Melhores vinhos? prós e contras das vinhas em pé-franco

Quem gosta de vinhos certamente já ouviu, em algum momento, a expressão “vinhas em pé-franco”. Ela geralmente aparece em descrições de vinhas velhas, associada a regiões que não foram afetadas pela filoxera ou na origem de vinhos que buscam destacar uma ligação especial entre a variedade e o solo. Mas o que isso significa exatamente?

O conceito é muito simples. Uma videira em pé-franco é uma planta cultivada sobre as próprias raízes. Ou seja, a raiz, o tronco, os ramos, as folhas e os cachos pertencem à mesma variedade de Vitis vinifera. Se estamos falando de uma videira de Nebbiolo em pé-franco, por exemplo, a planta inteira é de Nebbiolo, da raiz às uvas. Isso, porém, difere da maior parte da viticultura moderna. Devido ao impacto da filoxera, hoje a grande maioria das videiras tem duas “identidades” distintas. Uma variedade de Vitis vinifera constitui a parte aérea da planta, enquanto as raízes pertencem a um porta-enxerto, geralmente derivado de espécies americanas de Vitis.

Em uma videira em pé-franco, essa divisão não existe. A planta cresce a partir de suas próprias raízes, sem união entre dois materiais vegetais geneticamente distintos. Por isso, as vinhas em pé-franco despertam tanto fascínio. Elas parecem representar uma relação mais direta entre variedade, solo e local. Mas esse fascínio precisa ser tratado com cuidado. É uma condição vitícola específica, rara em muitas regiões, que só se mantém onde a filoxera está ausente ou onde o ambiente dificulta a sobrevivência desta praga.

O que muda na planta?

A principal diferença fisiológica entre uma videira em pé-franco e uma vinha enxertada está na continuidade da planta. No pé-franco, raiz, tronco, ramos, folhas e cachos pertencem ao mesmo indivíduo genético. Não há ponto de união entre dois materiais vegetais diferentes. O fluxo de água, sais minerais, açúcares, hormônios e outros sinais ocorre dentro de uma única estrutura contínua de Vitis vinifera. Na videira enxertada, esse fluxo precisa atravessar o ponto de enxertia, onde a copa e o porta-enxerto formaram uma conexão vascular funcional.

Isso não significa que a videira enxertada seja necessariamente menos eficiente ou menos durável. A enxertia é usada há mais de 150 anos justamente porque funciona em larga escala. Mas o ponto de enxertia é uma zona biologicamente sensível: sua qualidade depende da compatibilidade entre copa e porta-enxerto, da formação adequada dos tecidos, do estado sanitário do material vegetal e das condições de viveiro. Em alguns casos, incompatibilidades, vírus ou doenças de tronco podem afetar a longevidade da planta. Ao mesmo tempo, as videiras em pé-franco também são suscetíveis a doenças; elas apenas não têm essa zona de união entre dois materiais distintos.

As possíveis vantagens do pé-franco

A primeira vantagem potencial do pé-franco é eliminar o ponto de enxertia. Em uma videira enxertada, essa união entre copa e porta-enxerto precisa permanecer funcional ao longo da vida da planta. Quando há boa compatibilidade e material vegetal saudável, isso normalmente não representa um problema. Mas, em alguns casos, incompatibilidades, vírus, falhas de formação ou doenças de tronco podem tornar essa região uma zona sensível. Em uma videira em pé-franco, esse risco simplesmente não existe.

Outra vantagem está ligada à regeneração. Em uma videira enxertada, se a planta rebrotar abaixo do ponto de enxertia, essa brotação pertence ao porta-enxerto, não à variedade “principal”. Em uma videira em pé-franco, qualquer brotação continua pertencendo à mesma variedade. Isso pode ser relevante em regiões muito frias, onde a parte aérea pode sofrer danos severos no inverno, mas a planta consegue brotar mantendo sua identidade varietal.

Há ainda uma vantagem simbólica e histórica. Vinhas em pé-franco muitas vezes estão associadas a vinhas velhas, regiões isoladas, solos específicos ou áreas que escaparam, total ou parcialmente, à filoxera. Por isso, podem preservar materiais vegetais, sistemas de cultivo e relações entre planta e terroir que se tornaram raros na viticultura moderna. Em alguns casos, isso contribui para vinhos de grande personalidade. Mas essas vantagens só existem quando a filoxera não representa uma ameaça séria. Onde a praga está presente e o solo não oferece proteção natural, o pé-franco deixa de ser uma vantagem e passa a ser um risco.

Muito além da filoxera

No discurso sobre vinhas em pé-franco, é comum ressaltar apenas as possíveis vantagens das plantas não enxertadas. Menos atenção costuma ser dada aos benefícios que podem decorrer do uso de porta-enxertos. Eles nasceram como resposta prática à filoxera, mas hoje sua função vai muito além disso. O porta-enxerto é uma ferramenta para a adaptação da videira ao solo e ao clima. Sua escolha pode influenciar o vigor, a profundidade e a arquitetura das raízes, a absorção de água e de nutrientes, a tolerância ao calcário e a resistência à seca. Além disso, afeta o comportamento em solos salinos, a adaptação a solos pobres ou compactos e o equilíbrio entre o crescimento vegetativo e a produção.

Por isso, em muitos vinhedos modernos, a escolha do porta-enxerto não se limita a evitar a filoxera. Ele é escolhido para ajustar a videira ao local onde será cultivada. Em um solo muito fértil, pode ser vantajoso usar um porta-enxerto que modere o vigor. Em uma área seca, pode ser preferível um material com maior tolerância ao déficit hídrico. Já em solos calcários, a tolerância à clorose pode ser decisiva. Em um cenário de mudanças climáticas, essa função adaptativa torna-se ainda mais importante: o porta-enxerto passa a ser uma das ferramentas disponíveis para manter equilíbrio, produtividade e qualidade em condições cada vez mais instáveis.

Onde ainda existem vinhas em pé-franco

Apesar do uso generalizado de porta-enxertos, ainda existem vinhedos em pé-franco. Eles aparecem, porém, em situações específicas. A mais importante é a ausência de filoxera ou a presença de condições naturais que dificultam a sobrevivência do pulgão que ataca as raízes das videiras. A filoxera continua sendo uma ameaça real em muitas regiões. O enxerto não elimina a praga do solo; apenas permite que a videira conviva com ela por meio de raízes resistentes.

Solos muito arenosos são a principal exceção. Em áreas com teor de argila extremamente baixo, a filoxera tem dificuldade em se desenvolver e em causar danos severos. Também há exemplos de vinhedos em solos de origem vulcânica ou em ilhas onde a praga nunca se estabeleceu de forma relevante. Por isso, regiões como Santorini e as Ilhas Canárias conservam muitas vinhas não enxertadas. Em algumas áreas do Etna e em outras zonas de solos vulcânicos, também há vinhas em pé-franco, mas isso não significa que toda a região dispense enxertia.

Há ainda áreas do Novo Mundo em que a filoxera não chegou ou não se tornou dominante devido a fatores de isolamento, clima, quarentena ou práticas locais. Partes do Chile, da Argentina, do estado de Washington, do sul da Austrália, de Okanagan Valley no Canadá, de Central Otago na Nova Zelândia e de outras regiões ainda conservam vinhedos em pé-franco.

O debate sobre qualidade

A presença de vinhas em pé-franco costuma suscitar uma pergunta inevitável: seus vinhos seriam melhores? A resposta mais prudente é “não necessariamente”. Há vinhos extraordinários feitos de videiras não enxertadas no Chile, na Barossa, no Mosel, em Santorini, nas Ilhas Canárias e em tantos outros locais. Mas é complicado provar que sua qualidade decorra apenas do fato de não serem enxertadas.

Outros fatores pesam muito. Vinhas em pé-franco frequentemente estão associadas a vinhas velhas, baixos rendimentos, solos específicos, tradição local ou isolamento geográfico. Estas são condições que também influenciam fortemente o perfil do vinho. Separar o efeito do pé-franco de todos esses elementos é extremamente difícil. Por isso, a conclusão mais segura é que vinhas não enxertadas podem produzir vinhos diferentes e, às vezes, excepcionais, mas não são automaticamente superiores às enxertadas.

A pergunta correta, portanto, não é se o porta-enxerto torna o vinho “menos puro”. A pergunta mais adequada é outra: o porta-enxerto ajuda a variedade a amadurecer melhor naquele solo, naquele clima e naquele sistema de condução? Quando a resposta é sim, o porta-enxerto não diminui a identidade do vinho. Ao contrário, pode ajudar a variedade a expressar melhor o lugar onde foi plantada. O difícil é colocar todos estes elementos na balança para chegar a uma conclusão definitiva.

Fontes: Plant grafting, Charles W. Melnyk e Elliot M. Meyerowitz, Current Biology; Natural & Human History of Grafting and Budding, Cornell University; The New Viticulture: The Science of Growing Grapes for Wine, Jamie Goode; Grafting, the most sustainable way to control phylloxera over 150 years, Nathalie Ollat et al., OIV Congress 2024, IVES Conference Series.

Imagem: Arquivo pessoal

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