Após uma degustação dedicada aos vinhos tintos das Ilhas Atlânticas, retornei ao tema para realizar uma nova prova, desta vez com foco nas variedades brancas. Neste caso, o foco ficou nos Açores e nas Ilhas Canárias. Este post reúne minhas impressões sobre a primeira parte dessa degustação, que incluiu cinco vinhos.
Chão de Lava AA 2023, Insula Vinhos, 12%
O primeiro vinho tem origem na Ilha do Pico (Portugal), parte da IG Açores, e foi elaborado com as variedades Arinto dos Açores e Verdelho. As uvas provêm de vinhas localizadas em São Mateus, com solos vulcânicos (Chão de Biscoito) e exposição ao sul, compensada pela altitude e pelos ventos do Oceano Atlântico. Na vinificação, após colheita manual, prensagem de cachos inteiros e fermentação em inox.
Um vinho leve e fresco. Olfativo em estilo redutivo, com aromas de maçã verde de média intensidade, florais, groselha verde, grama, cítrico (limão), fumaça mineral, frutas brancas (pera, pêssego branco) e massa de pão. O palato mostrou-se seco, com acidez de média a alta e corpo de médio a baixo. Mais tenso e salino do que complexo, com final médio e salino. Chega ao Brasil pela Emi Wines, R$ 320 (esgotado).
Verdelho 2022, Insula Vinhos, 12%
Proveniente da mesma região do anterior, trata-se, neste caso, de um monovarietal de Verdelho dos Açores. São solos basálticos de origem vulcânica, sob forte influência atlântica, com videiras cultivadas no sistema tradicional de currais (pequenos compartimentos delimitados por muros de pedra vulcânica, estruturas que reduzem a ação dos ventos e da maresia e acumulam calor). Vinificação em linha com o anterior, à exceção do estágio de cerca de 12 meses, com 50% do vinho em barricas usadas de carvalho francês.
Um salto qualitativo substancial em relação ao anterior, com mais estrutura e untuosidade, sem perder a tensão e salinidade. Nariz de intensidade média, com aromas cítricos (casca de limão, lima), maçã amarela, nectarina e pedra molhada. No palato, mostrou acidez média, corpo médio e ótima intensidade de frutas. Preciso, salino e fresco, com várias camadas e boa complexidade, além de um final salino. Emi Wines, R$ 400 (esgotado).
Tarelo 2019, Tarelo, 12%
Outro vinho da Ilha do Pico, desta vez um corte de Arinto dos Açores e Verdelho, com videiras plantadas em currais de solo vulcânico. Fermentação em tanque de inox e estágio de quatro meses com suas lias, seguidos de mais oito meses em inox antes do engarrafamento. O vinho que menos agradou no painel, sobretudo por um paladar mais simples e um final mais curto, com certo amargor. Olfativo de intensidade média, com notas de chá verde, abacaxi, maçã vermelha, pêssego amarelo e tangerina, além de brioche e manteiga. Na boca, apresentou acidez média-alta e corpo médio, com toque fenólico e textura redonda. Senti um certo desequilíbrio no palato, com fruta de um lado e salinidade do outro, com final médio. Grappy, R$ 450.
Benje Blanco 2022, Envínate 12%
O foco agora passa para as Ilhas Canárias (mais especificamente a ilha de Tenerife), na DO Ycoden-Daute-Isora. Este monovarietal de Listán Blanco (nome local da Palomino Fino) teve origem em diversas parcelas situadas nos arredores de Santiago del Teide, no noroeste de Tenerife. São vinhas velhas (70 e 105 anos) plantadas em pé-franco a aproximadamente 1.000 e 1.200 metros de altitude. A viticultura é orgânica na prática, com colheita manual. Vinificação por parcela em tanques de concreto e em pequenos recipientes abertos. Cerca de 75% das uvas foram prensadas diretamente; os 25% restantes ficaram em contato com as cascas por 14 a 40 dias, a temperaturas entre 18 °C e 30 °C. Fermentação natural e estágio entre concreto e madeira usada. Uma parte do vinho desenvolveu espontaneamente um véu de flor.
Algo que me chama a atenção nesta cuvée, da qual já provei várias safras, é como ela muda ao longo dos anos. Neste caso, o vinho se mostrou intrigante, porém com notas que lembravam Jerez, as quais não havia identificado antes. Com discreta turbidez, apresentou um olfato intenso, complexo e mais oxidativo, com destaque para aromas de avelãs e nozes (acetaldeído), brioche, ervas verdes, casca de laranja, abacaxi maduro e pêssego amarelo. O palato é seco, com acidez média e corpo médio plus, com toque fenólico. Ao lado da fruta mais madura, mostrou notas salinas e fenólicas, conferindo boa complexidade, com final longo e discretamente amargo. Oinos, R$ 269 para a safra de 2023.
Táganan Blanco 2022, Envínate, 12%
Este é outro vinho das Ilhas Canárias, mais especificamente da ilha de Tenerife, na DO Islas Canarias. É um field blend que inclui Listán Blanco, Albillo Criollo, Marmajuelo, Gual, Malvasía e outras variedades locais. As uvas provêm de diversas parcelas antigas situadas em Taganana, na vertente nordeste de Tenerife. Diversas videiras são centenárias, plantadas em pé-franco sobre solos vulcânicos. Na vinificação, colheita e vinificação separadas por parcelas, para fermentação natural. Algumas frações tiveram contato breve com as cascas, enquanto outras foram prensadas diretamente. As diferentes frações permaneceram por aproximadamente oito meses com suas lias, em tanques de inox e em barricas usadas, antes do blending.
Mesmo produtor, mesma ilha de origem, porém um estilo completamente distinto do anterior. E em um patamar ainda acima. Com nariz em estilo redutivo, destacaram-se aromas de maçã verde, caju e tangerina, com notas de brioche, ervas secas, flores brancas, flint e fumaça mineral. O palato trouxe mais acidez e uma estrutura de boca também bem distinta, com sensação salina, frescor, precisão e verticalidade, porém sem renunciar à profundidade e à complexidade. Muito bem integrado, apresentou um final longo e intenso, um dos grandes destaques do painel. Oinos, R$ 389 (esgotado).