Uvas híbridas e cruzamentos: você sabe qual a diferença?

Last Updated on 25 de outubro de 2024 by Wine Fun

Conhecer todas as variedades de uvas é uma tarefa quase impossível. São cerca de 60 espécies diferentes de Vitis, das quais a Vitis vinifera é apenas uma delas. E dentro da Vitis vinifera há entre 5.000 e 10.000 variedades diversas, embora apenas pequena parte disso tenha efetivo uso comercial na produção de vinhos.

E esta diversidade segue aumentando. Além das variedades ancestrais, também existem muitas novas variedades que surgiram por dois caminhos distintos. De um lado, existem os cruzamentos, que é quando duas uvas da mesma espécie se combinam em uma nova variedade. De outro, temos também as uvas híbridas, nos últmos anos também chamadas de PiWi’s, que é como são chamadas aquelas resultantes de duas variedades de espécies diferentes.

Cruzamentos

Podemos definir o cruzamento como o surgimento de uma nova variedade de uvas, que pode resultar da polinização cruzada de duas variedades da mesma espécie. Ela pode ocorrer de forma espontânea, como, por exemplo, no caso da Cabernet Sauvignon. Exames de DNA provaram que uma das variedades mais populares do mundo é o cruzamento natural entre a Cabernet Franc e a Sauvignon Blanc.

Há inúmeros exemplos deste tipo de cruzamento, como a Syrah, resultado do cruzamento da Mondeuse Blanc e da Dureze, Chardonnay (Pinot Noir e Gouais Blanc) ou Sangiovese (Ciliegiolo e Calabrese di Montenuovo), entre outros. De fato, desde que a técnica de marcadores microssatélites passou a ser usada em 1997 (exatamente com o estudo que identificou a origem da Cabernet Sauvignon) as árvores genealógicas de muitas variedades vendo sendo descobertas.

Mas nem todos os cruzamentos são espontâneos, muitos deles ocorreram em laboratório. Em 1882, o suíço Hermann Muller obteve sucesso no cruzamento entre a Riesling e a Silvaner, criando a Muller-Thurgau. São diversos exemplos de variedades criadas em laboratório, como Pinotage (Pinot Noir e Cinsault), Manzoni Bianco (Riesling e Pinot Blanc) e Marselan (Cabernet Sauvignon e Garnacha).

Híbridas

Já as variedades híbridas são o resultado de duas ou mais espécies de Vitis distintas. Assim como os cruzamentos, vem sendo realizadas em laboratório desde o século XIX e boa parte delas seleciona uma variedade de Vitis vinifera em combinação com uma ou mais variedades de uvas americanas, como a Vitis labrusca, por exemplo.

Alguns exemplos são a uva Isabella (Isabel no Brasil) criada em 1816 e a Concord (1854), ambas nos Estados Unidos, usando uma variedade de Vitis vinifera e uma de Vitis labrusca, e a Vidal (muito usada para icewein no Canada), resultado da Trebbiano com uma outra híbrida. A tabela abaixo traz alguns exemplos.

VariedadeAncestraisData de Introdução
Catawbalabrusca/vinifera1823
Isabella (Isabel no Brasil)labrusca/vinifera1816
Clintonlabrusca/riparia1835
Ives (Bordô no Brasil)labrusca/aestivalis1844
Delawarelabrusca/bourquiniana/vinifera1851
Concordlabrusca/vinifera1854
Agawamlabrusca/vinifera
(Carter × Black Hamburg)
1860
Othellovinifera/riparia/labrusca1867
Elvirariparia/labrusca
(Taylor × Martha)
1874
Niagaralabrusca/vinifera
(Concord × Cassady)
1872
Noahriparia/labrusca 1876
Dutchessvinifera/labrusca/bourquiniana/aestivalis1880
Diamondlabrusca/vinifera1885
Fonte: Grapevine breeding in the Eastern United States, A.G. Reynolds, B.I. Reisch

As pesquisas continuam gerando novas híbridas, inclusive no Brasil, onde a Embrapa tem criado novas variedades que mostram grande potencial, principalmente para indústria de uvas in natura e sucos. O objetivo é aumentar a produtividade, ampliar a resistência das videiras a pragas e outros fatores, o que pode contribuir para um menor uso de herbicidas ou pesticidas.

Vinhos

Especificamente em relação aos vinhos, ainda existe uma certa resistência, tanto em relação tanto aos cruzamentos de laboratório, como no que diz respeito às híbridas. Neste último caso, sobretudo quando se falal de híbridas mais antigas, há uma justificativa bastante aceita. Muitas delas tendem a reter algumas das características olfativas e gustativas das uvas americanas.

Porém, existe uma nova geração de uvas híbridas, com um aceitação muito maior. Desde o final da Segunda Guerra Mundial a Alemanha aparece como principal centro de pesquisa e desenvolvimento destas variedades. Por conta desta liderança, o termo mais usado para designar uvas híbridas hoje é PiWi. Sua origem? A expressão alemã PilzWiderstandsfähige Rebsorten, que pode ser traduzida como “variedades de uvas resistentes a fungos”.

Apesar dos avanços recentes, qualquer combinação que tenha participação de outras espécies sempre acaba sendo considerada como híbridas. Isso independe da proporção de uvas de uma espécie (por exemplo, a resultante do cruzamento entre uma híbrida e uma Vitis vinifera segue sendo considerada como híbrida, mesmo que 75% da carga genética seja da Vitis vinifera).

Imagem: Couleur pelo Pixabay

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