O motivo pelo qual o brasileiro não consome mais Albariño é um grande mistério para mim. É uma variedade versátil que, nas Rias Baixas, dá origem a vinhos de diversos estilos, mas que sempre remete ao seu clima marítimo, com frescor e salinidade. Mesmo em uma região chuvosa e que passou por um momento de maior foco em vinhos industriais, é possível encontrar produtores que respeitam seus vinhedos e adotam uma postura artesanal. A seguir, minhas observações sobre os vinhos de três produtores de baixa intervenção destacados, que chegam ao Brasil pela Oinos. Fuja do óbvio e conheça o que esta região espanhola pode oferecer.
Bico do Cabo 2024, Eulogio Pomares/Fento Wines, 12,5%
O primeiro vinho vem do Condado do Tea, uma das sub-regiões mais distantes do mar nas Rías Baixas. 100% Albariño, como todos os demais, tem origem em vinhedos plantados sobre solos graníticos, em uma área de maior insolação. Na vinificação, fermentação em tanques de inox, seguida de um breve período com suas lias.
Um vinho leve e direto, com olfativo de média intensidade e estilo discretamente redutivo. Destaque para aromas de flores brancas, cítricos (limão, lima) e maçã verde, acompanhados por notas de pedra molhada, giz e leveduras leves. No palato, mostrou-se seco, com acidez média-alta e corpo de médio a baixo. Tenso e linear, com textura magra e final médio. Um Albariño fresco e descompromissado. R$ 179.
Albariño Zárate 2024, Zárate, 12,5%
Se o vinho anterior provém do projeto recente de Eulógio Pomares com sua esposa, os três próximos vêm de sua vinícola familiar, com mais de 70 anos de história. Elaborado com vinhas de idade média de 35 anos, provenientes do Vale do Salnés, sub-região que concentra dois terços dos vinhedos das Rias Baixas. A colheita é manual, com seleção das uvas no vinhedo, seguida de prensagem suave. A fermentação ocorre em tanques de inox e o vinho permanece cerca de três meses com suas lias.
Um degrau acima do anterior, tanto em termos de intensidade como de estrutura. O nariz mostrou intensidade média-alta, com destaque para aromas de grapefruit branco, limão, maçã verde e pêssego branco, acompanhados de erva-doce, ervas frescas, pedra molhada, giz, maresia e toque de brioche. O palato é bem seco, com acidez média-alta e corpo médio. Fresco, tenso e salino, com textura austera e bom equilíbrio. Um Albariño bastante gastronômico, excelente como vinho de entrada da vinícola. R$ 239.
Balado 2023, Zárate, 13,5%
O Balado nasce de duas pequenas parcelas muradas — balos, em galego — em Sisán, na comuna de Ribadumia. Replantadas em meados do século XX com videiras em pé-franco, são parcelas voltadas ao sul, sobre solos graníticos rasos e pobres. Após colheita manual e seleção, fermentação natural em inox e estágio de cerca de nove meses com suas lias, sem bâtonnage nem conversão malolática.
Ainda no estilo mais redutivo, um excelente exemplar de Albariño que combina tensão, estrutura e profundidade. Olfativo de alta intensidade, com aromas de maresia, pedra molhada e giz acompanhados de notas cítricas (lima, tangerina, grapefruit branca) e pêssego branco, além de uma clara nota de brioche, resultado do longo período com as lias. No palato, mostrou-se seco, expressivo e de alta acidez, com corpo médio. Aqui, mais textura e profundidade, mantendo o caráter salino e austero, com um final longo. Um vinho equilibrado e mais completo, com boa perspectiva de evolução. R$ 560.
El Palomar 2021, Zárate, 13%
El Palomar é um dos vinhedos mais emblemáticos da Zárate. A parcela, sobre solos graníticos, reúne videiras pré-filoxéricas com mais de 150 anos e está localizada a apenas 50 metros acima do nível do mar. Fermentação em foudre de carvalho francês de 2.200 litros, com nove meses de contato com as lias.
Um dos grandes destaques da degustação. Não tão tenso ou vertical quanto o anterior, mas com mais profundidade e complexidade. Já no nariz mostrou maior intensidade, com aromas de maçã verde, tangerina, grapefruit branca e limão, acompanhados por notas de camomila, flores brancas, pêssego branco, ervas frescas, concha de ostra, brioche e um leve toque de madeira. Palato seco, com acidez média-alta e corpo médio, textura cremosa e salinidade marcada. Com longa persistência, um Albariño já dentro de sua janela ideal de consumo, mas com espaço para crescer em garrafa. R$ 599 para a safra de 2024.
A Pedreira 2024, Bodegas Fulcro, 13%
O foco passa agora para a Bodegas Fulcro, projeto de pequeno porte (apenas cinco hectares de vinhedos) de Chicho Moldes no Val do Salnés. A Pedreira tem origem em vinhedos situados entre Meaño, Padrenda e Sanxenxo, próximos ao Oceano Atlântico e plantados sobre solos graníticos e arenosos, com vinhas de idade média de 40 anos. Fermentação natural com cachos inteiros, com estágio de oito meses com suas lias em uma combinação de barricas e foudres de carvalho (70%), e inox (30%).
Um vinho preciso e delicado. No nariz, de intensidade média e caráter redutivo, apareceram sobretudo flores brancas e notas cítricas (limão e lima), acompanhadas de maçã verde, ervas frescas, hortelã e maresia. No palato, seco, leve e com acidez média-alta, mostrou frescor, verticalidade e textura austera. Final médio e salino. Delicioso e tenso, voltado mais ao frescor e à facilidade de beber do que à profundidade. R$ 234.
A Cesteira 2023, Bodegas Fulcro, 13%
A Cesteira vem de um pequeno vinhedo de apenas meio hectare, com videiras entre 30 e 60 anos, plantadas sobre solos arenosos e de xisto próximos ao Atlântico. Fermentação natural, sem malolática e estágio de 11 meses com suas lias em foudres de 2.500 litros.
Apesar de a vinificação não ser tão distinta da anterior, trata-se de um vinho com muito mais estrutura, maior concentração de frutas e múltiplas camadas. O nariz, de intensidade média, apresentou aromas florais (flores brancas e camomila), maçã verde e cítricos (limão e casca de limão), acompanhados de giz, concha de ostra, brioche e iogurte. Na boca, um Albariño seco, preciso e equilibrado, com alta acidez e corpo médio. Combinou frescor com um leve toque fenólico e uma estrutura tensa, linear e em várias camadas, com final longo e salino. Um vinho gastronômico, complexo e ainda com potencial de evolução. R$ 399.
Albamar 2024, Bodegas Albamar, 13%
O vinho de entrada de Xurxo Alba é elaborado a partir de diferentes parcelas próximas ao Atlântico, sobre solos arenosos e graníticos. Fermentação natural em recipientes neutros, sem conversão malolática, com estágio de cerca de seis meses com suas lias.
Um excelente vinho de entrada, fresco, preciso e vertical. O nariz, de intensidade média e leve redução, apresentou aromas de flores brancas (camomila), concha de ostra e maresia, acompanhados de maçã verde, limão e leveduras. No palato, seco, com alta acidez e corpo médio, mostrou frescor e salinidade, além de uma estrutura linear e tensa. Textura austera e final médio-longo e salino. Um Albariño muito gastronômico, que mostra muito bem a identidade marítima da casa, mesmo em sua cuvée mais básica. Oinos, R$ 232.
Alma de Mar 2023, Bodegas Albamar, 13%
Alma de Mar tem origem em uma microparcela situada à beira da Ría de Arousa, com vinhas de cerca de 40 anos e solos de areia granítica. Fermentação com leveduras indígenas em inox, malolática completa e estágio com suas lias, com bâtonnage ocasional
Um belíssimo vinho, mais profundo e estruturado do que o anterior. O nariz, de intensidade média-alta, trouxe aromas de pedra molhada, giz, concha de ostra e maresia, acompanhados de flores brancas, maçã verde, cítricos, ervas frescas e brioche. No palato, seco, com acidez média-alta e corpo médio, apresentou salinidade, tensão e um discreto toque fenólico. Vertical e muito preciso, porém com textura mais polida e final longo. Um Albariño muito bem construído, ainda em desenvolvimento e com boa perspectiva de evolução. R$ 520.
Sesenta e Nove Arrobas 2022, Bodegas Albamar, 13%
O último vinho do painel é uma cuvée de Albariño proveniente de vinhas velhas (50 a 100 anos de idade) de algumas das parcelas históricas de Xurxo Alba, plantadas sobre solos arenosos de base granítica. Fermentação natural em inox, seguida de um estágio de quase dois anos com suas lias finas.
Juntamente com o El Palomar, este vinho foi o grande destaque da degustação, mas apresentou uma expressão bastante distinta. Nariz de intensidade média-alta, com enorme espectro olfativo: grapefruit branco, pêssego branco e pedra molhada, além de giz, flores do campo, chá verde, iodo e lanolina. A maior evolução também se observa nas notas mais intensas de brioche. Foi no palato, porém, que mais se destacou. Um Albariño, seco, com acidez média e estrutura mais profunda, textura mais redonda e cremosa, com mais peso e amplitude, sem renunciar à salinidade e ao equilíbrio. Final longo, com discreta nota iodada. Complexo, já na sua janela ideal, mas com potencial para evoluir. R$ 530.