Como o “Super El Niño” pode afetar as principais regiões vinícolas

O “Super El Niño” não apenas altera o clima em diversas partes do Hemisfério Sul, mas também terá um impacto significativo na safra de 2027. Além de sua intensidade (possivelmente a maior nas últimas décadas), o timing é fundamental. O fenômeno vai ganhar força durante a primavera e o início do verão, período em que videiras de países como Brasil, Chile, Argentina, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia atravessam etapas críticas do processo fisiológico.

Porém, até por conta do impacto distinto do El Niño em diferentes regiões, isso não significa que todos esses vinhedos enfrentarão o mesmo problema. O El Niño–Southern Oscillation (ENSO) reorganiza a circulação atmosférica e produz impactos distintos em cada região. Em algumas, o risco principal é o excesso de chuva e de umidade. Em outras, a seca e as temperaturas elevadas.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente onde o “Super El Niño” será mais forte. O que realmente faz a diferença é como ele se manifesta em cada região vinícola e em que momento do ciclo da videira. Estudos mostram que as diferenças podem ocorrer inclusive dentro de um mesmo país. O Sul do Brasil, por exemplo, responde de modo distinto do Sudeste. No Chile, a porção norte e o Vale Central não apresentam necessariamente o mesmo comportamento; enquanto, na Austrália, o próprio efeito do ENSO pode ser secundário em relação ao impacto de outro fenômeno local. Essa enorme heterogeneidade justifica uma análise regional.

Sul do Brasil: um dos sinais mais claros

Entre as principais regiões vitivinícolas do mundo, o Sul do Brasil apresenta uma das relações mais bem documentadas entre El Niño e condições desfavoráveis à produção de uvas. A principal consequência climática é o aumento significativo do volume de chuvas. Estudos confirmam que episódios de El Niño favorecem a elevação da umidade na Região Sul e aumentam a frequência e o volume das chuvas. Para o evento que começou em 2026, os órgãos meteorológicos brasileiros já apontam maior probabilidade de precipitações bem acima da média no segundo semestre.

O efeito sobre as videiras parece claro na Campanha Gaúcha. Um estudo analisou dados de três décadas de 11 variedades brancas e 17 tintas em Santana do Livramento. A separação entre as fases do ENSO foi bastante nítida: os anos de La Niña tenderam a apresentar rendimentos mais elevados e maior teor de açúcar na colheita. Já os anos de El Niño apresentaram o comportamento oposto. Outro estudo, utilizando 29 safras, encontrou correlação entre desvios de rendimento e o Oceanic Niño Index (ONI), especialmente em torno de novembro, justamente quando a região atravessa estágios críticos do ciclo das videiras. A conclusão é que o El Niño se associa a condições mais chuvosas, capazes de comprometer não apenas a produção do ciclo corrente, mas também a do ciclo seguinte.

Esse mecanismo é particularmente preocupante na Serra Gaúcha e na Campanha porque o problema não se resume ao volume de água. Chuvas frequentes significam também maior nebulosidade e maior pressão de doenças. Se o padrão persistir durante o verão, o risco se desloca da floração e do fruit set para a sanidade dos cachos e, finalmente, para a decisão de colheita. Em termos práticos, o El Niño coloca o produtor diante de uma safra possivelmente muito difícil.

O impacto do El Niño na América do Sul

Sudeste brasileiro: um cenário distinto

A situação muda bastante quando saímos do Sul e entramos na viticultura de inverno do Sudeste e do Centro-Oeste. Aqui é importante não extrapolar automaticamente os resultados do Rio Grande do Sul. Evidências confirmam que o El Niño tende a produzir respostas opostas no território brasileiro. De um lado, excesso de chuva mais característico no Sul; de outro, maior probabilidade de condições secas em partes do Centro-Oeste. Para os vinhedos de dupla poda de Minas Gerais e São Paulo, entretanto, a literatura que relaciona diretamente o ENSO à qualidade das uvas ainda é limitada.

Assim, o que podemos dizer é que um período mais quente e seco no inverno poderia, dependendo de sua intensidade e distribuição regional, manter baixa a pressão de doenças durante a maturação. Ao mesmo tempo, porém, temperaturas noturnas mais elevadas poderiam alterar a dinâmica dos ácidos e o processo de amadurecimento. Este é um risco plausível, e não um efeito já documentado do El Niño.

Chile: latitude muda tudo

O Chile demonstra, de maneira ainda mais evidente, por que uma análise nacional é insuficiente. Um estudo publicado em 2026 avaliou a influência do ENSO sobre as datas de colheita e os índices bioclimáticos no norte árido do país e encontrou respostas fortemente dependentes da variedade. El Niño foi consistentemente mais quente do que La Niña, mas isso não se traduziu em um comportamento uniforme das plantas.

No Vale Central, a história é diferente. Um estudo utilizando Cabernet Sauvignon e dados climáticos de quatro eventos El Niño e quatro La Niña no Vale de Talca mostrou que os anos El Niño foram significativamente mais úmidos. Durante o período de crescimento da videira, entre setembro e março, a precipitação média nos anos de El Niño foi quase quatro vezes maior do que nos anos de La Niña. Curiosamente, grande parte da água adicional não foi necessariamente aproveitada pelas videiras. O excesso manifestou-se sobretudo em maior escoamento superficial e em maior captação profunda, mostrando novamente que “mais chuva” não implica automaticamente maior disponibilidade hídrica útil para as videiras.

Para os vinhedos centrais de Maipo, Cachapoal, Colchagua e Maule, isso sugere um cenário desafiador. Um El Niño pode aliviar as restrições hídricas acumuladas, o que é importante em um país que enfrenta escassez estrutural de água. Por outro lado, também pode aumentar a exposição a episódios de chuva durante fases sensíveis. No sul, em Itata, Bío-Bío e Malleco, onde a precipitação natural já é maior e a maturação ocorre em condições mais frias, a mesma anomalia pode ter consequências distintas.

Argentina: mais água nos Andes não significa necessariamente uma safra melhor

A Argentina merece uma análise especialmente cuidadosa. Grande parte da viticultura de Mendoza e San Juan depende menos da chuva que cai diretamente sobre os vinhedos e mais da água armazenada como neve nos Andes. Mendoza é uma região árida a semiárida, com irrigação sustentada principalmente pelo degelo andino. Qualquer alteração no volume de chuvas e no acúmulo de neve na cordilheira pode, portanto, afetar a disponibilidade hídrica meses depois.

No vinhedo propriamente dito, entretanto, a relação é menos simples. Um estudo de 31 anos em Mendoza constatou que o rendimento anual de uvas depende significativamente da precipitação regional durante a estação de crescimento, de outubro a março. Isso significa que a chuva adicional pode ser benéfica até certo ponto, sobretudo num ambiente árido. Mas tempestades intensas, granizo e chuva próxima à colheita representam riscos muito diferentes da neve acumulada no inverno.

Austrália: El Niño não trabalha sozinho

A Austrália oferece talvez o melhor exemplo de por que é perigoso tratar El Niño como uma variável isolada. Um estudo analisou registros de maturação de 45 blocos de vinhedos em 15 regiões australianas, envolvendo 16 variedades, e os relacionou às fases do ENSO e do Indian Ocean Dipole (IOD). O resultado mais interessante foi que o ENSO, quando analisado isoladamente, apresentou baixa correlação com as datas de maturação. O IOD teve um impacto muito mais consistente: fases positivas estiveram associadas à maturação mais precoce e fases negativas à maturação mais tardia.

O maior efeito ocorreu quando os dois fenômenos foram considerados em conjunto. A diferença entre as datas médias de maturação mais precoces e mais tardias chegou a 42 dias nos eventos combinados ENSO–IOD. Porém, não seria correto afirmar que o El Niño antecipa a colheita australiana. O estudo mostra exatamente o contrário: é a interação entre os grandes modos climáticos que produz os resultados mais extremos.

Para 2026, essa interação merece atenção especial. O serviço de meteorologia da Austrália prevê temperaturas acima da média em grande parte do país durante a primavera, com chuvas abaixo da média em partes do sul e do leste. Estas são justamente as áreas onde se concentram algumas das principais regiões vinícolas. Para regiões como Barossa Valley, McLaren Vale e partes de Victoria, a combinação de temperaturas elevadas e menor precipitação sugere maior pressão para o uso de irrigação e um risco de avanço fenológico. Em Margaret River, entretanto, a influência do Oceano Índico e das condições locais exige uma leitura própria.

Nova Zelândia: muito mais vento e forte efeito regional

Na Nova Zelândia, o sinal típico de El Niño é diferente. O serviço climático nacional destaca uma maior frequência de ventos de sudoeste a noroeste entre o fim do inverno e o início do outono durante episódios de El Niño. Para 2026–27, a expectativa oficial é de que esse padrão seja particularmente relevante durante a primavera e o verão. A topografia neozelandesa, entretanto, transforma essa mudança da circulação em respostas regionais muito distintas.

Estudos das principais regiões vitivinícolas mostram que alterações em larga escala na circulação atmosférica interagem com cadeias montanhosas e produzem diferenças significativas de temperatura e de risco de geada entre regiões relativamente próximas. Em termos práticos, Marlborough, Hawke’s Bay e Central Otago não devem ser agrupados como se respondessem igualmente ao ENSO. O leste tende a ficar mais exposto a condições secas em situações de fluxo predominante de oeste, enquanto outras áreas podem apresentar comportamento diferente.

África do Sul: a combinação entre seca e temperatura

No Western Cape, a evidência disponível também é relativamente sólida. Um estudo avaliou a relação entre a seca e o rendimento das videiras em escala regional. Os autores encontraram que muitos dos episódios severos de seca nas últimas décadas ocorreram em anos de El Niño e que os eventos mais intensos combinaram chuvas abaixo da média com temperaturas mais elevadas. Para regiões como Stellenbosch, Paarl e Swartland, portanto, o principal risco associado a um “Super El Niño” é a combinação de menor precipitação, maior demanda evaporativa e disponibilidade limitada de água para irrigação. Isso tende a ser particularmente relevante para vinhedos de sequeiro e para áreas com menor capacidade de armazenamento de água no solo.

Califórnia: mais reputação que evidências

Na Califórnia, o El Niño costuma ser associado imediatamente a invernos mais úmidos, especialmente no sul do estado. Para a viticultura, entretanto, a evidência histórica direta é surpreendentemente fraca. Um estudo analisou 15 variáveis climáticas relevantes para a produção de uvas em dez regiões do oeste dos Estados Unidos e não encontrou associação significativa entre as fases do ENSO e a maioria dessas variáveis ou com avaliações das safras de Napa Valley.

O El Niño apresentou tendência a invernos mais úmidos e condições ligeiramente mais quentes, mas muitas dessas diferenças não foram estatisticamente significativas. O Pacific Decadal Oscillation mostrou relações mais consistentes com temperatura, risco de geada e duração da estação de crescimento. Assim, para Napa e outras regiões costeiras, parece mais importante acompanhar como o evento modifica o volume de chuvas no inverno e a reserva hídrica.

Europa: o sinal se torna mais fraco

À medida que nos afastamos do Pacífico, a relação direta com ENSO se torna menos previsível. Há trabalhos interessantes na Península Ibérica. Estudos encontraram um sinal ENSO significativo na precipitação em algumas áreas do sudeste espanhol e uma associação histórica entre eventos de El Niño e safras classificadas como de alta qualidade em cinco regiões espanholas (Rioja, Penedès, Ribera del Duero, Valdepeñas e Rueda). Em Portugal, um estudo de 33 anos no Dão identificou correlações entre a qualidade do vinho, a precipitação, a temperatura e os índices de circulação atmosférica, incluindo o Southern Oscillation Index e a North Atlantic Oscillation (NAO).

Esses resultados são interessantes, mas precisam ser interpretados com prudência. Na Europa Ocidental, os sistemas atmosféricos do Atlântico, especialmente a NAO, frequentemente exercem uma influência muito mais direta do que o ENSO. Portanto, não há base para afirmar que o “Super El Niño” 2026–27 terá um efeito específico em Bordeaux, Rioja, Douro ou Piemonte. Aqui o ENSO funciona mais como um modulador remoto do sistema climático do que como uma ferramenta confiável de previsão vitícola.

Um El Niño, muitos impactos

Ao colocar todas essas regiões lado a lado, fica claro por que é incorreto afirmar que o El Niño é simplesmente positivo ou negativo para o vinho. Na Campanha Gaúcha, o cenário é de uma safra complicada, com muita chuva. Já na África do Sul, o quadro pode ser exatamente o oposto. Na Austrália, por sua vez, o Indian Ocean Dipole pode ter maior impacto do que o próprio ENSO. No Chile, a resposta varia radicalmente entre regiões e variedades. Na Califórnia, décadas de dados mostram que a reputação do El Niño como determinante da safra é maior do que a evidência estatística indica.

O evento de 2026–27 será, portanto, menos um experimento global uniforme do que uma série de experimentos regionais ocorrendo simultaneamente. A força do fenômeno no Pacífico estabelece o pano de fundo. Com poucas exceções, o que cada vinhedo sentirá dependerá da interação com outros sistemas climáticos, da disponibilidade de água, da variedade plantada e, sobretudo, do momento do ciclo da videira em que as anomalias ocorrerem.

Fontes: Kaltbach et al., Semina: Ciências Agrárias, 2022; Kaltbach et al., Revista Ceres, 2023; Jarvis et al., Agricultural and Forest Meteorology, 2018; Gutiérrez-Gamboa et al., Horticulturae, 2026; Valdés-Gómez et al., Acta Horticulturae, 2011; Cavagnaro et al., Journal of Applied Meteorology and Climatology, 2012; Araujo, Abiodun & Crespo, Theoretical and Applied Climatology, 2014; Sturman & Quénol, International Journal of Climatology, 2013; Jones & Goodrich, Climate Research, 2008; Rodó & Comín, Global Change Biology, 2000; Esteves & Manso Orgaz, International Journal of Biometeorology, 2001; INMET; Australian Bureau of Meteorology; Earth Sciences New Zealand/NIWA.

Mapa: Communications Earth & Environment, Petry, Fan & Wood, 2025

Imagem: Gerada por IA com ChatGPT

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