

Uma ausência que chamou a atenção foi o Domaine Prieuré Roch, que não aparece nem entre os domínios selecionados. A omissão chama a atenção porque o domaine, fundado por Henry-Frédéric Roch, tornou-se uma das referências modernas na vinificação com cachos inteiros na Borgonha. Mesmo que seus vinhos possam dividir opiniões, sua importância estilística torna difícil ignorar sua ausência.

Outra ausência importante é a omissão, por escolha da Michelin, da região de Chablis. A primeira seleção concentra-se na Côte de Nuits, na Côte de Beaune e na Côte Chalonnaise, optando por não incluir Chablis nem seus produtores. Isso chama a atenção por diversos motivos. Chablis faz parte da Borgonha, é uma das áreas de maior reconhecimento para brancos da região e abriga nomes históricos de enorme prestígio, sobretudo Vincent Dauvissat e Domaine Raveneau.

Fonte: Michelin Guide

Imagem: gerada por IA com ChatGPT

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