A Austrália, com área de quase 7,7 milhões de quilômetros quadrados, é o sexto maior país do mundo, logo atrás do Brasil. Curiosamente, é também o sexto maior produtor de vinhos, o terceiro fora da Europa, depois de Estados Unidos e Chile. Por conta desta dimensão territorial, é um país com grande diversidade da vinicultura, com mais de 100 variedades diferentes plantadas em mais de 65 áreas distintas.
Apesar da colonização europeia relativamente recente (mais de 250 anos após a chegada de Cabral ao Brasil), conta com um longo histórico na viticultura. Hoje mostrando um invejável patrimônio de vinhas velhas, muitas delas datadas de antes da chegada da filoxera, é um país que passou por profundas transformações em termos de estilo de vinhos. Se no início o foco principal ficava em vinhos fortificados, posteriormente ganhou fama internacional por tintos potentes. Hoje, porém, desfila uma enorme diversidade, com vinhos em diferentes estilos. Vale a pena conhecer um pouco mais sobre a relação entre a Austrália e o vinho.
Os princípios
Se a chegada do capitão James Cook em 1770 marcou o primeiro contato dos europeus com o que viria a ser a Austrália, a colonização começou efetivamente em 1788. Após a perda de parte de suas colônias na América do Norte, os britânicos começaram a colonizar os novos territórios, com as primeiras videiras chegando já em 1788. Vindas da África do Sul, foram plantadas no que hoje é a área central de Sydney.
De lá, rapidamente foram levadas para a região do Hunter Valley e, logo a seguir para áreas na Tasmânia, Western Australia, South Australia e Victoria. Em todas estas regiões há registros de produção de vinho em escala comercial na década de 1830, com expansão contínua até o final do século XIX. Um nome de destaque foi o escocês James Busby, que trouxe centenas de mudas da Europa para a Austrália e Nova Zelândia, muitas das quais dando origem a vinhedos existentes até hoje. De forma geral, porém, os vinhos atendiam primordialmente ao mercado doméstico, com pouca projeção internacional.
Esta situação vira a mudar na virada para o século XX. Foi quando os vinhos fortificados australianos começaram a ganhar os mercados externos. Até a década de 1960 dominavam quase inteiramente a produção e o comércio, mas gradualmente começaram a perder espaço para os vinhos de mesa. As vendas de vinho tinto dispararam na década de 1970 e a demanda por vinho branco aumentou na década de 1980. E não demorou para que o mundo percebesse este movimento.

Capítulos recentes do vinho australiano
Um novo capítulo do vinho australiano começou na década de 1980. Se no início dos anos oitenta a Austrália era o 18º maior exportador mundial de vinho, no início dos anos 1990 já era o sexto. Com foco em qualidade, preços competitivos e uma bem-sucedida campanha de marketing, os vinhos australianos rapidamente ganharam espaço nos mercados britânico, norte-americano e asiático. O carro-chefe era os potentes vinhos tintos, sobretudo aqueles elaborados a partir da Syrah (localmente chamada de Shiraz), Cabernet Sauvignon e Mourvédre (Mataro para os locais)
Nos últimos anos, porém, este quadro mudou. Por conta da mudança no perfil dos consumidores de vinho ao redor do mundo, hoje há mais vinhedos plantados com uvas brancas do que tintas na Austrália. Atualmente a produção de Chardonnay já supera a de Shiraz e o estilo dos vinhos mudou, com aumento da presença de vinhos mais frescos e elegantes, com crescente uso da Pinot Noir.
Principais áreas e produção
Apesar de seu tamanho quase continental, a Austrália conta com apenas sete estados, dos quais seis produzem vinho em escala comercial. Em termos de área plantada, o líder segue sendo South Australia, com pouco mais de 76 mil hectares em 2019, o que correspondia a 52% dos vinhedos australianos. A seguir vinham New South Wales (35 mil ha, 24%), Victoria (22 mil ha, 15%) e Western Australia (11 mil ha, 7%). Tasmania e Queensland ficavam bem atrás.
Em 2023, a Austrália produziu cerca de 9,9 milhões de hectolitros de vinho, o que a colocava em sexto lugar no ranking mundial, entre Chile e África do Sul. O estado de South Australia, que concentra uma parte significativa das áreas mais conhecidas de produção de vinho, respondia por quase 50% deste total. É uma área que merece ser analisada mais de perto.
South Australia
Não há como falar de vinho australiano sem citar diversas das regiões situadas em Southern Australia. E um dos nomes mais icônicos é o de Barrosa Valley. Localizado a norte de Adelaide e com clima quente e seco, é lar de algumas das vinhas mais antigas do mundo. O foco principal fica na Shiraz (64% da produção), com vinhos potentes, encorpados e de taninos macios, além de Cabernet Sauvignon (12%) e Grenache (7%).
Já em duas áreas próximas ao Barrosa Valley, quem dá as cartas é a Riesling. Tanto em Eden Valley como em Clare Valley, a uva de origem alemã conta com climas mais amenos para trazer vinhos de alta acidez e longa guarda. Já Adelaide Hills tem a Sauvignon Blanc e Chardonnay como protagonistas, ao contrário do McLaren Valley, onde Shiraz responde por mais de 60% das videiras. Também com foco em uvas tintas, porém com predomínio da Cabernet Sauvignon, Coonawarra tem solos férteis (chamados terrarossa) e produz tintos premium e dignos de envelhecimento.
Victoria
Com alguns dos climas mais amenos da área continental da Austrália, as regiões próximas a Melbourne e Port Philip se beneficiam das brisas frias do oceano, dando condições ideais para uvas como Pinot Noir e Chardonnay. Yarra Valley é um dos grandes destaques, com clima marítimo frio a moderado, mas grande variedade de orientação e altitude. Pinot Noir é a principal especialidade (43% da produção), seguida pela Chardonnay (33%). As duas uvas originárias da Borgonha dominam também os vinhedos da Mornington Peninsula, assim como em Geelong. Em geral, são vinhos frescos e delicados.
Existem outras áreas importante em Victoria mais a leste, próximas à cadeia montanhosa Great Diving Range. Nas áreas mais altas, Pinot Noir, Chardonnay, Riesling e Sauvignon Blanc dominam. Já as encostas mais baixas contam com uvas de maturação tardia, como Shiraz e Cabernet Sauvignon, gerando vinhos mais leves e mais frescos destas variedades do que outras áreas. Exemplos são as regiões de Heathcote e Goulburn Valley.
New South Wales
Esta é o estado onde teve origem a vinicultura na Austrália, tendo Hunter Valley como região principal. Sofre com clima quente e úmido (subtropical), mas a alta cobertura de nuvens e brisas oceânicas reduzem o efeito do calor no verão. Os vinhos elaborados a partir da Sémillon (que domina 24% dos vinhedos) são a especialidade, com baixo teor alcoólico, alta acidez e potencial de envelhecimento. Destaque também para Chardonnay (25%) e Shiraz (23%), este último de corpo médio e perfil mais delicado que em Barossa.
Western Australia e Tasmânia
Estes dois estados têm história mais recente na vinicultura, porém perfis diferentes. Localizada no extremo oeste do país, Western Australia fica próxima da costa e tem clima mediterrâneo. É uma região sem uma uva dominante, porém mais conhecida pelos seus blends bordaleses, tanto tinto (Cabernet Sauvignon e Merlot) como branco (Sauvignon Blanc e Sémillon).
Já a ilha da Tasmânia, localizada a sudeste da massa continental australiana, é a região com menor tradição na vinicultura, com seus primórdios na década de 1970. Tem um clima marítimo fresco, onde os ventos provenientes do Oceano Antártico fazem a diferença. É conhecida pelos seus espumantes e ganhou projeção também pelos seus vinhos tranquilos elaborados a partir de Pinot Noir (47% da produção), Chardonnay (27%), Sauvignon Blanc e Pinot Grigio.
Principais uvas
Se no passado vinho australiano era quase sinônimo de uvas tintas, este quadro mudou de forma significativa nas últimas décadas. Atualmente os vinhedos australianos se dividem quase igualmente entre variedades tintas e brancas. Destas, a Chardonnay é o maior destaque, com pouco mais de 23% da produção total. A seguir vem Sauvignon Blanc (6%), Pinot Grigio (5%), Colombard e Sémillon (3%). A Riesling responde por apenas 1,5% dos vinhos australianos.
Entre as variedades tintas, a Shiraz segue como líder, responsável por 21% da produção de vinhos australianos. Terceira uva mais plantada, a Cabernet Sauvignon responde por 11% dos vinhos, seguida por Merlot (5%) e Pinot Noir (3%).
Legislação e indicações geográficas
Para entender melhor os vinhos da Austrália, é fundamental conhecer a sua hierarquia. As áreas produtoras de vinho podem ser divididas em três grupos, de acordo com critérios relacionadas à tipicidade. O primeiro grupo, o de Zonas, é baseado sobretudo em questões geográficas, geralmente incluindo áreas enormes e com pouca identidade de terroir. São mais de 30 zonas, algumas coincidindo com as áreas de estados, outras menores e outras ainda maiores, como a Southeastern Australia Zone, que basicamente inclui todos os vinhedos da Australia que não se localizam em Western Australia.
O segundo grupo é o de Regiões, conceito mais familiar para quem conhece a estrutura de classificação em outros países. Nestes casos, existem similaridades de terroir dentro destas áreas. Porém, estas regiões variam bastante em termos de tamanho, volume de produção e qualidade. Por exemplo, existem regiões como Coonawarra, Eden Valley e Margaret River, com foco em vinhos de maior valor agregado e menor volume de produção. Em outro extremo, há regiões como Riverland, Murray Darling e Riverina, com foco em vinhos de menor preço, respondendo, respectivamente por 31%, 22% e 18% de todo o vinho australiano. Por fim, existe também o conceito de Sub-regiões. São áreas que, de forma geral, se distinguem por maior especificidade em termos de estilo, variedades e qualidade.
Fontes: Wine Australia; A Enciclopédia do Vinho, Hugh Johnson; Encyclopedia of Wine, Larrouse; Atlas Mundial do Vinho, Hugh Johnson, Jancis Robinson; Understanding Wines: Explaining Styles and Quality, WSET; Foundations of Australian Wines, Wine Australia
Imagem: Patty Jansen via Pixabay