Romanée Saint-Vivant: um Grand Cru com 10 expressões distintas

Vosne-Romanée, para muitos, é o vilarejo mais icônico da Borgonha. Nenhuma outra comuna concentra, em tão pouco espaço, tantos nomes míticos, tintos com preços extremos e vinhedos que dão origem a vinhos frequentemente comparados a obras de arte. Romanée-Conti, La Tâche, Richebourg, La Romanée, La Grande Rue e Romanée Saint-Vivant formam um conjunto único, mesmo para os padrões da Côte de Nuits.

Parte dessa aura vem dos monopoles. Vinhedos Grand Cru como Romanée-Conti, La Romanée, La Tâche e La Grande Rue pertencem integralmente a um único produtor, algo pouco comum mesmo na Borgonha. Já Romanée Saint-Vivant, assim como Richebourg, segue outro caminho, pois tem mais de um proprietário. Porém, apesar disso, está fortemente associado ao Domaine de la Romanée-Conti (DRC), possivelmente a vinícola mais icônica da região.

Essa associação tem fundamento. Dos 9,43 hectares de videiras de Romanée Saint-Vivant, o Domaine de la Romanée-Conti controla 5,29 hectares, ou pouco mais de 56% da área total. É uma presença dominante, especialmente porque ocupa a parte central e historicamente mais importante do climat. Ainda assim, Romanée Saint-Vivant não se resume ao DRC. Outros produtores de grande prestígio elaboram vinhos a partir deste Grand Cru, criando uma rara oportunidade de comparar 10 interpretações distintas de um mesmo vinhedo excepcional.

Os climats de Vosne-Romanée

Longa história

A origem de Romanée Saint-Vivant, assim como a de vários vinhedos desta comuna, remonta à antiga abadia de Saint-Vivant de Vergy. Segundo a tradição, Saint Vivant teria sido um religioso oriundo do Oriente no século IV, depois associado à Vendée, na costa atlântica francesa. Durante as invasões normandas do século IX, os monges que guardavam suas relíquias fugiram em busca de um local mais seguro. Depois de diferentes deslocamentos, estabeleceram-se na colina de Vergy, na Borgonha, entre o fim do século IX e o início do século X.

A história do vinhedo começa a se ligar de forma mais direta ao que hoje é Vosne-Romanée em 1131. Naquele ano, Hugues II, duque da Borgonha, doou ao monastério terras em Vosne e em Flagey. Ao longo dos séculos seguintes, novas parcelas foram incorporadas ao patrimônio do monastério, formando um conjunto de vinhas que incluía os antigos Cloux des Neuf Journaux, Cloux de Moytan, Cloux des Quatre Journaux e Cloux des Cinq Journaux.

Esses nomes antigos são importantes porque ajudam a explicar a formação dos Grands Crus atuais de Vosne-Romanée. O Cloux des Cinq Journaux, separado mais tarde do conjunto, acabaria relacionado à área que se tornaria Romanée-Conti. Já a parte principal ligada ao monastério daria origem ao que hoje conhecemos como Romanée Saint-Vivant.

O nome Romanée Saint-Vivant

A primeira menção ao nome Romanée de Saint-Vivant aparece em 1765. O detalhe é significativo. Apenas cinco anos antes, em 1760, o Príncipe de Conti havia comprado a parcela vizinha, que passaria a ser conhecida como Romanée-Conti. O nome Romanée já carregava prestígio, e os monges de Saint-Vivant parecem ter percebido a força dessa associação.

Até então, a identificação das parcelas do priorado ocorria principalmente pelos antigos nomes dos cloux. A partir do século XVIII, a denominação Romanée de Saint-Vivant passou a associar o vinhedo à tradição religiosa do priorado e, ao mesmo tempo, ao prestígio crescente dos grandes vinhedos de Vosne. O nome moderno nasce, portanto, de duas camadas. De um lado, a memória da abadia e, de outro, a força simbólica da palavra Romanée.

A ligação entre Romanée-Conti e Romanée Saint-Vivant não é apenas geográfica. Ambas compartilham uma origem histórica comum nas antigas terras de Saint-Vivant de Vergy. A diferença é que Romanée-Conti seguiu o caminho de se tornar um monopole, enquanto Romanée Saint-Vivant permaneceu mais amplo e, posteriormente, dividido e interpretado por diferentes domaines.

Da Revolução à era moderna

Com a Revolução Francesa, houve o confisco e a venda das terras das ordens religiosas. Romanée Saint-Vivant passou em 1791 para Nicolas-Joseph Marey, dando início a uma longa fase sob controle da família Marey-Monge. Durante mais de um século, o vinhedo permaneceu uma propriedade praticamente unificada.

A primeira grande ruptura ocorreu em 1898, quando o Clos des Quatre Journaux foi vendido a Louis Latour. A partir daí, Romanée Saint-Vivant deixou gradualmente de funcionar como monopole. Ao longo do século XX, a família Marey vendeu novas áreas do vinhedo, abrindo espaço a outros proprietários.

O passo decisivo para a configuração atual ocorreu em 1966. Foi quando a maior parte remanescente foi cedida ao Domaine de la Romanée-Conti por meio de um contrato de exploração. Em 1988, o DRC comprou definitivamente essa área, consolidando sua posição dominante em Romanée Saint-Vivant. No mesmo período, outras parcelas seguiram caminhos diferentes, incluindo uma parte ao norte vendida a Charles Noëllat, hoje em parte ligada ao Domaine Leroy.

A denominação de origem

denominação de origem Romanée-Saint-Vivant teve seu reconhecimento em 11 de setembro de 1936 e corresponde a uma AOC Grand Cru da Côte de Nuits, produzida exclusivamente na comuna de Vosne-Romanée. Pelas suas regras, a produção se resume a vinhos tintos tranquilos, elaborados a partir de Pinot Noir como variedade principal. ChardonnayPinot Blanc e Pinot Gris são variedades acessórias em complantio, limitadas a 15% de cada parcela.

densidade mínima de plantio é de 9.000 plantas por hectare, com proibição de irrigação, e o rendimento máximo autorizado é de 42 hl/ha. Como a área oficial em produção é de 9,43 hectares, esse rendimento permitiria, em tese, uma produção máxima próxima de 395 hl, ou cerca de 53 mil garrafas de 750 ml. Na prática, porém, a produção média registrada para o período 2017-2021 foi bem menor, de 252 hl, equivalentes a cerca de 33.500 garrafas ao ano.

O vinhedo

Romanée Saint-Vivant fica em Vosne-Romanée, imediatamente a leste dos também Grands Crus Romanée-Conti e Richebourg. O vinhedo fica entre 250 e 310 metros de altitude, com exposição majoritariamente a leste ou ligeiramente a sudeste. Sua área oficial é de 9,43 hectares, o que o torna o maior climat de Vosne-Romanée e o segundo maior se os Grands Crus de Flagey-Échézeau forem incluídos, somente atrás de Échezeaux.

O solo é um dos pontos marcantes deste climat. Romanée Saint-Vivant tem solos calcários marrons relativamente profundos, com cerca de 90 centímetros, mais profundos que os de Romanée-Conti. Há presença importante de argila e calcário ativo, sobre a base de calcário duro de Prémeaux, do período Jurássico.

A pouca inclinação ajuda a explicar uma característica relevante: a drenagem não é tão rápida quanto em outros Grands Crus de Vosne-Romanée. Ou seja, existe uma excelente capacidade de retenção de água. Em algumas áreas, especialmente nas próximas a Richebourg, camadas mais compactas de argila podem dificultar a penetração das raízes e o escoamento da água. Mesmo assim, esse equilíbrio entre calcário, argila e profundidade ajuda a definir a identidade de Romanée Saint-Vivant. São vinhos menos austeros do que alguns vizinhos e frequentemente associados a textura fina e alta concentração aromática.

Estilo dos vinhos

Romanée Saint-Vivant costuma ser descrito como um dos Grands Crus mais elegantes e perfumados de Vosne-Romanée. Em comparação com Richebourg ou La Tâche, tende a mostrar menos potência e mais finesse. Quando o paralelo é com Romanée-Conti, pode ser menos complexo ou profundo, mas, em grandes safras, alcança uma expressão aromática de enorme complexidade.

Em geral, os Grands Crus tintos de Vosne-Romanée são vinhos de longa guarda, consumidos após cerca de dez anos e, em alguns casos, capazes de evoluir por 20 ou 30 anos. O perfil inclui frutas vermelhas e negras, violeta, especiarias e, com o tempo, notas de sous-bois, trufa, couro e outros aromas terciários. Romanée-Saint-Vivant, porém, é frequentemente visto como um Grand Cru apto para consumo mais precoce nesse grupo. Isso, porém, sem renunciar à qualidade ou à longevidade. Seu ponto alto está menos na potência e mais na combinação de perfume, delicadeza, sensualidade e persistência.

Produtores e parcelas

O Domaine de la Romanée-Conti é, em diversos sentidos, o grande nome de Romanée Saint-Vivant. Seus 5,29 hectares representam cerca de 56% do climat, incluindo o bloco central e historicamente mais importante. Essa escala faz do DRC a referência inevitável do Grand Cru, tanto em volume relativo quanto em prestígio.

Romanée Saint-Vivant e sua divisão por produtor

Ainda assim, a diversidade de produtores é parte essencial da identidade de Romanée Saint-Vivant. O Domaine Leroy possui 0,99 hectare, a segunda maior parcela do vinhedo. Louis Latour aparece em seguida, com 0,76 hectare, ligado ao histórico setor de Les Quatre Journaux. Jean-Jacques Confuron tem 0,50 hectare; Domaine Poisot, 0,49 hectare; Domaine Hudelot-Noëllat, 0,48 hectare; Domaine Arnoux-Lachaux, 0,35 hectare; Domaine de l’Arlot, 0,25 hectare; Sylvain Cathiard e Dujac, 0,17 hectare cada.

A distribuição espacial também ajuda a entender as diferenças. Leroy, Confuron e Hudelot-Noëllat ficam no setor norte, acima do grande bloco do DRC. Louis Latour ocupa Les Quatre Journaux, entre a área principal do DRC e as parcelas ao sul. No extremo sul aparecem Arnoux-Lachaux, Poisot, Cathiard, Arlot e Dujac.

Fontes: Bourgogne Wines; Inside Burgundy, Jasper Morris; The Climats and Lieux-Dits of the Great Vineyards of Burgundy, Marie-Hélène Landrieu-Lussigny e Sylvain Pitiot; Bourgogne Master Level Study Manual, Wine Scholar Guild; Domaine Leroy

Imagens: Arquivo pessoal

Mapas: gerados por IA com ChatGPT

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