As primeiras vindimas da humanidade: rituais, trabalho coletivo, valoração e memória nas antigas civilizações

Setembro, mês de vendima no Hemisfério Norte, início da brotação no Hemisfério Sul e, no caso do Brasil, tempo de poda pós-colheita nos vinhedos do Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Setembro marca um tempo de movimento nos vinhedos e, para os apreciadores de vinho, é uma época de expectativa: em breve os primeiros mostos darão origem aos vinhos do ano.

Mas muito além da atualidade, o ato de vindimar – que vai muito além de uma ação da agricultura – é um costume enraizado na história profunda da humanidade. Sua prática antecede as fronteiras da modernidade, atravessa civilizações desaparecidas e ressoa desde as primeiras ânforas ou, no caso, qvevris de vinho fermentado no Cáucaso até os festivais contemporâneos de pequenos e, por que não falar, dos grandes mesmo que mecanizados, produtores mundo afora. Do costume familiar ao enoturismo que atrai milhares de apaixonados anualmente para este ato romântico e festivo da colheita.

Este artigo propõe-se a um exercício de arqueologia cultural: reconstruir as origens da vindima, entender sua dimensão simbólica e acompanhar como esse ato de colher uvas coletivamente se tornou um gesto de memória e identidade, apesar da cadeia de valor implícita na história e pela história.

O nascimento da valoração do vinho

As vindimas, frequentemente celebradas como momentos de comunhão e esforço coletivo, escondem em sua historicidade uma realidade mais complexa. Se por um lado representavam ocasiões de partilha e integração social, por outro revelavam a hierarquia da produção: na antiguidade, o vinho significava um investimento chamado de ouro líquido. Nesse ponto, abro um parêntese para a reflexão sobre o valor percebido do vinho que, ao longo dos milênios, parece-me que não se perdeu.

O vinho resultante desse trabalho conjunto nem sempre retornava àqueles que o produziram. Nas sociedades antigas, da Mesopotâmia ao Império Romano, o trabalho coletivo das colheitas esteve atrelado tanto a práticas de solidariedade comunitária quanto a sistemas de exploração, enquanto os benefícios e o prestígio do vinho eram apropriados pelas elites. Compreender essas dinâmicas permite deslocar o olhar do mito da celebração para um produto que moldou o ato de colher, de transformar uvas em memória líquida através da sua valoração. Aqui a simbologia, principalmente a posição divina ocupada nas civilizações mesopotâmicas e egípcias, gregas e romanas, custava caro.

A vindima como ato coletivo

Ao contrário de outras frutas que podem ser colhidas de forma gradual, a uva exige atenção ao ponto de maturação e rapidez na colheita para evitar a perda do açúcar necessário à fermentação. Isso significa que a vindima, desde a pré-história, demandava trabalho coletivo coordenado.

No Crescente Fértil, registros sumérios e acádios (3.000 a.C.) descrevem a colheita como uma atividade comunal. Textos em tabuletas cuneiformes mencionam trabalhadores contratados para o período da vindima, recebendo rações de pão e cerveja como pagamento. Já no Egito faraônico, pinturas em tumbas como a de Nakht (c. 1.400 a.C.) mostram cenas de colheita, com grupos inteiros cortando cachos, enchendo cestos e pisando as uvas em grandes tinas.

PennMuseum: Tábua Cuneiforme datada de 4.500 a.c aprox.; indicando na escrita 38 jarros de vinhos produzidos pagos com 42 rações de pão e cerveja pelo trabalho da colheita e da produção. O símbolo ao lado é a representação cuneiforme para “jarro de vinho”, escrita desvendada por volta de 1929.
A famosa escrita da vindima, registrada na tumba de Nakht que foi um alto oficial, sacerdote, escriba e astrônomo do Faraó Tutmés IV (1.400 a.c).  Essa é uma placa, encomendada e comprada no British Museum.  Como a história contada nas paredes da tumba intacta vira um bibelô para os amantes da egiptologia e do vinho antigo!

Rituais e deuses da colheita

Colher uvas sempre significou muito mais do que garantir a produção de vinho. Era um gesto inserido nos ciclos cósmicos da fertilidade, da morte e do renascimento. Do ponto de vista de um antropólogo historiador, essa é a função e é efetivamente o registro deixado por essas civilizações, mas os romaneios deixados por trás de toda essa função, nos conectam sempre também em primeira ordem, à uma atividade agrícola de alto valor para todos os envolvidos.

Mesopotâmia: a deusa Geshtinanna tinha seu nome ligado à vinha (em sumério, geshtin = “videira”). Irmã do deus Dumuzi, que descia ao mundo dos mortos, Geshtinanna simbolizava o ciclo agrícola, a colheita que morre para renascer como vinho.

Egito: no Nilo, o vinho era associado a Osíris, deus da regeneração. A vindima era, de certo modo, um rito de continuidade da vida, com oferendas de vinho nos templos e nas tumbas.

Grécia: entre os helenos, a vindima era inseparável do culto a Dioniso. Nas festas dionisíacas, a colheita e a prensagem eram seguidas por música, dança e encenação teatral. A vindima não era apenas um trabalho: era celebração da própria vitalidade.

Roma: os romanos herdaram essa tradição e consagraram-na em festivais como a Vinalia Rustica (23 de agosto) e a Vinalia Urbana (23 de abril), que marcavam respectivamente o início e o consumo do vinho.

Essas divindades mostram que a vindima era vista como um ato de oferenda e partilha: primeiro com os deuses, depois com a comunidade.

A iconografia da vindima

A representação da colheita das uvas atravessa séculos de imagens. Em relevos assírios, veem-se vinhedos cuidados por trabalhadores sob o olhar de escribas. Nas tumbas egípcias, a colheita é retratada ao lado de banquetes funerários. Em mosaicos romanos, a figura do vindemiator — o colhedor — aparece como símbolo do outono.

Curiosamente, muitas dessas imagens ressaltam não a individualidade, mas a ação coletiva. A vindima é mostrada como um esforço partilhado, quase sempre acompanhado de música ou dança. A iconografia confirma que se tratava de um acontecimento festivo, e não apenas de uma tarefa agrícola valorada.

Parte de um mosaico retratando a ação do Vindemiator – colhedor de uvas, na Argélia – um dos territórios de vinhedos romanos no séc. II d.C.

Essa iconografia e tantos outros registros nos ajudam a compreender as conexões que fazemos sobre a vindima e o ato de celebração festiva. Hoje quem participa de uma vindima pode não se dar conta efetivamente que revive um gesto milenar. Ainda que mecanização e tecnologia sejam predominantemente presentes, a colheita manual continua sendo valorizada tanto pela qualidade enológica quanto pela dimensão cultural.

Em regiões como o Douro, o Alentejo ou a Borgonha, famílias e voluntários se reúnem, cantam modas tradicionais e compartilham refeições em meio às vinhas. É uma experiência que conecta a comunidade local com suas raízes e, ao mesmo tempo, encanta visitantes que buscam no enoturismo essa imersão cultural.

Distantes na história do passado explorador do ato de colher, a vindima do presente mantém-se como ritual de celebração, memória e identidade, atualizando um gesto que já tinha as mesmas funções no Egito faraônico ou na Roma imperial.

Andrea é historiadora, pesquisadora da fermentação antiga e entusiasta de vinhos. Possui mestrado em História das Civilizações pela Universidade da Pensilvânia e atualmente, integra equipes de arqueólogos apoiados pelo Penn Museum, com estudos focados na função antropológica do vinho nas civilizações antigas (a.C.). Co-autora do livro científico Patrimonio Cultural da la Vid y el Vino. Formada sommelière pela ABS-SP e certificada WSET3 pela East London Wine School.

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Referências: Drinking Folk; Penn Museum Journal; The Summerians, Samuel Noah Kramer

Foto: Andrea Ramos, arquivo pessoal

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