Para quem aprecia diversidade e autenticidade, Jerez é uma das regiões vinícolas mais fascinantes do mundo. Poucos lugares oferecem tamanha variedade de estilos, com vinhos de grande originalidade, resultantes de métodos de elaboração e envelhecimento praticamente únicos. Do delicado Fino ao complexo Amontillado, passando pelo estruturado Oloroso e pelos dulcíssimos Pedro Ximénez, o Jerez constitui um universo paralelo. Entretanto, apesar de toda essa pluralidade, a região atravessa uma longa e dolorosa crise, marcada pela perda de consumidores e pela forte retração nas vendas. No final da década de 1970, eram cerca de 150 milhões de litros vendidos ao ano, que caíram para apenas 24 milhões em 2025, uma queda de cerca de 84%.
A dificuldade vai além da perda de volume. Durante décadas, o Jerez dependeu de grandes mercados internacionais, sobretudo do Reino Unido, e de estilos que gradualmente perderam espaço junto dos consumidores. Ao mesmo tempo, sua complexidade, uma das maiores virtudes da região, tornou-se um desafio para conquistar novas gerações. Diante desse cenário, produtores e representantes do setor começaram a discutir mudanças profundas na regulamentação. O objetivo era preservar a identidade histórica dos vinhos, mas também abrir espaço para novas ideias, valorizar a tradição e criar condições mais favoráveis à recuperação.
Reforma construída em etapas
O principal marco desse processo ocorreu em 2021, quando os diferentes segmentos fecharam um acordo sobre questões que haviam gerado divergências ao longo de décadas. O acordo setorial foi firmado em 11 de maio, enquanto o conjunto principal de propostas foi aprovado pelo Consejo Regulador em 27 de julho daquele ano. A proposta abrangia medidas em áreas distintas, cobrindo um amplo espectro de reformas. Tratava-se, no fundo, de uma tentativa de adequar a região ao seu novo contexto. Era mais do que tempo de modernizar uma estrutura regulatória associada ao modelo histórico das grandes bodegas, sem abandonar os elementos que tornam o Jerez uma região tão especial.
As mudanças, porém, não entraram em vigor simultaneamente. A primeira grande revisão teve aprovação em outubro de 2022, enquanto outras alterações dependiam de procedimentos na União Europeia e só obtiveram chancela em 2025. Novas modificações vieram em 2026, algumas com prazos de implantação que chegam a 2028 e 2030. Esse amplo conjunto de reformas pode ser dividido em quatro grandes grupos: descentralização geográfica, valorização dos vinhedos e do terroir, flexibilização dos métodos de elaboração e reorganização econômica e administrativa.
O fim da exclusividade do Triangulo de Jerez
Uma das mudanças mais importantes diz respeito à geografia da denominação. Historicamente, embora a elaboração dos vinhos-base pudesse ocorrer em uma área relativamente ampla, os vinhos destinados à DO Jerez-Xérès-Sherry precisavam completar seu envelhecimento nos municípios de Jerez de la Frontera, Sanlúcar de Barrameda ou El Puerto de Santa María. A regulamentação anterior exigia um período mínimo de seis meses nessa área. Esse território, conhecido como Triangulo de Jerez, concentrava as grandes bodegas e boa parte da infraestrutura de envelhecimento e de comercialização da região.
A reforma eliminou essa exclusividade. Permitiu que bodegas situadas nos demais municípios autorizados também realizassem o envelhecimento dos vinhos da denominação. Com a entrada em vigor da mudança, em outubro de 2022, produtores de localidades como Chiclana de la Frontera, Chipiona, Trebujena e Rota passaram a ter a possibilidade de elaborar, envelhecer e comercializar seus próprios vinhos como Jerez, desde que cumprissem as exigências regulamentares. A medida abriu novas perspectivas para produtores tradicionalmente concentrados na viticultura e na produção de vinhos-base, que antes enfrentavam restrições para concluir o processo em suas próprias instalações.
Essa descentralização preservou, entretanto, uma exceção: Manzanilla continua vinculada exclusivamente a Sanlúcar de Barrameda, que possui sua própria denominação de origem. A reforma também estabeleceu uma separação mais rigorosa entre Fino e Manzanilla. O Fino deixou de ter Sanlúcar como local autorizado para novos processos de envelhecimento, embora estoques já existentes possam ser utilizados até 31 de dezembro de 2030. A distinção reforça a importância das condições climáticas locais, particularmente da influência atlântica sobre o desenvolvimento da flor, responsável pelo envelhecimento biológico desses vinhos.
A recuperação dos vinhedos e das variedades tradicionais
Outra transformação importante foi a maior valorização da origem das uvas. Embora Jerez possua uma longa tradição de reconhecimento das diferenças entre seus vinhedos, os vinhos sempre tiveram mais associação às bodegas e aos métodos de envelhecimento do que às características de parcelas específicas. A nova regulamentação procurou dar maior visibilidade aos pagos, denominação utilizada para identificar áreas historicamente reconhecidas por suas características de solo, relevo e microclima.
A indicação dessas unidades geográficas nos rótulos passou a obedecer a critérios definidos. Isso inclui a exigência de que pelo menos 85% das uvas utilizadas tenham origem no local mencionado. A reforma também alterou o conceito de Jerez Superior, tradicionalmente associado a determinadas áreas geográficas. A classificação passou a valorizar, de forma mais direta, as características dos vinhedos por meio de uma avaliação técnica. Além disso, caiu a antiga exigência de que pelo menos 60% das uvas Palomino utilizadas nos vinhos protegidos tivessem origem em vinhedos classificados como Jerez Superior. Trata-se de uma mudança significativa para uma região em que os solos de albariza apresentam diferenças importantes entre os diversos pagos.
A recuperação de variedades tradicionais constitui outro elemento dessa transformação. A expansão do cultivo da Palomino após a filoxera havia reduzido substancialmente a diversidade de uvas da região. A reforma de 2022 abriu espaço para a utilização de variedades históricas como Beba e Perruno, além de Vigiriega. Essas iniciativas acompanham o crescente interesse por vinhos que expressem melhor o terroir, por vezes elaborados a partir de parcelas individuais e com menor dependência de cortes de múltiplas origens. Ainda é cedo, porém, para avaliar o impacto comercial dessas variedades, cuja participação na área plantada permanece muito pequena.
Novas possibilidades de elaboração
Talvez a mudança mais significativa tenha sido a possibilidade de produzir determinados vinhos da denominação sem a obrigatoriedade da fortificação. Tradicionalmente, o Jerez tem associação direta à adição de álcool vínico após a fermentação. Nos Finos e Manzanillas, a graduação sofre ajuste para 15% a 15,5%, favorecendo o desenvolvimento da flor. Nos Olorosos, o teor alcoólico era geralmente elevado, em torno de 17%, o que impedia a formação de flor e resultava em envelhecimento oxidativo.
A nova regulamentação passou a admitir que determinados vinhos alcancem naturalmente a graduação necessária, sem adição de álcool. Isso tornou possível elaborar estilos como Fino, Amontillado, Oloroso e Palo Cortado sem recorrer obrigatoriamente à fortificação. A alteração, discutida desde 2021, só recebeu a aprovação europeia definitiva em agosto de 2025. É importante destacar que ela não eliminou a fortificação tradicional nem alterou os princípios fundamentais do envelhecimento. Os vinhos continuam sujeitos às regras de classificação, maturação e certificação, incluindo o requisito de envelhecimento mínimo de dois anos.
A flexibilização avançou em 2026, quando o teor alcoólico mínimo exigido para Fino e Manzanilla caiu de 15% para 14%. O mesmo ocorreu com o Pale Cream. Também foram aperfeiçoadas as descrições regulamentares de alguns estilos e ampliadas as possibilidades de expressão dos vinhos doces, incluindo o Moscatel. Outro avanço foi a formalização das categorias Fino Viejo e Manzanilla Pasada, com envelhecimento mínimo médio de sete anos.
Reorganização econômica e comercial
A quarta frente da reforma está relacionada à estrutura econômica da região. Historicamente, o setor desenvolveu uma divisão de atividades entre viticultores, cooperativas, produtores de vinhos-base, almacenistas e grandes bodegas de envelhecimento e expedição. Os almacenistas, por exemplo, especializaram-se no envelhecimento de vinhos que posteriormente seriam adquiridos por outras empresas. Embora essa organização tenha contribuído para a formação de um sistema comercial em larga escala, também criou diferentes graus de dependência entre os participantes.
A ampliação da área de envelhecimento representou um passo importante para modificar essa estrutura, mas não foi a única medida. A reforma também eliminou o antigo limite geral de comercialização anual, correspondente a 40% dos estoques em envelhecimento, após um período de transição que se encerrou na campanha 2022–2023. Isso não significa liberdade irrestrita para comercializar vinhos jovens, pois permanecem as exigências relativas à idade média, à rastreabilidade e à certificação. As alterações também buscaram acomodar práticas tradicionais de venda direta, particularmente nos despachos das bodegas, mediante regras específicas para recipientes e condições de comercialização.
Em julho de 2025, um novo regulamento reorganizou o funcionamento do Consejo Regulador e seus registros de operadores, incluindo as categorias de bodegas de elaboração, de envelhecimento e armazenamento, e de envelhecimento e expedição. Na prática, essas classificações não impedem que uma empresa desempenhe diversas atividades, desde o cultivo de uvas até o engarrafamento. A maior flexibilidade pode beneficiar produtores menores e empresas verticalmente integradas, que passam a ter mais alternativas para comercializar vinhos próprios e construir suas marcas. Entretanto, a reorganização administrativa não altera automaticamente a concentração comercial do setor, ainda marcada pela presença desproporcional de grandes grupos.
Outras alterações
As mudanças também atingiram a viticultura. A regulamentação de Jerez estabelece um rendimento máximo de 80 hectolitros de mosto por hectare para a produção dos vinhos protegidos pela denominação. Entretanto, os vinhedos podiam produzir até 100 hl/ha, desde que o excedente fosse destinado à elaboração de outros ingredientes utilizados na produção de Jerez. Exemplos são o álcool vínico empregado na fortificação ou os mostos concentrados utilizados para adoçar determinados estilos. Caso a produção ultrapassasse 100 hl/ha, toda a colheita perderia o direito de ser utilizada diretamente na elaboração dos vinhos protegidos, ficando sujeita à mesma restrição. A reforma de 2026 reduziu esse limite superior de 100 para 88 hl/ha, uma queda de 12%, com entrada em vigor prevista para a campanha 2028–2029.
Busca de reversão de tendência
O desafio principal, contudo, continua sendo comercial. Em 2021, as vendas de Jerez e Manzanilla alcançaram cerca de 32 milhões de litros. Quatro anos depois, haviam recuado para 24 milhões, uma queda de cerca de 25%. Embora alguns estilos e produtores tenham conquistado maior reconhecimento entre consumidores especializados, o crescimento desse segmento ainda não foi suficiente para compensar a retração do mercado tradicional.
O processo de transformação também começa a alcançar os vinhos brancos não fortificados produzidos na região. Em setembro de 2025, o Consejo Regulador aprovou a apresentação de uma proposta para o reconhecimento de uma nova denominação de origem, denominada Vinos de Albariza. A iniciativa procura estabelecer um enquadramento próprio para vinhos associados aos tradicionais vinos de pasto, valorizando a origem das uvas e os solos característicos do Marco de Jerez. A proposta ainda depende de aprovação administrativa e não constitui, até o momento, uma denominação de origem reconhecida. Vinos de pasto, vale lembrar, podem ter elaboração sem flor, com uma passagem breve sob flor ou mesmo com um período mais prolongado de envelhecimento biológico.
Perspectivas
A reforma iniciada em 2021 representa, portanto, uma tentativa de conciliar tradição e modernização. Ao ampliar as possibilidades de envelhecimento, reconhecer a diversidade dos vinhedos, flexibilizar a elaboração e reorganizar as atividades econômicas, Jerez procura criar condições para um novo ciclo. Resta saber se essas mudanças conseguirão atrair consumidores e estimular investimentos em escala suficiente para reverter uma tendência de declínio que já dura várias décadas.
Não estamos falando de uma região qualquer. Poucas regiões no mundo possuem uma diversidade tão grande e um terroir tão particular. O desafio agora é transformar essa riqueza e originalidade em uma vantagem competitiva, em vinhos que despertem o interesse de uma nova geração de consumidores. Afinal de contas, em termos de custo-benefício, poucas regiões conseguem se colocar no mesmo patamar de Jerez.
Fontes: Jerez Avanzado, Consejo Regulador de Vinos de Jerez y Manzanilla de Sanlúcar; El Vocabulario del Jerez, Consejo Regulador; Elaboración de los Vinos de Jerez, Consejo Regulador; El Sistema de Criaderas y Solera, Consejo Regulador; El Venenciador, Consejo Regulador; Pliego de Condiciones de la DOP Jerez-Xérès-Sherry, Consejo Regulador; Pliego de Condiciones de la DOP Manzanilla-Sanlúcar de Barrameda, Consejo Regulador; Junta de Andalucía; Reglamento de Ejecución (UE) 2025/1713, European Comission; Fortified Wines, Wine & Spirit Education Trust (WSET).
Imagem: Consejo Regulador de Vinos de Jerez y Manzanilla de Sanlúcar