O senso comum sugere que a Borgonha é uma região dedicada exclusivamente a vinhos varietais de Pinot Noir (tintos) e Chardonnay (brancos). De fato, essa percepção não está longe da realidade: cerca de 94% do volume produzido na região segue essa lógica, considerando a média anual entre 2012 e 2022, segundo dados da associação de produtores locais.
No entanto, como em toda grande região vitivinícola, há exceções que enriquecem e tornam o cenário ainda mais interessante. Nesta coluna, destacamos três casos que mostram que nem toda regra é absoluta: duas denominações de vinhos brancos que não utilizam Chardonnay e, curiosamente, uma apelação em que nem todo vinho elaborado com Pinot Noir resulta em tinto.
As uvas da Borgonha
Embora Pinot Noir e Chardonnay sejam predominantes e responsáveis pelos vinhos mais emblemáticos da Borgonha, outras variedades resistem ao tempo por razões históricas e culturais. A Gamay, por exemplo, foi, durante séculos, a variedade dominante na região. Muito mais produtiva — chegando a render até quatro vezes mais do que a Pinot Noir —, era a escolha natural para quem priorizava volume. Por esse motivo, acabou sendo combatida pela elite local, formada por nobres e ordens religiosas, que buscavam maior qualidade e passaram a privilegiar a Pinot Noir.
No século XV, o Duque da Borgonha, fortemente influenciado pelos monges viticultores, chegou a decretar a proibição do cultivo da “diabólica” Gamay — um episódio que evidencia o quanto a viticultura sempre foi levada a sério na região. E usada para interesses muito bem definidos. Hoje, a Gamay ainda resiste, especialmente no sul da Borgonha, no Mâconnais, onde constitui parte relevante dos vinhos tintos de apelação regional.
Além dela, duas outras variedades brancas desafiam a hegemonia da Chardonnay: Aligoté e Sauvignon Blanc, cada uma associada a uma denominação específica.
AOC Saint-Bris
Localizada a cerca de 90 km de Sancerre, no Vale do Loire, Saint-Bris convida naturalmente à comparação com os vinhos dessa região vizinha. Embora existam semelhanças, as diferenças são marcantes. Trata-se de uma pequena AOC, com aproximadamente 170 hectares plantados exclusivamente com Sauvignon Blanc — a única variedade permitida na apelação. Entre os produtores de destaque está Philippe Defrance, ainda sem distribuição no Brasil.

AOC Bouzeron
Ao sul da Côte de Beaune, Bouzeron marca a entrada da Côte Chalonnaise, sendo sua área mais ao norte. A região se caracteriza por vinhedos em encostas com exposição a sul e sudeste, o que favorece a maturação das uvas. Com cerca de 56 hectares plantados, Bouzeron é dedicada exclusivamente à uva Aligoté — e apenas vinhos elaborados com essa variedade podem levar o nome da AOC no rótulo.
Curiosamente, a Chardonnay também é cultivada na região e pode originar bons vinhos, mas estes são classificados apenas como Borgonha regional, não sendo reconhecidos pela apelação Bouzeron. Um detalhe que pode parecer estranho à primeira vista, mas que reflete o rigor e a tradição das regras locais.

Marsannay: única denominação village de rosés
Na prestigiada Côte de Nuits, berço de alguns dos tintos mais renomados do mundo, encontra-se uma exceção singular: Marsannay. A proximidade com a cidade de Dijon levou um produtor local a destinar parte de sua produção à elaboração de vinhos rosés, buscando gerar fluxo de caixa com um estilo mais leve e acessível, elaborado a partir de Pinot Noir.
O sucesso foi imediato, e a prática se consolidou. Hoje, Marsannay é a única denominação village da Borgonha autorizada a produzir e rotular vinhos rosés — uma verdadeira exceção em uma região conhecida por sua tradição e rigor.

A Borgoha para além do óbvio
A Borgonha é, sem dúvida, uma região marcada pela tradição, pelo rigor e pela busca incessante da excelência. No entanto, são justamente suas exceções que revelam uma faceta menos óbvia — e talvez ainda mais fascinante.
Denominações como Saint-Bris, Bouzeron e Marsannay mostram que, mesmo em um dos territórios mais regulamentados do mundo do vinho, há espaço para diversidade, adaptação e identidade local. Explorar esses “desvios” das regras clássicas é uma excelente forma de ampliar o repertório e enxergar a Borgonha além do óbvio.
Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora aprofundar-se no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML. É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS.. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society of Wine Educators.
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Fotos: Renato Nahas, arquivo pessoal