Last Updated on 25 de outubro de 2024 by Wine Fun
Que tal conhecer vinhedos situados na área urbana de uma das melhores cidades do mundo para se morar, de cultivo orgânico, que promovem a biodiversidade e que fazem parte do projeto Arca do Sabor, da fundação italiana Slow Food? Sim, estes vinhedos existem e ficam localizados em Viena, a capital da Áustria. E atendem pelo nome de Gemischter Satz.
Viena é a única capital do mundo a ter uma denominação de origem dentro de sua jurisdição. São cerca de 640 hectares de vinhedos, com mais de 200 produtores diferentes, tudo a menos de 10 quilômetros da catedral de Santo Estevão, no coração da capital da Áustria. Porém, entre 50 a 70 hectares deste vinhedos são ainda mais especiais.

Tradição do passado
Viena é uma cidade que tem sua história ligada intimamente ao vinho. Em alemão, se chama Wien, muito próximo para a palavra vinho no mesmo idioma, que é wein. No passado, uma grande proporção da população dependia diretamente do vinho, e seguia uma tradição regional de cultivo de uvas.
Ao invés de vinhedos com uma única variedade, eram videiras de variedades distintas, como se fosse um jardim com diversas plantas diferentes. Chamados de Gemischter Satz, continham diversas variedades de uvas brancas na proporção certa para a elaboração de vinhos elegantes, frescos e gastronômicos.
Vinhos expressando uma cidade
Os vinhos elaborados de Gemischter Satz não são como um blend normal que estamos acostumados. Imagine um corte bordalês: as uvas de Cabernet Sauvignon provêm de uma parcela do vinhedo, as de Merlot de outro, o mesmo para as de Cabernet Franc. Cabe ao enólogo identificar a melhor combinação delas. Independente da quantidade de uvas, estamos falando de diversas monoculturas: cada uva no seu vinhedo.
Gemischter Satz é distinto disso. O blend ocorre já no vinhedo, todas as variedade crescem, se desenvolvem, e tem colheita e vinificação conjuntas. Quase todas as uvas são brancas, e cada uma desempenha um papel diferente. Há uvas básicas, para dar corpo e estrutura (como Pinot Blanc e Grüner Veltiner), variedades que fornecem acidez (como Riesling) e outras para trazer notas aromáticas (como Moscatel Branco e Traminer). Cada vinho é diferente, mas todos eles são uma expressão desta região.
Diversas variedades locais e algumas estrangeiras prosperam neste vinhedos, como Chasselas, Elbling, Fütterer, Hanns, Heunisch (Gouais Blanc), Müller-Thurgau, Muskateller, Neuburger, Grüner Hainer, Orléans, Österreichisch-Weiß, Weißburgunder (Pinot Blanc), Spätburgunder (Pinot Noir), Riesling, Silvaner, Traminer, Grüner Veltliner e Zierfandler.

Renascimento
Ninguém sabe a origem exata deste sistema de cultivo. Provavelmente está associado ao conceito de não colocar todos os ovos na mesma cesta. Mesmo em caso de mau tempo ou pragas, parte da colheita, o prejuízo do viticultor seria menor, pois cada variedade reage de forma diferente às adversidades.
Até a década de 1990, a percepção destes vinhos não era positiva, sendo vinho leves, para consumo rápido. Porém, a maior valorização de práticas ancestrais, iniciativas como as do Slow Food e o esforço de um grupo de produtores trouxeram Gemischter Satz de volta à evidência. Vinícolas como Wieninger, Christ, Edlmoser, Cobenzl, Mayer am Pfarrplatz e Fuhrgassl-Huber fizeram uma grande contribuição para revigorar a antiga especialidade, através do grupo WienWein.
Denominação controlada
Hoje esta prática tem regulamentação legal e a denominação inclui somente vinhos elaborados a partir de pelo menos três variedades, contendo uvas provenientes de vinhedos em Viena. A proporção mais alta de uma variedade não deve superar 50%; a terceira uva deve ser de pelo menos 10%. Assim definem as regras da DAC (Districtus Austriae Controllatus) Wiener Gemischter Satz.
Não é simplesmente uma denominação que regula a região e as variedades, mas que reforça a necessidade de manter uma tradição centenária. Para Rainer Christ, diretor e enólogo da Weingut Christ, estamos falando de “uma plantação com as variedades mais adaptadas, um jardim colorido, com integração perfeita entre elas”. Uma forma ancestral de elaborar vinhos e de interagir com a natureza, resgatada na cidade que é considerada pela Mercer Quality of Life Ranking como a melhor cidade do mundo para se viver. Coincidência?
Fontes: Austrian Wines; SlowFood; entrevista com Rainer Christ; Weinplus
Imagem: ÖWM / Lois Lammerhuber