Uma região espanhola em transformação: conheça o Bierzo

Durante muito tempo, a percepção do Bierzo se resumiu a uma região dominada pela variedade Mencía e pelo seu vasto patrimônio de vinhas velhas espalhadas pelas encostas do noroeste de Castilla y León. Na última década, porém, a denominação passou por uma profunda transformação. O gradual reconhecimento obtido por seus vinhos tintos revelou o potencial do terroir, levando uma nova geração de produtores a explorar o potencial dos vinhos brancos. Hoje, Bierzo vive uma evolução que vai além da simples valorização da Mencía, passando pelo crescimento acelerado da Godello.

Essa mudança fica evidente ao analisar os dados das safras mais recentes. Em 2021, a Mencía representava pouco mais de 77% das uvas colhidas na denominação. Apenas quatro anos depois, sua participação caiu para cerca de 52%, enquanto a Godello saltou de aproximadamente 15% para quase 39%. E isso faz parte de uma tendência observada em outras regiões espanholas e ao redor do mundo. O motivo? Consumidores cada vez mais em busca de vinhos brancos.

História milenar

A viticultura em Bierzo possui raízes antigas, desenvolvidas inicialmente pelos romanos. Posteriormente, o impulso veio das ordens monásticas durante a Idade Média, que expandiram o cultivo da videira ao longo do Caminho de Santiago. Durante séculos, a produção permaneceu voltada sobretudo ao consumo regional, baseada em pequenas propriedades familiares e em uma grande diversidade de parcelas distribuídas pelas encostas e vales da região.

A criação da Denominación de Origen Bierzo, em 1989, marcou o início da modernização da região. Mas a verdadeira mudança ocorreu no final da década de 1990. A chegada de Álvaro Palacios e de seu sobrinho Ricardo Pérez, atraídos pelas antigas vinhas de Mencía plantadas em solos de ardósia, demonstrou que Bierzo era capaz de produzir vinhos de reconhecimento internacional. O sucesso desses projetos estimulou inúmeros produtores locais a reduzir os rendimentos, recuperar vinhas velhas e investir em uma viticultura voltada à expressão do terroir. Esse movimento culminou, em 2017, com uma reforma do regulamento da denominação de origem. Ele passou a reconhecer oficialmente diferentes níveis de origem geográfica, incluindo vinhos de vila e de vinhedo singular, aproximando Bierzo de modelos já adotados em regiões como Priorato.

Localização e condições naturais

O Bierzo localiza-se no extremo noroeste de Castilla y León, na província de León. Forma uma ampla depressão cercada por cadeias montanhosas em praticamente todas as direções, exceto a oeste. Nesta área, há uma abertura que permite a entrada de massas de ar úmidas provenientes do Atlântico. Essa posição torna a região uma espécie de zona de transição entre o clima continental da Meseta e o clima atlântico da vizinha Galícia.

A localização do Bierzo

O resultado é um clima bastante distinto do restante de Castilla y León. Os verões são mais moderados, os invernos menos rigorosos e a precipitação anual, normalmente entre 600 e 800 mm, é significativamente superior à observada nas regiões centrais da comunidade autônoma. Ainda assim, a influência continental permanece importante, produzindo grande variabilidade entre as safras: algumas mais frias e úmidas, outras bastante quentes e secas.

A topografia também desempenha um papel decisivo. Os vinhedos distribuem-se desde o fundo dos vales até as encostas situadas entre 450 e 1.000 metros de altitude. Nas áreas baixas predominam solos mais profundos, ricos em silte e argila, capazes de proporcionar maiores rendimentos e de produzir vinhos destinados ao consumo imediato. Já nas encostas encontram-se solos de ardósia, quartzito e xisto, de excelente drenagem e baixa fertilidade. Nelas, videiras produzem naturalmente menos cachos e originam alguns dos vinhos mais complexos da Espanha. A combinação de altitude, ampla amplitude térmica e vinhas velhas favorece uma maturação lenta, preservando a acidez e permitindo o desenvolvimento aromático e fenólico das uvas.

Área plantada e produção

Bierzo possui atualmente cerca de 2.300 hectares de vinhedos, o que corresponde a aproximadamente 3% da área vitícola de Castilla y León e a apenas 0,25% da superfície espanhola dedicada à produção de vinhos. Em comparação, isso corresponde a cerca de metade da área das Rias Baixas e a menos de 4% dos vinhedos da Rioja. Apesar da dimensão modesta, é uma das regiões com maior concentração de vinhas antigas do país (cerca de 60% acima de 35 anos), distribuídas em milhares de pequenas parcelas pertencentes a pouco mais de 1.100 viticultores.

A produção média dos últimos anos gira em torno de 75 mil hectolitros de vinho, o equivalente a cerca de 10 milhões de garrafas por ano. O rendimento efetivo permanece próximo de 4,5 toneladas por hectare, valor significativamente inferior aos limites do regulamento da D.O., o que reflete tanto a idade avançada das videiras quanto a predominância dos vinhedos de encosta. Aproximadamente metade dos viticultores permanece vinculada a cooperativas, embora o crescimento dos produtores independentes tenha contribuído decisivamente para a valorização da denominação.

Classificação dos vinhos e dos vinhedos

Em 2017, Bierzo tornou-se uma das primeiras denominações espanholas a adotar um sistema moderno de classificação baseado na origem das uvas. Com isso, aproxima-se do modelo que ganhou projeção mundial por meio da Borgonha e que já foi reproduzido no Priorato. A reforma buscou reconhecer oficialmente a diversidade de terroirs da região e incentivar a produção de vinhos com uma identidade cada vez mais específica.

A classificação dos vinhos do Bierzo

O nível básico permanece sendo simplesmente o D.O. Bierzo, elaborado com uvas provenientes de qualquer área da denominação. Acima dele encontra-se o Vino de Villa, destinado a vinhos produzidos exclusivamente com uvas de um único município. O passo seguinte é o Vino de Paraje, reservado a vinhedos situados em uma área geográfica tradicional claramente delimitada, com exigências adicionais de rastreabilidade e rendimentos mais restritos.

No topo da hierarquia aparecem as categorias Viña Clasificada e Gran Viña Clasificada. Ambas são destinadas a vinhedos individuais de qualidade comprovada, submetidos a critérios rigorosos relacionados à idade mínima das videiras, ao histórico de produção, à delimitação precisa das parcelas e a um rendimento mais baixo. O objetivo é estabelecer uma classificação baseada na qualidade do vinhedo, reforçando a importância do terroir como principal elemento diferenciador dos grandes vinhos de Bierzo.

Principais uvas

Embora esteja perdendo espaço, a Mencía continua sendo a principal variedade de Bierzo. Em 2021 ela ocupava aproximadamente 75% dos vinhedos da denominação. Os mesmos dados destacam que a idade média das videiras estava próxima de 75 anos e que cerca de 85% da superfície vinícola era composta por vinhas velhas, elemento central para a identidade e qualidade de muitos vinhos desta variedade. Outras cepas tintas são Garnacha, Merenzao e Estaladiña, enquanto o grupo das brancas é composto por Godello, Doña Blanca, Palomino Fino (terceira uva, com cerca de 5%) e Malvasía Riojana.

Os dados de colheita (a quantidade efetivamente colhida em cada safra), e não a proporção da área plantada, mostram uma realidade algo distinta. Em 2021, a Mencía respondia por 77% das uvas, enquanto a Godello representava 15%. Já em 2025, a participação da Mencía caiu para 52%, enquanto a da Godello atingiu 39%. No conjunto das uvas colhidas, as tintas caíram de 78% em 2021 para 53% em 2025, enquanto as brancas avançaram de 22% para 47%. Vale sempre lembrar que, em geral, o rendimento das uvas brancas é superior ao das tintas, sobretudo em uma região com tantas vinhas velhas como a do Bierzo.

Estilo dos vinhos

A diversidade de condições naturais permite que Bierzo produza vinhos de estilos bastante distintos. Nas áreas mais baixas e férteis, onde os rendimentos são naturalmente mais elevados, a Mencia origina vinhos de corpo leve a médio. São taninos delicados e um perfil aromático centrado em cerejas, framboesas e outras frutas vermelhas frescas. Muitos desses exemplares servem para consumo jovem, frequentemente utilizando maceração carbônica ou semicarbônica, sem passagem por madeira.

O diferencial de qualidade da denominação, porém, vem das encostas entre aproximadamente 500 e 850 metros de altitude, onde predominam solos rasos de ardósia, quartzito e xisto, com alta concentração de vinhas velhas. Nessas parcelas, os baixos rendimentos, a elevada amplitude térmica e a maturação mais lenta produzem vinhos de alta gama. Destaque para a maior concentração, corpo médio a médio-intenso, taninos mais firmes e elevada acidez, preservando aromas de frutas vermelhas maduras, ameixas, flores e notas herbáceas características da Mencía. O uso de carvalho é comum, mas com maior moderação nos últimos anos.

O mapa do Bierzo

Paralelamente, os vinhos brancos vêm assumindo um papel cada vez mais relevante. Elaborada principalmente com Godello, a nova geração de brancos de Bierzo combina textura, frescor e capacidade de envelhecimento. Variam desde versões mais leves, fermentadas em inox, até vinhos com fermentação e maturação em barricas ou em grandes recipientes de madeira.

Produtores de destaque

Entre os nomes responsáveis pela projeção internacional de Bierzo, Descendientes de J. Palacios ocupa posição central. Fundada por Álvaro Palacios e Ricardo Pérez Palacios, a vinícola tornou-se uma referência mundial ao demonstrar o extraordinário potencial das antigas vinhas de Mencía. Ao lado dela, destaca-se Raúl Pérez, considerado um dos melhores enólogos espanhóis da atualidade, com destaque tanto para seus Mencías quanto para seus Godellos.

Entre os produtores clássicos da região que merecem menção especial estão Domínio de Tares, Castro Ventosa, Luna Beberide, Pittacum e Bodegas Estefanía. Já a nova guarda traz nomes como Mengoba, Banzao, Veronica Ortega, Cantariña, José Antonio Garcia e os argentinos da Michelini i Mufatto. Estes produtores fazem parte do grupo que ajudou a consolidar tanto os grandes tintos de Mencía quanto a crescente reputação dos brancos elaborados com Godello.

Fontes: Pliego de Condiciones D.O. Bierzo; Consejo Regulador D.O. Bierzo; WSET Wines of the World, WSET; Decanter; Jancis Robinson; Vinous.

Mapas e diagramas: Consejo Regulador D.O. Bierzo e arquivo pessoal

Imagem: Gabriel Fernández Ramos via Pixabay

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