Uma das oito maiores denominações de origem em volume de produção na Espanha, Navarra viveu nas últimas décadas mudanças profundas de identidade. Historicamente associada a seus vinhos rosés elaborados a partir da Garnacha, viveu uma verdadeira revolução nos anos 1980. De um lado, viu a participação da Tempranillo crescer, até por conta da influência da vizinha Rioja. Por outro lado, viu também o cultivo de uvas francesas aumentar, resultando em um forte aumento na parcela de vinhos tintos.
Situada no nordeste da Espanha, tem extensão de pouco mais de 100 km, desde o norte de Pamplona até os territórios nas margens do rio Ebro. É uma região de grandes contrastes. São zonas montanhosas no nordeste, influenciadas pelo frio dos Pirenéus; terras mais quentes e secas ao sul; e terrenos mais férteis nos vales e encostas próximos dos rios Ebro, Ega, Arga e Aragón. É uma área que merece uma atenção mais detalhada.

Tradição milenar
A tradição de viticultura na Navarra tem uma longa história. Há evidências, descobertas em Funes, Arellano, Liédena, Falces, Cascante e Cintruénigo, que provaram que os romanos elaboravam vinhos nesta região em grande escala, entre os séculos I a IV d.C. Após o declínio visto após as invasões bárbaras, a Idade Média inaugurou uma nova era de prosperidade.
Situada no Caminho de Santiago, Navarra contava com diversos marcos na rota dos peregrinos, além de monastérios que se tornaram os principais promotores do vinho na região Em paralelo, o impulso da nobreza foi fundamental. Dinastias francesas, como Foix, Evreux e Albret, reinaram em Navarra por mais de três séculos, Entre os séculos XII e XV, o cultivo da vinha estendia-se desde os vales dos Pirenéus até as margens do Ebro.
Os mosteiros, especialmente Irache, eram importantes centros vitivinícolas. Em paralelo, a Rota Jacobeia do Caminho de Santiago, que atravessa Navarra diagonalmente, era ladeada por vinhedos desde Pamplona até Viana. O reinado de Teobaldo I (1234-53), rei de Navarra e conde de Champagne, foi marcante. Ele não somente introduziu as castas borgonhesas, como Chardonnay ou Pinot Noir, mas também contribuiu para o aperfeiçoamento das técnicas vitícolas e de vinificação. Na época, predominavam os vinhos claretes, precursores de uma tradição de vinhos rosés até hoje presente na área. O cultivo de videiras continuou crescendo até o final do século XIX.
Declínio, recuperação e mudanças
Como em praticamente toda a Europa, o cenário mudou radicalmente nos últimos anos do século XIX. A crise começou com uma praga de míldio em 1885, aprofundada pela chegada da filoxera em 1892. Com a destruição de boa parte das videiras, as duas primeiras décadas do século XX marcaram a reconstrução de vinhedos em Navarra. Porém, houve uma enorme mudança. Grande parte da diversidade varietal se perdeu, com o desaparecimento de mais de 80 variedades. Começou a era da Garnacha, uma uva que se adaptou muito bem à região, com foco sobretudo em vinhos rosés, produzidos como saignée, ou sangria, como é chamado localmente.
Em 1933 houve o reconhecimento da denominação de origem Navarra, porém o Conselho Regulador foi efetivamente criado em 1958. O domínio quase absoluto da Garnacha, que respondia por cerca de 90% dos vinhedos no final dos anos 1970, acabou pouco depois. Uvas francesas e a Tempranillo rapidamente ganharam espaço nos vinhedos de Navarra.
A denominação de origem e suas regras
É importante distinguir entre a denominação de origem Navarra e região de mesmo nome. Nesta última, há vinhedos de outras denominações de origem, inclusive da Rioja DOCa. Quando o foco é na denominação de origem Navarra, são cerca de 11 mil hectares de vinhedos, com 85 vinícolas dedicadas à elaboração de vinhos tintos, rosés, brancos e um vinho doce (vino de licor). Este último deve conter ao menos 85% de Moscatel ou Grenache (tinta ou branca), com um nível de açúcar total maior ou igual a 67 g/l.
Chama a atenção as regras mais estritas para elaboração de rosés. A fermentação deve ser com mostos exclusivamente de uvas tintas, obtidos por sangria, ou seja, por separação dos sólidos por gravidade. O volume máximo admissível de sangria deve ser de 40 litros por 100 quilos de uvas. Já no caso dos tintos, pode haver adição de rosés, desde que a proporção não exceda 15% do volume total resultante.
Atualmente as variedades aceitas pelo D.O. Navarra são, na produção de vinhos tintos e rosés: Garnacha, Tempranillo, Graciano, Merlot, Cabernet Sauvignon e, em menor escala, também Mazuelo, Syrah e Pinot Noir. Quanto à produção de vinhos brancos, são permitidas Chardonnay, Viura, Sauvignon Blanc, Garnacha Blanca, Moscatel e Malvasia.
Uvas tintas dominam os vinhedos
Apesar do forte crescimento da participação das variedades francesas desde a década de 1980, mais de 65% da área total de vinhedos de Navarra tem presença de variedades nativas (Garnacha, Tempranillo, Viura etc.), enquanto os 35% restantes são compostos por uvas francesas, com destaque para Cabernet Sauvignon, Chardonnay e Merlot. As variedades tintas dominam, respondendo por 90% das uvas produzidas.
Com 3.200 hectares de vinhedos, ou cerca de 31% do total, a Tempranillo é a uva de maior cultivo em Navarra, muito por conta do forte crescimento nas duas últimas décadas. Em tendência oposta, a Garnacha ocupa atualmente 25% dos vinhedos, com 2.600 hectares. Duas uvas francesas, após o forte crescimento nas últimas décadas, ocupam as posições seguintes: Cabernet Sauvignon (1.350 hectares, 13%) e Merlot (1.330 ha, 13%). Outras tintas com menor presença são Graciano, Mazuelo, Pinot Noir e Syrah, as duas últimas autorizadas desde 2008.
Entre as brancas, a líder é a Chardonnay, também plantada a partir dos anos 1980, com 600 hectares (6% do total). A Viura, assim como a Garnacha, fez o caminho inverso, atualmente representando cerca de 3% dos vinhedos. Garnacha Blanca e Malvasia tem áreas menores, assim como a Moscatel, que mostrou um renascimento nos últimos 40 anos. Completa a lista a Sauvignon Blanc.
Terroir
O clima da área da denominação Navarra é basicamente mediterrâneo, com alguma influência atlântica na zona norte-noroeste. Por conta de sua latitude, ela mostra temperaturas médias mais amenas no verão, mais frias no inverno, maior precipitação média e maior amplitude térmica dia/noite do que nas zonas tipicamente mediterrâneas.
Além disso, há uma característica que a diferencia de regiões vizinhas: um vento de noroeste, conhecido como cierzo. Por ser persistente e frio, acaba contribuindo para uma aeração maior das videiras, dificultando o desenvolvimento de pragas e doenças. Porém, as condições variam bastante entre as várias áreas da denominação de origem, de forma que os vinhedos de Navarra se dividem em cinco sub-regiões, com características distintas.
As maiores sub-regiões
Situada na parte central de Navarra, Ribera Alta é maior das cinco sub-regiões, com cerca de 3.800 de vinhedos. Longe das influências do oceano e dos Pirenéus, é uma área quente e seca, com chuvas anuais médias entre 349 e 507 milímetros. Tem um relevo suave, com solos calcários ou areníticos e dedica boa parte de seus vinhedos à Tempranillo, Cabernet Sauvignon, Merlot, Graciano e Chardonnay.

Já a Ribera Baja, com mais de 3 mil hectares de videiras, ocupa o extremo sul da área geográfica da denominação, localizando-se, na sua maior parte, na margem direita do Ebro. Tem o clima mais árido entre as cinco sub-regiões, com solos localizados em diferentes níveis de terraços e glaciares quaternários. Dado o regime térmico e a precipitação média anual (que varia entre 361 e 384 mm), há um déficit hídrico para o vinhedo de mais de 300 mm por ano. As uvas mais plantadas são Tempranillo (40%), Garnacha (30%), Merlot, Mazuelo, Viura e Moscatel.
As demais sub-regiões
As três demais áreas se encontram mais ao norte, porém cada uma com suas particularidades. Baja Montaña fica a leste, na fronteira com Aragón, tem cerca de 1.500 hectares de vinhedos e relevo mais acidentado. Marca a área de contato entres duas formações geológicas. A precipitação média anual varia entre 470 e 760 mm, sendo a sub-região com maior influência dos Pirenéus. É uma área dominada por variedades tintas, como Garnacha (mais de 60%) e Tempranillo (25%).
Situada no centro de Navarra e cortada pelo Caminho de Santiago, Valdizarbe tem cerca de 700 hectares e conta com solos de margas e arenito, além de relevo acidentado. Embora as cadeias montanhosas localizadas ao norte reduzam a influência do Atlântico, é a mais úmida de todas as áreas, com chuvas entre 544 e 807 mm. Por conta destas condições, tem presença de Pinot Noir, Chardonnay e Malvasia. Todavia, a maioria dos vinhedos tem plantios de Tempranillo, Garnacha, Cabernet Sauvignon e Merlot.
Por fim, Tierra Estella se localiza a oeste de Valdizarbe e mostra a maior altitude média dentre os vinhedos de Navarra. Também tem relevo acidentado e predominância de solos de margas e arenito, embora também com terraços quaternários nos rios Ega e Odrón. Como nos dois casos anteriores, tem um relevo acidentado. A precipitação média anual varia entre 454 e 700 mm, embora as cadeias montanhosas de Urbasa e Andía, ao norte, reduzam a influência atlântica. É uma sub-região onde Tempranillo (50%), Cabernet Sauvignon (20%) e Chardonnay predominam.
Os vinhos
Por conta da flexibilidade de escolha de variedades desta denominação de origem, talvez seja mais coerente descrever as características dos vinhos por sub-região. A Ribera Alta, com temperaturas médias elevadas, poucas chuvas e início mais precoce da vindima, destaca-se pela produção de vinhos com teor alcoólico médio-alto e acidez média. Os rosés são de coloração mais intensa e frutados, com tintos aptos tanto para consumo imediato como guarda.
Na Ribera Baja, seu terroir resulta em vinhos de maior teor alcoólico e mais corpo, com acidez mais baixa que os demais. É nesta sub-região que têm origem os vinos de licor. Já a Baja Montaña se dedica sobretudo a vinhos rosés e tintos de teor alcoólico médio, muito frutados e acidez média-alta, com base nas condições climáticas da área e na disponibilidade de água.
Valdizarbe dá origem a vinhos brancos, rosés e tintos de grau médio, corpo médio-alto e acidez média-alta, graças a uma certa influência atlântica e a um regime de chuvas superior ao do resto das áreas. Por fim, Tierra Estella produz vinhos brancos, rosés e tintos de grau médio, médio-alto corpo e alta acidez, especialmente ligados à influência do clima Atlântico.
Classificação por tempo de contato com madeira
Como muitas regiões espanholas, também em Navarra há regras específicas para a classificação de seus vinhos de acordo com o tempo de permanência em barricas. São seis categorias. Os fermentados en barrica são os rosés cuja fermentação ocorre em barricas de carvalho com capacidade máxima de 500 litros. Já os Tinto Roble são vinhos tintos com passagem por barricas de carvalho com capacidade máxima de 330 litros por um período superior a 90 dias. Envejecido em Roble serve para vinhos licorosos de Moscatel que tenham passado por um período de envelhecimento de, pelo menos, vinte e quatro meses, dos quais pelo menos 18 meses em carvalho.
Três categorias, porém, são aquelas de maior divulgação. Crianza serve para os tintos com envelhecimento mínimo de 24 meses, dos quais pelo menos nove meses em barricas de carvalho com uma capacidade máxima de 330 litros. Para os brancos, o mínimo é de 18 meses, com ao menos seis em barrica.
Já Reserva, no caso dos tintos, exige envelhecimento mínimo de 36 meses, entre barrica e garrafa, dos quais pelo menos 12 em barricas de carvalho com uma capacidade máxima de 330 litros. Para brancos e rosés o mínimo é 24 meses, dos quais pelo menos seis em barricas de carvalho. Por fim, Gran Reserva requer, para tintos, envelhecimento de 60 meses, entre carvalho e garrafas, dos quais pelo menos 18 em barricas com capacidade máxima de 330 litros. Para os brancos, os prazos são 48 e seis meses, respectivamente.
Produtores
Uma parte significativa dos vinhedos de Navarra está sob controle de produtores de maior porte, sobretudo após a decisão de dedicar uma parcela crescente a uvas internacionais. Um deles, Chivite, é um exemplo da “internacionalização” dos vinhedos, com foco importante no chamado Navarra blend, contendo Tempranillo, Cabernet Sauvignon, Garnacha ou Merlot. Porém, nos últimos anos a Garnacha voltou a ganhar espaço, aliando produtores já estabelecidos com novos nomes.
Alguns exemplos são Bodegas y Viñedos Artazu, Domaines Lupier (projeto de Raul Perez), Bodegas Otazu, Ochoa, Pagos de Araïz, Viña Zorzal, Bodegas Aroa, Nekeas, Hacienda de Arínzano, Inurrieta, Máximo Abete, Emilio Valerio, Tandém e Alzania.
Fontes: Pliego de Condiciones, Denominación de Origen Protegida Navarra; Vinos DO Navarra; Asociación Bodegas de Navarra; Spanish Wine Lover; Faustino Rivera Ulecia; Decanter
Mapas: Vinos DO Navarra; Wikipedia; Spanish Wine Lover
Imagem: Vinos DO Navarra