Em meados de março, o mundo do vinho foi abalado pela notícia da morte inesperada de Michel Rolland, um dos enólogos mais influentes das últimas décadas. Sua partida, causada por um ataque cardíaco, encerrou a trajetória de uma figura central (e controversa) na transformação da enologia global a partir das últimas décadas do século XX.
Não há como negar o impacto de Rolland nesse período. Com um estilo reconhecível e uma atuação que ultrapassou as fronteiras de Bordeaux (onde continuou a produzir seus próprios vinhos), ele se tornou o exemplo mais emblemático do chamado flying winemaker. Ao longo de uma longa carreira, prestou consultoria a dezenas de vinícolas ao redor do mundo, incluindo o Brasil, onde manteve uma parceria de longo prazo com a Miolo. Sua influência ajudou a moldar vinhos de diferentes origens, sempre buscando qualidade, consistência e, em muitos casos, maior apelo internacional.
É inegável que sua partida representa uma perda para o mundo do vinho. Mas também convida a uma reflexão mais ampla sobre o papel do enólogo. A trajetória de Rolland simboliza um momento em que a figura do enólogo (ainda que o termo seja pouco utilizado em sua França nativa) ganhou protagonismo. A atuação de Rolland mostrou que a técnica e a experiência podem, sim, moldar estilos e resultados, mesmo em contextos de terroir distintos. Aqui vale um aparte: Rolland também era defensor da agricultura orgânica, o que revela uma faceta menos intervencionista do que muitas vezes se supõe.
Qual o papel do enólogo?
A visão que coloca o enólogo em papel central, no entanto, encontra hoje sérias resistências. Há uma corrente crescente que defende que o enólogo deve atuar como mediador e não como protagonista. Nessa perspectiva, sua função seria intervir o mínimo possível, permitindo que o terroir se expresse plenamente, sem a imposição de estilos ou padrões. Trata-se de um debate que ganhou força nos últimos anos, especialmente à medida que o mercado passou a valorizar cada vez mais a identidade dos vinhedos.
Esse movimento também se reflete na forma de produzir vinho. Se no passado a excelência estava muitas vezes associada à arte do corte (especialmente em regiões como Bordeaux), hoje há uma valorização crescente das vinificações por parcela. A Borgonha sempre foi referência nesse modelo, com sua longa tradição de valorização de seus climats históricos. Mais recentemente, regiões como Barolo também caminham nessa direção, reduzindo a dependência de blends e enfatizando a expressão de vinhedos específicos.
Nesse contexto, a própria trajetória de Rolland ajuda a explicar sua abordagem. Formado em Bordeaux, ele cresceu em um sistema em que o blend é parte essencial da identidade dos vinhos. Sua filosofia, portanto, não apenas fazia sentido, mas também era coerente com a tradição de sua região.
Em que ponto estamos hoje nesse debate?
A vibe atual do mundo do vinho sugere uma clara inclinação pelo protagonismo do terroir. Em diversas visitas e entrevistas com produtores ao longo dos últimos anos, tornou-se recorrente a ideia de que o papel do enólogo deve ser mais discreto, quase secundário. Sua função seria garantir a qualidade do processo, ou seja, evitar desvios, acompanhar as fermentações e assegurar o equilíbrio. E isso não passa pela imposição de uma assinatura estilística.
Um exemplo claro dessa visão pode ser encontrado em Fabio Alessandria, da G.B. Burlotto, em Verduno. Produtor hoje celebrado como um dos símbolos da ascensão da região do Barolo e pela origem de vinhos altamente valorizados, ele resume sua abordagem de forma direta. “Não faço nada além do que já fazia meu avô”. Seu trabalho, em suas próprias palavras, consiste em acompanhar o processo, evitar desvios e permitir que cada vinhedo e cada safra se expressem com autenticidade. Nesse modelo, o estilo não pertence ao enólogo, mas ao lugar e à safra.
Qual o impacto da ausência de Michel Rolland?
Além da perda pessoal e da saída de um profissional de raro talento, a morte de Rolland também parece marcar o fim simbólico de uma era em que o enólogo ocupava o centro do palco. Seu estilo, que foi dominante nos anos 1990 e 2000, hoje parece longe do auge. Mas o mundo do vinho raramente é linear. Ele se move em ciclos, como um pêndulo. Se houve um momento de forte protagonismo técnico, seguido pela atual valorização quase absoluta do terroir, é bem possível imaginar que o futuro caminhe rumo a um ponto de equilíbrio.
Um sinal desta tendência já aparece no universo dos vinhos naturais, frequentemente associado à mínima intervenção. Em um sinal de ajuste, a busca atual parece ser por vinhos que expressem o terroir com clareza, sem abrir mão do equilíbrio, da precisão e da consistência. Nem excessos de intervenção, nem abandono completo ao acaso.
Independentemente de tentarmos adivinhar para onde esse pêndulo irá se mover nos próximos anos, não podemos esquecer Michel Rolland. Com todas as suas virtudes e controvérsias, ele permanece uma referência essencial para compreender um momento histórico do vinho. Quem sabe, sirva também para entender o que nos espera nos próximos anos.
Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, que estudo continuamente e que segue na eterna busca por vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem; basta procurar!
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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal
Vcs são muito interessantes! Parabéns pelo site!
“Nem excessos de intervenção, nem abandono completo ao acaso”
Compreendo as opiniões que rodeiam essa frase (pra direita e pra esquerda rsrsrs), mas no meu ver, esse é o lugar melhor pra se chegar.
Um pergunta: quais os blends Barolo tem diminuído sua dependência? Interessante isso…
Enfim, obrigado pela atenção e parabéns novamente! Saúde!
Obrigado Fabio, agradeço os cumprimentos e também se ajudar a divulgar o site! Quanto ao Barolo, a tradição da região sempre foi de fazer o blend não de uvas, mas de vinhedos. Dá surgiu a tradição do Barolo Classico (nome não oficial), no qual os produtores utilizam uvas de diversos vinhedos para atingir o melhor equilíbrio. De uma certa forma, isso ocorre bem menos que no passado (geralmente restrito aos Barolos “de entrada”), já que muitos produtores vinificam hoje as melhores parcelas em separado.