Durante a ProWine 2026, em São Paulo, tive o prazer de degustar oito vinhos da Weingut Dönnhoff, uma das principais vinícolas da região de Nahe, na Alemanha. A seleção reuniu diferentes expressões de Riesling (variedade que representa cerca de 80% da área plantada), além de um Chardonnay. Foi uma excelente oportunidade para conhecer melhor o espetacular trabalho deste produtor e compreender como as diferenças entre vinhedos, safras e estilos se refletem nos vinhos.
A Dönnhoff adota uma filosofia de vinificação que combina prensagem delicada com o uso de tanques de aço inoxidável e grandes tonéis de carvalho alemão. A escolha dos recipientes varia conforme o vinho, assim como o tempo de estágio e de contato com as lias. A seguir, minhas impressões sobre os vinhos degustados.
Chardonnay Stückfass Trocken 2025, 12%
100% Chardonnay, com uvas provenientes de uma parcela situada em um vinhedo classificado como VDP Grosse Lage, adquirida pela família em 2006. Embora inicialmente houvesse a intenção de substituir as videiras por Riesling, decidiram preservar as videiras de Chardonnay. A fermentação ocorreu em grandes tonéis de carvalho de 1.250 litros (como o nome indica), com passagem por cerca de quatro meses com suas lias. Um Chardonnay preciso, ainda em evolução, no qual a madeira contribui para a textura sem se sobrepor à fruta (destaque para os aromas de frutas frescas (maçã, limão e pêssego branco). Palato seco, com acidez média-alta, corpo médio e textura polida. Apresenta estrutura tensa e precisa, boa complexidade e final de persistência média-alta.
Tonschiefer Riesling Trocken 2024, 12%
Elaborado com Riesling proveniente principalmente do vinhedo Oberhäuser Leistenberg, o nome Tonschiefer refere-se aos solos de ardósia argilosa. Fermentação em aço inoxidável, visando preservar a pureza aromática. A safra de 2024 foi particularmente difícil para a Dönnhoff, com geadas tardias que provocaram perdas de cerca de 90% da produção. Um Riesling de muita tipicidade, com aromas intensos, destacando notas minerais e defumadas, sílex, pedras molhadas, pêssego branco e um toque de massa de pão. Bone-dry na boca, com acidez elevada, corpo médio-alto e estrutura tensa e fresca, com final longo e salino.
Kreuznacher Kahlenberg Riesling 2025, 12,5%
Proveniente do vinhedo Kahlenberg, classificado como VDP Erste Lage, situado próximo a Bad Kreuznach. Os solos apresentam arenito vermelho em partes do vinhedo. A safra, mais quente do que a de 2024, trouxe maior maturação da fruta, resultando em um Riesling de estrutura mais intensa. O vinho conserva aproximadamente 5 g/L de açúcar residual, equilibrado pela elevada acidez. No nariz, apresentou aromas intensos de pêssego branco, maçã amarela e notas minerais defumadas, com intensidade superior à do Tonschiefer. Na boca, é seco, com alta acidez; destaca-se pela salinidade, pela discreta aderência fenólica, pela profundidade e pela precisão. A textura é polida e o final é longo e limpo. Um Riesling excelente, complexo e ainda em desenvolvimento.
Kreuznacher Krötenpfuhl Riesling GG 2024, 12,5%
Elaborado com Riesling do Krötenpfuhl, vinhedo classificado como VDP Grosse Lage. A produção envolve colheita manual seletiva, realizada em diferentes passagens. Fermentação e estágio em grandes recipientes de carvalho, com pelo menos seis meses sobre as lias completas, seguidos de mais dois meses sobre as lias finas. A qualidade do vinhedo e o trabalho de maturação mais prolongado trouxeram mais estrutura e complexidade, resultando em um vinho mais concentrado e persistente. Com alta acidez e corpo médio-alto, mostrou-se mais profundo, porém sem perder a tensão, com múltiplas camadas e final salino.
Schlossböckelheimer Felsenberg Riesling GG 2019, 13%
Proveniente do Felsenberg, um dos vinhedos de destaque em Schlossböckelheim, caracterizado por encostas íngremes e solos de origem vulcânica. A Dönnhoff recuperou antigos terraços abandonados, preservando parte dos muros históricos e replantando uma parcela próxima à torre representada no rótulo. Cultivam aproximadamente 1,5 hectare nessa parcela de terraços recuperados, com rendimentos em torno de 35 a 40 hl/ha.
Um Riesling excepcional, que já mostra seus predicados, mas que ainda deverá ganhar complexidade com alguns anos adicionais de garrafa. Nariz intenso, com aromas de limão, pêssego branco, frutas frescas e notas minerais defumadas. Palato seco, com acidez elevada e corpo médio. A estrutura é concentrada, profunda e complexa, com múltiplas camadas, discreta aderência fenólica e textura cremosa. O final é longo e com uma impressionante precisão de fruta.
Riesling Feinherb 2024, 10%
Elaborado no estilo Feinherb, com aproximadamente 25 g/L de açúcar residual. A versatilidade da Riesling ficou evidente neste vinho, com um equilíbrio perfeito entre acidez e dulçor. No olfativo, apresentou aromas intensos de damasco, pêssego branco, pêssego amarelo, limão e frutas maduras. Já o palato trouxe um leve dulçor, equilibrado por uma acidez elevada e um corpo médio. A estrutura é profunda, com boa concentração de fruta e final de persistência média-alta.
Niederhäuser Klamm Riesling Kabinett 2025, 8,5%
Proveniente do Niederhäuser Klamm, vinhedo classificado como VDP Grosse Lage, localizado próximo à Hermannshöhle. As encostas são íngremes, com solos de origem vulcânica e com presença de elementos de ardósia. O vinho apresenta aproximadamente 52 g/L de açúcar residual, equilibrado pela acidez elevada. Um Kabinett de alta gama, com aromas de pera, maçã verde e pêssego branco. Na boca tem doçura moderada, acidez elevada e corpo médio. A estrutura é linear, tensa e precisa, com textura redonda e elegância de sobra.
Norheimer Kirschheck Riesling Spätlese 2017, 8,5%
Proveniente do Norheimer Kirschheck, vinhedo de encostas íngremes voltadas ao sul, com vinhas velhas (55 anos) e solos de ardósia cinza, arenito e formações do Rotliegendes. Após prensagem delicada, elaboração em aço inoxidável e em grandes tonéis de carvalho. O vinho apresenta aproximadamente 72 g/L de açúcar residual, incrivelmente integrado pela tensão decorrente de uma safra relativamente fria, com colheita entre outubro e novembro. Possivelmente, o vinho mais complexo do painel, com aromas pronunciados de damasco, pêssego branco, limão e casca de limão, acompanhados por notas minerais, defumadas e de ardósia. Palato de acidez elevada e dulçor moderado e corpo médio-alto. A estrutura é ampla, profunda e complexa, com múltiplas camadas, textura cremosa e final longo, marcado pela fruta.