A primavera chegou de vez à Europa. Após um inverno relativamente ameno e temperaturas elevadas no início do ciclo vegetativo, a brotação das videiras ocorreu antecipadamente em diversas regiões, ampliando a janela de vulnerabilidade das plantas ao longo de março e abril. Com o avanço do calendário, esse risco tende naturalmente a diminuir. Porém, os danos já causados pelas geadas recentes levantam uma questão importante: qual foi, afinal, o impacto real das geadas de abril sobre a safra europeia?
Champagne: perdas históricas
Na Champagne, o impacto das geadas de 2026 foi mais significativo do que em qualquer outra região da Europa. Dados do Comité Champagne indicam que cerca de 38% dos vinhedos foram atingidos, com uma destruição média de 40% dos brotos. Ou seja, estamos falando da safra de 2026 como uma das mais difíceis desde 2003. O fator decisivo foi que, por conta de temperaturas mais altas em janeiro e fevereiro. Por conta disso, o ciclo adiantou-se em 15 a 20 dias, deixando os brotos completamente expostos no momento das quedas bruscas de temperatura registradas no fim de março e no início de abril.
As geadas ocorreram em uma sequência de várias noites, com temperaturas negativas persistentes em diversas sub-regiões. O impacto foi ainda maior em áreas com menor drenagem de ar frio e maior exposição, especialmente em fundos de vale e em parcelas menos protegidas. Apesar do uso crescente de técnicas para reduzir o impacto, como velas, aquecimento e aspersão, a intensidade e a extensão do evento tiveram, infelizmente, um impacto profundo.
Um aspecto a ser analisado é a variabilidade dos danos. Em regiões como o Aisne, as perdas atingiram entre 65% e 85% da produção potencial. Na Vallée de la Marne, os prejuízos giraram em torno de 50%, enquanto na Côte des Bar variaram entre 55% e 65%. Já no Massif de Saint-Thierry, os números ficam próximos de 40%. Em contraste, áreas como Petit Morin, Perthois e Trépail registraram perdas mais moderadas, entre 5% e 30%. Esse padrão em mosaico, típico de episódios de geada, reforça o papel crítico de fatores locais, como a altitude, a exposição e a circulação do ar. Mesmo diante dessas perdas, a Champagne conta com um importante fator para amortizá-las: o sistema de reservas individuais. Com volumes acumulados equivalentes a cerca de uma safra completa, esse mecanismo deve atenuar o impacto no mercado.
Borgonha e outras regiões francesas
Fora da Champagne, o impacto das geadas foi menor, ainda que relevante em algumas áreas. Em Chablis, as temperaturas chegaram a cerca de -2 °C nos episódios mais críticos, o que foi suficiente para causar danos pontuais, sobretudo em vinhedos sem proteção ativa. Apesar das inúmeras fotos de vinhedos “iluminados por velas” que circularam na imprensa, os relatos iniciais apontam para um cenário mais moderado do que o de 2021. Na Côte d’Or, a situação esteve relativamente sob controle. Apesar das noites frias no final de março, os danos parecem limitados e concentrados em parcelas mais baixas. Regiões mais ao sul, como o Mâconnais, registraram impactos ainda mais discretos.
Padrão fragmentado no resto da Europa
No restante da Europa, o padrão foi de impactos pontuais, sem evidência de perdas generalizadas em larga escala. Na Alemanha, regiões como Mosel e Rheinhessen registraram episódios de frio intenso, com prejuízos econômicos relevantes, mas sem perdas significativas na produção. Na Itália, especialmente na Toscana e no Piemonte, os danos foram fragmentados, com algumas áreas severamente atingidas enquanto outras praticamente não sofreram impacto.
No conjunto, a safra europeia de 2026, até o momento, caracteriza-se menos por uma crise generalizada e mais por uma forte assimetria. A Champagne desponta como o centro das perdas, com danos significativos em determinadas subzonas. Já o restante do continente apresenta um quadro mais equilibrado, ainda que cercado de incertezas.
O risco crescente das geadas tardias
Embora raras, geadas em maio não são inéditas na Europa e tendem a ocorrer sobretudo em regiões de clima mais continental. Um exemplo marcante ocorreu em 2012, quando uma onda de frio entre 17 e 18 de maio atingiu áreas da Europa Central (sobretudo a Áustria), causando danos significativos aos vinhedos.
O risco, no entanto, vem se ampliando nas últimas décadas, não pela maior frequência desses eventos, mas pelo avanço do ciclo vegetativo das videiras. Com brotações cada vez mais precoces, episódios de frio que antes seriam inofensivos passam a causar danos significativos, estendendo, na prática, a janela de risco até maio.
Fontes: Comité Champagne (CIVC), rapport officiel; WineNews; La Revue du Vin de France; Burgundy Report; Raisin; Decanter; Meininger’s International
Imagem: Gerada via IA com Magic Media